ARTIGO do Padre Zezinho scj



DOIS ANOS PROVOCANTES
Entre os católicos usa-se a expressão "tempo forte" para acentuar alguma celebração ou provocação mais exigente em termos de catequese, uma vez que somos uma Igreja rica de conteúdo doutrinário e marcada por imensos e cada dia novos desafios. Mas há termos recorrentes que recebem maior destaque. Foi o caso desses dois anos que estamos a viver. Ano da catequese, ano Paulino, ano da Palavra, ano sacerdotal; quatro fortes catequeses em 24 meses.
O que pretendeu a Igreja com estes enfoques? Lembrar a interligação fortíssima entre eles. Somos um povo sacerdotal constantemente desafiado, que deve não apenas orar pelos sacerdotes e respeitá-los, mas também ajudá-los e, se for preciso, corrigi-los. O povo de Deus tem o direito de exigir maior preparação dos seus presbíteros. Trata-se da sua liderança!
Gritamos contra os políticos, o governo, o senado, as câmaras e as assembléias pela falta de decoro, de preparo e de ética, mas, na hora de votar, apertamos displicentemente aquele botão. Não levamos a sério as nossas escolhas. Todos os dias e não apenas durante as eleições somos chamados a reagir com respeito, para termos melhores políticos e melhores políticas. Não nos respeitou, ceda o seu lugar!
A Igreja pede a mesma reação e o mesmo respeito pelos pregadores da fé. Sem políticos não se faz a "polis", sem sacerdotes não se solidifica a comunidade. Daí a responsabilidade do sacerdote de ser homem de estudos, de livros, de ciência, de justiça, de coragem e de fé. São Paulo diz que não nos é permitido calar a boca, nem nos gloriarmos de nossa missão. (1 Cor 9,16) Mais do que consolador, o sacerdote deve ser transformador e formador de opinião. Se alguém deve morrer pela justiça seja ele o primeiro, a começar pelo papa e pelos bispos. E não foram poucos os que deram a vida pelo povo; entre eles bispos, sacerdotes e catequistas.
O sacerdote, porém só o será bom evangelizador se for homem de estudos. Infelizmente isso tem faltado a muitos pregadores de hoje que visivelmente não gostam de livros e não lêem teologia nem as doutrinas necessárias para um bom pregador da fé. O padre não tem que ser doutor, mas certamente tem que ser leitor. Desinformado, certamente desinformará. O povo tem reclamado das pregações que ouve. Acusam tais pregadores de mesmice, alguns dos quais falam a milhões de pessoas. Este ano sacerdotal pode nos tirar da mesmice! Livros e documentos não faltam.
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Paulo, Pedro e os demais apóstolos foram catequistas de primeira hora. Viram, ouviram, viveram e foram anunciar. Repercutiram Jesus com a sua própria vida. Com exceção de um, todos morreram por causa da Palavra, porque, no dizer de Antonio Vieira, eram mais do que pregadores de palavras, pregaram a Palavra e o fizeram com a própria vida, sem contemporizações, sem visar lucro e honrarias, sem buscar a fama e os primeiros lugares, sem nadar em luxo e conforto, expondo suas vidências sem querer a evidência. Revelados, revelaram muito a Jesus e bem pouco a si mesmos. É que não tinham um projeto pessoal. Seu viver era Cristo e este crucificado.(1Cor 2,2)
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Por isso, Paulo podia dizer como disse, que lutou com valentia sem dizer se derrotou alguém, e que correu como quem quer o prêmio, mas não o primeiro lugar. O justo juiz lhe daria a coroa que ele, Paulo, merecia...(2Tm 4,7-8 ) E Paulo toma o cuidado de dizer que não apenas ele, mas todos os companheiros receberiam, com ele, a mesma recompensa por terem anunciado a Palavra.
São tempos fortes para leigos, sacerdotes, catequistas, repercutidores da Palavra. A todos, o mesmo convite: menos vedetismo, menos eu e mais nós! Num mundo pouco solidário e excessivamente individualista, ao menos dos sacerdotes e catequistas, homem ou mulher, jovem ou ancião espera-se que repensem a confissão de Pedro e de Paulo. Converteram-se, tinham-se como um entre muitos, valorizavam os outros, e pensaram mais no povo de Deus e no mundo em crise do que neles mesmos. E Paulo foi duro contra os que torciam mais por um do que por outro apóstolo. Não quis tietagem ao seu redor. (1Cor 1,12-13)
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Um belo e exigente programa de vida. À pergunta de Jesus " quem vocês acham que eu sou?" (Mt 16,13-15) e à pergunta do mundo " Quem é esse homem?"(Mt 16,22; Jo 10,24 ) seria consolador se tivéssemos a coragem de Pedro que o proclamou messias, até mesmo sem entender as implicações de tal confissão; e a de Paulo que questionou os romanos sobre quem era o Jesus que deveriam buscar. O Jesus morto e crucificado ou o Jesus ressuscitado que voltou ao Pai e agora intercede por nós? (Rom 8, 34)
Dois anos fortes. Uma excelente ocasião para revermos nossa catequese, nosso jeito de crer e nossas atitudes. Ou somos o bebê chorão que ergue as mãozinhas, faz birra e espera que mãe venha e o tome no colo porque ele tem medo de estranhos e de fantasmas, ou o seu irmão gêmeo que chorando ou não, usa da sua capacidade, engatinha e vai buscar aquele colo!

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Pedro e Paulo e os demais apóstolos aprenderam a ir ao Cristo e ao povo. É possível quer tenham aberto os braços em oração e adoração, mas é certo que abriram a boca e falaram, usaram dos pés e foram lá onde se sofre e onde é preciso mudar as pessoas e a situação.
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Estamos nessa encruzilhada. Ou chamamos o povo ou vamos a ele! É a proposta desses dois anos fortes. O verbo é mais do que falar de Jesus: o verbo é ir ao povo para ajudá-lo a pensar como Jesus pensou e ir, não apenas pela mídia. O verbo ir supõe testemunhar e ajudar os que lá, já servem e ajudam os pobres e os sofredores. Igreja em paz é a que ora e que faz, nunca a que jaz, comendo pipoca no sofá, enquanto comenta o que vê na televisão. A morte talvez já esteja na próxima quadra, nas ruas e esquinas do nosso bairro! Apenas pediremos ajuda do céu ou abriremos também a boca, mentalizando e acordando a vizinhança?


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