Cardeais e jornalistas comentam a carta do Papa à Igreja da Irlanda

Comentário do cardeal Ruini

O cardeal Camillo Ruini, presidente do Comitê para o Projeto Cultural da Igreja italiana, antecessor de Bagnasco na presidência da CEI e vigário do Papa para a diocese de Roma de 1991 a 2008.

Em uma entrevista concedida ao jornal Il Foglio do dia 16 de março, poucos dias antes que o Papa publicasse sua carta, Ruini disse, dentre outras coisas:

"Em minha opinião, a campanha difamatória contra a Igreja Católica e o Papa executada pelos meios de comunicação faz parte da estratégia que já está em curso há séculos e que Friedrich Nietzsche já teorizava com o gosto dos detalhes. Segundo Nietzsche, o ataque ao cristianismo não pode ser levado ao plano da verdade, mas ao da ética cristã, que seria inimiga da alegria de viver. E então, gostaria de perguntar a quem lança os escândalos da pedofilia principalmente contra a Igreja Católica, talvez colocando na roda o celibato dos padres: não seria talvez mais honesto e realista reconhecer que certamente esses e outros desvios ligados à sexualidade acompanham toda a história do gênero humano, mas também que, no nosso tempo, esses desvios foram posteriormente estimulados pela tão conclamada 'libertação sexual'?".

Cardel Bagnasco
O cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo de Gênova e presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), na segunda-feira, 22 de março, no discurso com o qual abriu os trabalhos do Conselho Permanente da CEI, Bagnasco concluiu assim a passagem dedicada à carta do Papa aos católicos da Irlanda:

"De várias partes, mesmo que não católicas, percebe-se como, não de agora, o fenômeno da pedofilia parece estar tragicamente difundido em diversos ambientes e em várias categorias de pessoas: mas isso, longe de ser aqui evocado para diminuir os relativizar a específica gravidade dos fatos assinalados em âmbito eclesiástico, é ao invés um alerta a querer compreender o tamanho objetivo da tragédia. No momento mesmo em que sente sobre si a humilhação, a Igreja aprende do Papa a não ter medo da verdade, mesmo quando ela é dolorosa e odiosa, a não calá-la ou cobri-la. Isso, porém, não significa sofrer – no caso que existam – estratégias de descrédito generalizadas.

"Devemos, na realidade, interrogar-nos todos, sem mais álibis, a propósito de uma cultura que, nos nossos dias, impera incontrastada e acariciada, e que tende a desfazer progressivamente o tecido conectivo de toda a sociedade, zombando talvez de quem resiste e tenta se opor: isto é, a atitude de quem cultiva a absoluta autonomia dos critérios do juízo moral e veicula como bons e sedutores os comportamentos retalhados também sobre vontades individuais e instintos talvez desenfreados. Mas a exasperação da sexualidade desconectada do seu significado antropológico, o hedonismo em todo o lugar e o relativismo que não admite nem barreiras, nem sacudidas, fazem um grande mal porque são capciosos e às vezes insuspeitavelmente penetrantes.

"Convém então que todos voltemos a chamar as coisas com o seu nome sempre e em todo o lugar, a identificar o mal na sua progressiva gravidade e na multiplicidade das suas manifestações, para não nos encontrarmos com o tempo diante da pretensão de uma aberração reivindicada no plano dos princípios".

"Quando a exaltação da sexualidade invade todos os espaços da vida e quando se reivindica a autonomia do instinto sexual de todos os critérios morais, torna-se difícil fazer com que se compreenda que determinados abusos devem ser absolutamente condenados. Na realidade, a sexualidade humana desde o seu início não é simplesmente instintiva, não é idêntica à dos outros animais. É, como todo o homem, uma sexualidade 'impregnada' pela razão e pela moral, que pode ser vivida humanamente e tornar-nos verdadeiramente felizes, apenas se é vivida desse modo".

Jornalistas de "La Stampa" e "L'Espresso"

Para os jornalistas Marco Tosatti, do diário “La Stampa”, e Sandro Magister, do semanário “L’Espresso” — que há vários anos observam e comentam a política da Santa Sé — as atitudes de Bento XVI têm mostrado algum avanço na tradicional “política do avestruz”, adotada no passado, quando o Vaticano preferia ignorar — ou fingir ignorar — denúncias de abuso sexual.

— Bento XVI fez o que nenhum papa dos últimos séculos teve a audácia de fazer: dar ordens a toda a Igreja da Irlanda, pedindo que culpados fossem levados a tribunais canônicos e civis, além de fazer coletivamente penitência e purificação — destaca Magister. A seriedade e firmeza que Bento XVI demonstrou em atos públicos e religiosos, ao condenar insinuações de conivência, cumplicidade ou tentativa de acobertar crimes sexuais nas fileiras da Igreja impressionam os vaticanistas.

Por enquanto, eles são unânimes na defesa do Pontífice.

— Ninguém pode acusar Bento XVI de justificar o injustificável — arrisca Tosatti.

— Nem os piores inimigos, se forem sinceros — emenda o jornalista.

Magister lembra que é absurdo considerar referências do Papa ao perdão para pecadores como prova de tolerância com seus crimes.

— O Papa abre a porta do perdão de Deus até para o criminoso mais abominável, se estiver sinceramente arrependido — afirma Magister.

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