O que significa ser testemunha?

Dar testemunho ou ser testemunha, para os bispos da América Latina, tem um significado especial. Veja no Documento de Aparecida:
uma verdadeira ALEGRIA!


"Desejamos que a alegria que recebemos no encontro com Jesus Cristo, a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e redentor, chegue a todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades;
desejamos que a alegria da boa nova do Reino de Deus, de Jesus Cristo vencedor do pecado e da morte, chegue a todos quantos jazem à beira do caminho, pedindo esmola e compaixão (cf. Lc 10,29-37; 18,25-43).
A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e agoniado pela violência e pelo ódio.
A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus.
Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber;
tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas,
e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria." (DAp 32).

ATENÇÃO

A partir do dia 20 este blog terá novo endereço: http://testemunhasdoreino.blogspot.com

Artigo: Espiritualidade de Prosperidade - J. B. Libanio *

Os sistemas políticos e econômicos não vivem só de ideologia e dinheiro. Política e economia satisfazem as necessidades básicas do ser humano. Mas deixam em descoberto seu lado espiritual, religioso. Por isso, todo sistema econômico cria sua espiritualidade ou encampa algo já existente, imprimindo-lhe sua marca.

Os ideais socialistas casavam muito bem com a teologia da libertação, assim como com a luta das comunidades eclesiais de base nas suas reivindicações fundamentais. Sem transformar-se em ideologia socialista, a espiritualidade da libertação alimentava e alimenta até hoje as pessoas que se envolvem com as práticas transformadoras da realidade na linha da emancipação e promoção dos pobres.

E agora, que espiritualidade está a responder ao triunfo do neoliberalismo? Onde ele busca apoio espiritual para preencher o vazio que o puro consumismo e o materialismo deixam atrás de si?

Muitas igrejas pentecostais e neopentecostais têm elaborado a espiritualidade da prosperidade e com isso mantido as pessoas nas redes do neoliberalismo, respaldadas por uma visão religiosa da realidade. Em que consiste tal espiritualidade?

Na base está o individualismo neoliberal com sua concepção de concorrência e competição de modo que vencem os mais fortes, os mais sabidos, os mais "vivos". Daí resulta o progresso. Pior para quem fica fora dele. Dito desta maneira rude poderia doer aos ouvidos cristãos. Aí entra uma pitada de espiritualidade que tudo tempera.

Deus quer a felicidade, a riqueza, os bens materiais, a felicidade, a saúde, aqui e agora, para seus filhos. Quem são eles se não os cristãos? Pensar de maneira diferente é cair na alienação tradicional. Esta prometia os bens somente para a vida eterna que se obtinha com os sofrimentos aqui na terra.

Cristo já sofreu no nosso lugar. Agora vem-nos a bênção de Deus. Somos "filhos do Rei". Se vamos para o céu, por que não antecipar um pouco dele nesta vida?

E os pobres? Sempre os haverá entre nós, como diz o Senhor. Eles são os perdidos. São preguiçosos, viciados, idólatras. Se vão mesmo para o inferno, por que não ensaiar um pouco aqui na terra? "O Terceiro Mundo é pobre porque idólatra", pregava Luiz Palau, evangelista argentino, americano naturalizado. Dois irmãos nordestinos sentenciavam, em São Paulo, que a culpa da pobreza do Nordeste é a devoção idólatra ao Padre Cícero.

Se os cristãos não ficarem ricos, isto é falta de fé. Vem de algum pecado oculto. Confessando-os, conhecerão a prosperidade. Mas se mesmo assim, não ficarem ricos, então a culpa é de algum antepassado.

Nessa espiritualidade, não há lugar para a solidariedade nem para a opção pelos pobres. É estritamente individualista. É uma espiritualidade dos resultados. Os ricos já estão abençoados. Encontram nela paz interior, uma vez que já possuem os bens materiais. Os pobres devem buscá-la para si e seus familiares, recorrendo a ritos religiosos, como o de abençoar ou ungir de óleo santo as carteiras profissionais.

Para a Igreja Universal do Reino de Deus a vida espiritual é uma transação financeira com o céu. Quanto maior a oferta, tanto maior a bênção. A espiritualidade da prosperidade é o coração dessa Igreja. Ela incentiva mais que ter carteira assinada é a criação de microempresas. Um bispo seu, trafegando em luxuoso carro do ano, dizia: "Eu ensino a prosperidade e vivo a prosperidade".

Apela-se então para um "poder" nas palavras o qual libera "energias positivas" e combate o baixo astral com efeito sobre as coisas, doenças. A realização dessa espiritualidade é "vida longa e próspera".

Outra expressão é a idéia de que Deus não fez seu povo para ser "cauda" do mundo, mas sua "cabeça". Incentivam-se os cristãos a ambicionar postos de mando na Terra. Aos "perdidos" cabe impor obediência e evitar que façam males maiores.

A participação na política não visa a uma transformação social, mas a travar a luta do bem contra o mal, sem lugar para o pluralismo. O bem se identifica com os ideais e interesses da própria igreja e de seus dirigentes. Volta-se à velha idéia da batalha espiritual que transforma em inimigo tudo com o que essa espiritualidade não concorda. Divide o mundo em dois campos: o lado de Deus (o lado da igreja) e o lado do mal, do demônio: todas as forças que divergem de sua maneira de ver a realidade.

A espiritualidade da prosperidade é uma resposta ao momento atual. Corresponde muito bem ao clima dominante da cultura pós-moderna a serviço do neoliberalismo. Daí sua sedução. Oferece o caminho rápido do sucesso sem passar pelo trabalho, pela renúncia, pelo esforço. O êxito econômico se faz até mesmo por vias suspeitas. Ele é sinal da bênção de Deus. A riqueza é vista no seu valor em si mesmo, sem nenhuma responsabilidade social. Muito distante da doutrina social da Igreja que defende a hipoteca social sobre toda posse. Os bens materiais são vistos como privilégio e bênção para alguns escolhidos de Deus e não destinados a todos. Produz-se uma identificação rápida entre a bênção de Deus e os bens materiais dos ricos.

Atém-se a uma interpretação literal e unilateral do Antigo Testamento. Esquece-se de que Jesus veio dar-lhe o verdadeiro sentido. Não se tem a mínima sensibilidade pela dimensão social nem pelo amor predileto de Deus pelo pobre. Os verdadeiros bens para o cristão encontram-se retratados por Jesus no sermão da montanha e na sua vida.

Jesus proclama bem-aventurados os pobres e não aqueles que nadam em riqueza e a ambicionam para si. Jesus invectiva aquele rico que só pensava em armazenar ainda mais seus bens. "Insensato! Esta noite mesmo a tua vida ser-te-á reclamada e o que tu preparaste, quem é o que o terá?" E conclui com um dito lapidar: "Eis o que acontece a quem reúne um tesouro para si mesmo, em vez de enriquecer junto a Deus" (Lc 12, 16-21)

Como se vê, é exatamente o oposto da espiritualidade da prosperidade que só pensa em entesourar para si e quanto mais, melhor. Esquece da condição mortal.

Mais ainda. Jesus refere-se diretamente à fragilidade dos bens terrestres que as traças e os vermes corroem; que os ladrões roubam. Conclui: "acumulai para vós tesouros no céu, onde nem as traças nem os vermes causam estragos, onde os ladrões não arrombam nem roubam". E termina com um dito de sabedoria: "onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração" (Mt 6, 19-21).

O ensinamento de Jesus sobre o seguimento situa-se em posição diametralmente oposta à espiritualidade da prosperidade. Na base está o desprendimento e não a acumulação. "Qualquer um de nós que não renuncia a tudo o que lhe pertence não pode ser meu discípulo" (Lc 14, 33).

Precisa ser de uma absoluta cegueira a respeito do evangelho de Jesus para propor uma espiritualidade da prosperidade como expressão do projeto de Deus. Este se manifestou em sua plenitude na pregação e pessoa de Jesus. As passagens do Antigo Testamento, que parecem identificar a bênção de Deus com a abundância dos bens, revelam um aspecto de seu projeto criador. Os bens criados estão destinados a todos os seres humanos e não a serem privilégio de alguns que se engolfam neles enquanto outros carecem de tudo. O Novo Testamento avança. Relativiza os bens materiais na perspectiva do irmão, do serviço aos outros, da própria missão.

A espiritualidade da prosperidade inverte o sentido cristão. É materialista, pagã. Nada cristã. Não se opondo ao canto de sereia do neoliberalismo, capitula. É a espiritualidade que justifica a injustiça social, tranqüilizando a consciência com tintura religiosa. Camufla a verdade da injustiça social, transferindo para Deus - bênção e maldição - a diferença social entre os humanos, fruto do sistema econômico, ao menos, na forma atual.

[www.jblibanio.com.br (site organizado pelo grupo de amigos e admiradores de JB Libanio. Confira desse autor o livro: Qual o futuro do Cristianismo? São Paulo, Paulus, 2006; 2ª. Ed. 2008)].
* Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano

Artigo: MÊS DE JUNHO E PÁTRIA DOS MIGRANTES


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS







De um ponto de vista religioso e cristão, junho é um mês significativo para os migrantes. Além de celebrarmos os chamados santos populares – Santo Antonio, São João e São Pedro, nos dias 13, 24 e 29 respectivamente – celebramos também o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. No imaginário popular brasileiro todas essas festas, e mais a dos santos padroeiros, ocupam lugar de destaque e de profunda devoção. Mês do dia dos namorados e do amor em termos mais amplos. Em determinadas regiões do Brasil, equivale em importância religiosa, ao Natal ou à passagem de ano.

Esse apelo ao transcendente ter a ver com a extrema precariedade de imensos setores da população brasileira e latino-americana. Diante de tantas adversidades e fracassos diários, o povo pobre e carente busca no santo ou na misericórdia divina um conforto para suas dores e um horizonte para suas esperanças. “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso; tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). O mesmo vale para a devoção a Maria. Por mais adultos e crescidos que sejamos, por vezes as quedas e tropeços do dia-a-dia nos fazem desejar o colo da mãe, aquela que, cuidadosa e maternalmente, “guardava todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19).

Mas a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, em especial, revela-se como uma espécie de porto seguro para aqueles que, pelas estradas do mundo, encontram-se periódica ou permanentemente a caminho. De fato, contam-se hoje aos milhares e milhões as pessoas sem pátria. Dessas, muitas jamais deixaram a terra em que nasceram e sepultaram seus entes queridos, mas as condições em que vivem negam-lhes uma cidadania justa e digna. Outras ultrapassam as fronteiras do município, do estado, do país e até do continente para encontrar um solo onde possam sentir-se cidadãos respeitados em seus direitos básicos.

Não poucas se vêem obrigadas a deixar a família e a nação em que os viu nascer, a terra natal, por motivos de guerra, conflitos localizados, confronto pelo controle do narcotráfico, tráfico de seres humanos, perseguição política, catástrofes “naturais” e até guerras santas. Órfãs de família e de pátria, seguem errantes grandes multidões de refugiados, deportados, prófugos, “desplazados”, imigrantes e emigrantes empobrecidos. Outros o fazem por motivos de trabalho ou de cultura, tais como caminhoneiros, marítimos, aeroviários, nômades, ciganos...

Neste cenário da mobilidade humana, as palavras de Jesus – “Vinde a mim vós que estais cansados...” – adquirem um sentido todo particular. No seu vaivém contínuo, não é raro deparar-se com corações de pedra, com portas fechadas e com fronteiras instransponíveis. Pior ainda é o preconceito, e a discriminação, o racismo e a xenofobia. O Coração de Jesus torna-se então uma pátria segura para os pobres, aflitos, doentes, indefesos, marginalizados, solitários, perdidos... enfim, para todos os que em sua trajetória humana experimentam situações-limite de sofrimento. Para os que chegam à fronteira da sobrevivência, e são obrigados a deslocar-se geograficamente, como ocorreu com a própria família de Nazaré, em sua fuga e retorno do Egito.

Podemos alegar que tudo isso não passa de fuga, alienação, transposição para o além do Reino de Deus. Este deve começar na história terrena, aqui e agora. Evidentemente há um pouco disso. Mas há também, e sobretudo, uma crítica velada a um individualismo que fecha a cara a tudo que é estranho e diferente, a uma sociedade sem coração e sem alma, a uma pátria que nega a seu povo condições mínimas de vida, a um modelo socioeconômico e político que privilegia as classes dominantes, deixando do lado de fora a imensa maioria da população.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria sofre dessa ambiguidade. De um lado, pode ser uma forma de transpor para a vida futura o que esta nega à grande massa dos seres humanos. Como se o sofrimento representasse uma espécie de passaporte para a salvação eterna. Não há como negar que, durante séculos, a própria Igreja difundiu, alimentou e consolidou esta esperança entre as populações pobres e miseráveis.

De outro lado, porém, a mesma devoção apresenta um aspecto duplamente profético: ao mesmo tempo que denuncia as assimetrias, injustiças e desigualdades sociais que levam tantas pessoas a se deslocarem de forma muitas vezes forçada, anuncia a necessidade urgente de mudanças nas relações humanas, sejam elas pessoais ou familiares, comunitárias, sociais ou econômicas, políticas ou culturais. O simples fato de migrar torna-se um ato profético, na medida em que escancara a precariedade de certas regiões dos países e do planeta, tentando vida melhor nas zonas centrais e desenvolvidas. A fuga se converte em busca, as condições desumanas em esperança, a falta de perspectivas em novos horizontes.

Apontando o Coração de Jesus e de Maria como pátria dos errantes e desterrados, milhões de caminhantes lançam um brado ao céu e outro à terra. À terra, porque se vêem dela escorraçados por leis e autoridades que sempre os fazem ir mais adiante, expulsos do convívio humano, numa sociedade concentradora e excludente. Ao céu, porque, após tantas peregrinações em vão, esperam encontrar em Deus a pátria definitiva, um coração paterno e materno que enfim lhes dê casa e abrigo, refúgio, descanso e paz.

Pensando no futuro!

"Alegrem-se comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!" (Lc 15,6)

Em nossa enquete sobre a continuação deste blog, 91% votaram pela sua continuidade. Destes, 30% votaram pela mudança do nome. A equipe responsável vai pensar no novo nome e em novo visual, conservando os conteúdos postados durante este ano. Agradecemos a todos que participaram da enquete e nos acompanharam durante este ano!

Celebração de encerramento do Ano Sacerdotal


Hoje, dia do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja viveu na Praça São Pedro a maior Concelebração Eucarística da história de Roma. Uma imensa multidão branca cobriu dois terços da praça, oferecendo um visual inédito: 15 mil sacerdotes concelebraram com Bento XVI a conclusão do Ano Sacerdotal.

O Papa entrou na praça de jeep aberto, e fez o giro pelos quatro setores dianteiros, sorrindo e abençoando os presentes. A cerimônia teve início com o rito de aspersão com a água benta, como ato penitencial, fazendo referência ao sangue e à água emanados do Coração do Senhor como salvação para o mundo, evocando assim o tema da purificação.

Em sua homilia, Bento XVI citou o Santo Cura d’Ars, como modelo do ministério sacerdotal em nosso mundo; e abordou a questão dos abusos sexuais na Igreja, pedindo um explícito perdão a Deus e às vítimas dos abusos cometidos por sacerdotes e bispos.

“O sacerdote não é simplesmente o detentor de um ofício, como os ofícios dos quais toda sociedade precisa. Ele faz algo que nenhum ser humano pode fazer por si: pronuncia, em nome de Cristo, a palavra de absolvição dos nossos pecados e muda assim, a partir de Deus, a situação da nossa vida. O sacerdócio não é simplesmente um ofício, mas sacramento” – recordou.

Embora conhecendo as fraquezas humanas, Deus confia nos sacerdotes, e Bento XVI quis ressaltá-lo aos jovens, auspiciando novas vocações para a Igreja:

“Esta vocação, esta comunhão de serviço para Deus e com Deus, existe – aliás, Deus está à espera do nosso ‘sim’. Junto à Igreja gostaríamos novamente de pedir a Deus esta vocação. Pedimos operários para a messe de Deus”.

Para o Papa, este pedido a Deus é ao mesmo tempo, um bater de Deus no coração de jovens que se considerem capazes daquilo de que Deus os considera capazes: “Era de se esperar que este novo brilhar do sacerdócio não agradasse ao ‘inimigo’; ele preferiria vê-lo desaparecer, para que afinal, Deus fosse afastado do mundo.

“E assim se deu que, justamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados de sacerdotes – sobretudo o abuso contra as crianças, no qual o sacerdócio, como sinal da ternura de Deus em favor do homem se reverte em seu contrário”.

“Também nós pedimos insistentemente perdão a Deus e às pessoas envolvidas, ao tempo em que prometemos fazer todo o possível a fim de que tal abuso jamais possa voltar a se verificar; faremos tudo que estiver ao nosso alcance para avaliar a autenticidade da vocação; e acompanharemos ainda mais os sacerdotes em seu caminho, a fim de que o Senhor os proteja e os defenda em situações penosas e nos perigos da vida”.

Neste sentido, Bento XVI ressaltou que estes acontecimentos, emersos durante o Ano Sacerdotal, devem ser vistos como uma “tarefa de purificação, uma tarefa que nos acompanha rumo ao futuro e que, mais ainda, nos faz reconhecer e amar o grande dom de Deus”.

O Papa afirmou ainda que os sacerdotes devem estar próximos de seu rebanho, pois em relação ao âmbito a ele confiado, assim como o fez o Senhor, ele deveria poder dizer: “Eu conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem”.

Mas “conhecer” não somente um saber exterior, como se conhece o número telefônico de uma pessoa, “conhecer” significa estar interiormente próximo ao outro. Querer-lhe bem. Nós devemos tentar conhecer os homens; devemos buscar trilhar com eles, o caminho da amizade com Deus.

A este ponto de sua homilia, o Papa quis assegurar sacerdotes e fiéis sobre a presença de Cristo, e baseando-se no Salmo responsorial, disse:

“No vale tenebroso, não temo nenhum mal. Podemos pensar também nos vales tenebrosos da tentação, do desencorajamento, da provação, que toda pessoa humana deve atravessar. Também nesses vales tenebrosos da vida Ele está lá”.

Junto ao bastão – explicou ainda Bento XVI– está o cajado, que dá apoio e ajuda a atravessar passagens difíceis. Ambas as coisas têm lugar também no ministério da Igreja, no ministério do sacerdote. O Pontífice adaptou esta metáfora para a realidade de hoje, afirmando que também a Igreja deve usar o bastão do pastor, o bastão com o qual protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que são, na realidade, desorientações.

“Justamente o uso do bastão pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. Bem como não se trata de amor se se deixa proliferar a heresia, o desvio e o esfacelamento da fé, como se nós autonomamente inventássemos a fé”.

Depois da homilia, os sacerdotes renovaram as promessas sacerdotais, como na Quinta-Feira Santa, na Missa crismal.

Antes da bênção final, o Santo Padre renovou o ato de consagração dos sacerdotes a Nossa Senhora, segundo a fórmula utilizada por ocasião da recente peregrinação a Fátima, e proferiu algumas palavras em português:

Queridos sacerdotes dos países de língua oficial portuguesa, dou graças a Deus pelo que sois e pelo que fazeis, recordando a todos que nada jamais substituirá o ministério dos sacerdotes na vida da Igreja. A exemplo e sob o patrocínio do Santo Cura d’Ars, perseverai na amizade de Deus e deixai que as vossas mãos e os vossos lábios continuem a ser as mãos e os lábios de Cristo, único Redentor da humanidade!”.


Artigo: O olhar


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS






Todo o olhar desvenda e desnuda. Ao pousar sobre outro, tira as máscaras, vê além das aparências. Ocorre isso porque os olhos costumam ser a janela da alma. Revelam em geral aquilo que gostaríamos de ocultar aos demais. Em numerosas ocasiões desmentem os gestos e a verborréia das palavras. Até mesmo os animais, com seu olhar aparentemente neutro e inexpressivo, muitas vezes parecem trazer à luz sentimentos genuinamente humanos, tais como tristeza e alegria, saudade e euforia, raiva e humilhação...

Entretanto, há olhares que desnudam para expor em praça pública a nudez de alguém que se acha indefeso. São os olhos da indiscrição, da curiosidade ou do voyeurismo irresponsável. De fato, é comum encontrar pessoas dispostas a invadir a privacidade alheia, submetendo-a ao escárnio e ao ridículo. Desvendam sem escrúpulo aquilo que o ser humano possui de mais íntimo e sagrado. Ao fazer circular determinadas imagens ou sentimentos, provocam a timidez, a vergonha ou a revolta. Como a fumaça, os segredos jogados ao vento não têm retorno.

De outro lado, há olhares que somente desnudam para, em seguida, revestir de profundo respeito a nudez do outro. Neste caso, só o amor é capaz de defrontar-se com a nudez sem reduzi-la a um escândalo ou ao vexame. Da mesma forma que põe a nu os segredos mais ocultos, o amor os cobre de carinho e ternura, evitando a exposição à curiosidade estranha. É assim que um corpo só pode permanecer nu diante do olhar amado, pois este o reveste de uma roupa invisível, mas nobre e sublime. Abrir a privacidade de uma pessoa é o mesmo que abrir o sacrário. Nos dois casos, estamos diante do mistério que não pode banalizado.

O primeiro tipo de olhar tende a rasgar e ferir, ao passo que o segundo afaga e protege. Ambos retiram da pessoa todas as defesas, deixando-a despida e desamparada. Mas enquanto um exibe a nudez como uma espécie de troféu de sua vitória, o outro a envolve numa nova veste que a deixa segura e confiante. Ambos podem ser comparados ao bisturi do cirurgião. A diferença é que o olhar possessivo e curioso corta o tumor para escancarar sua podridão, ao contrário do olhar amoroso, que corta para curar. Um aponta o dedo em riste sobre a ferida exposta, atraindo sobre ela a atenção de todos; o outro, usa o bálsamo da compreensão e da misericórdia para saná-la.

Por aí se explica porque muitos olhares nos fazem reagir com um desvio imediato, automático, quase involuntário. Sentimos a invasão e procuramos defender a intimidade violada. No trem, no ônibus, na multidão, nas ruas... é comum os olhares se cruzarem e se desviarem logo, ao ser surpreendidos. Também com o olhar é possível violentar um segredo alheio. Daí a reação inconsciente, instantânea. Diante de um olhar que ama, porém, permanecemos firmes e sem medo, pois a nudez está protegida da mera curiosidade. O amor nos deixa transparentes, nus e frágeis como a flor ao vento, mas, ao mesmo tempo, nos recobre com uma capa de profunda compaixão.

Ilustra bem isso o episódio da mulher adúltera no Evangelho de João (Jo 8, 1-11). Três olhares estão em cena: o da própria mulher surpreendida em adultério, o dos escribas e fariseus que carregam e acusam a mulher e o de Jesus. Trata-se, no fundo, de dois olhares apenas. Certamente a mulher já terá introjetado em si mesma a opinião daquela cultura legalista e marcadamente machista. Ela mesma provavelmente se vê como impura e pecadora.

Hoje diríamos que os escribas e fariseus representam o olhar da opinião pública. Esta desnuda a mulher, expõe seu pecado à luz do dia, para julgá-la, acusá-la e apedrejá-la. A exemplo de muitos setores da mídia e das multidões enfurecidas, a opinião pública guia-se unicamente pela letra da lei. Permanece cega e surda às circunstâncias históricas e à condição da acusada. É preciso que se cumpra o que está escrito.

O olhar de Jesus repousa com doçura sobre o coração e a alma da mulher. Não julga, apenas observa e ilumina, em silêncio. Joga uma luz nova sobre as entranhas mais íntimas do ser humano. Sabe que, muito mais que pecadora, aquela mulher é vítima do contexto social. Não ignora também a possibilidade do arrependimento e da conversão. Passa por cima de todo discriminação e preconceito. Concede uma nova chance a um coração que só quer amar e ser amado. A misericórdia prevalece sobre a lei. Mais ainda, Jesus inverte a situação do “tribunal público e popular”. Aquela que vinha sendo julgada, condenada à marginalidade, é convidada ao centro. A ré torna-se referência para o julgamento dos pretensos juízes. “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.

Qual não terá sido a surpresa dos escribas e fariseus, bem como da própria mulher! “Eu também não te condeno; vai, e de agora em diante não tornes a pecar”. O pecado não é justificado, mas o pecador tem direito a uma nova oportunidade.

ARTIGO: O jardineiro - Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS*


Sempre tive uma vontade oculta de ser jardineiro: mexer com a terra, afundar os pés e as mãos em suas entranhas, sentir-lhe o calor e o frio, inebriar-me de seus cheiros, seguir as estações do ano, contemplar o sol e a chuva, lançar a semente e esperar a lenta maturação da vida... Mas especialmente cultivar flores. Quem sabe, um dia, ser uma entre elas!

Mas a profissão de jardineiro tem suas armadilhas. Sem dúvida, é gratificante ver as plantas se erguerem do solo, produzir botões e estes se abrirem em pétalas de diferentes cores e tonalidades. Em pouco tempo, porém, elas murcham, secam, desaparecem. Com a mesma voluptuosidade com que buscam o céu azul, a luz e o ar livre, também se curvam encarquilhadas sobre o chão, morrem e caem no esquecimento. Menos mal que deixam na terra suas sementes e que estas, em potencial, contêm novas flores. Cedo ou tarde, haverão de romper a superfície da terra e se reerguer para a vida.

Outra armadilha é que, após preparar o solo, lançar a semente, e zelar diariamente pela sua gestação, o jardineiro pode surpreender-se com alguma flor que nasce fora do jardim cultivado. Tanto carinho e cuidado, para ver o broto ressurgir em meio ao mato e aos espinhos, ou entre as pedras do caminho. Flores são seres rebeldes, crescem não raro onde menos se espera, longe de nosso alcance. Às vezes são mais vivas e vigorosas onde a terra é mais agreste.

Ninguém como o jardineiro se dá conta de como a flor é bela e frágil. Ou melhor, bela porque frágil. Oferece seu brilho intenso e colorido, mas sempre provisório. Tão forte quanto fugaz, talvez porque possui uma estranha consciência orgânica de que sua passagem pela vida é breve. Logo terá de desaparecer! O mesmo ocorre com o perfume. A flor exala-o com tanta intensidade que chega a embriagar o viajante que passa. Mas fenece junto com ela. Também neste caso é verdade que, apesar de resistir mal à tormenta, a beleza e o perfume da flor jamais se apagam da memória de quem os experimentou.

Mas o cultivador de flores conhece outros segredos. Sabe que cada uma delas é única, incomparável e insubstituível. Inútil perguntar qual a mais bonita, a mais sedutora a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim.

O senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Se tentar fazê-lo, mata-as, perdendo-as para sempre. De resto, essa relação com as flores reproduz-se na relação com outros seres vivos, plantas ou animais, como também na relação entre as pessoas. Cultivar implica não em dominar e possuir, mas deixá-las livres. Livres para que outros possam desfrutar de seu conhecimento e riqueza. A posse é a negação do amor.

O jardineiro é diferente do colecionador. De fato, O cultivador de carros de luxo, de pérolas preciosas, de contas bancárias, de objetos exóticos, como também o cultivador de mágoas ou ressentimentos, de ódio ou vingança, torna-se escravo daquilo que cultiva. Constrói sua própria prisão. “Onde está teu tesouro, aí está teu coração”, diz o sábio Jesus. Ao contrário do colecionador, o jardineiro aprende que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. Mas ele as colhe com o olhar, com o deslumbramento da alma. Prendê-las é condená-las à morte.

E assim, livre e bela, a flor pode entregar-se gratuitamente a todos que visitam o jardim. Seu brilho fala de Deus quando guarda as gotas do orvalho noturno ou abre suas pétalas à luz matutina, quando dança ao ritmo da brisa suave ou oferece seu néctar ao beija-flor, o qual, a seu turno, transportará o pólen para fecundar outras flores, alimentando assim o ciclo interminável da vida.

Unida ao sorriso da criança, ao murmúrio ou ao rugido da água, ao canto do pássaro, à luz longínqua da estrela, ao sol que chega ou que parte, ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos – a flor integra a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Cultivar flores é cultivar relações novas, livres, autênticas, transparentes. Relação consigo mesmo, com o outro e com os outros, com a história de um povo, com o meio ambiente, com o Transcendente. Essas dimensões, embora distintas, não constituem instâncias cerradas uma à outra. Ao contrário, todas se entrelaçam inextricavelmente. Todas se interpelam e se integram, se enriquecem e se complementam. O cultivo de uma repercute no crescimento das demais, o descuido de uma significa o esvaziamento de todo o ser.

Como ponto final, vale sublinhar, uma vez mais, a lição da flor: porque é bela, fugaz e frágil, ela brilha e se apaga, revela-se e se esconde, aparece e desaparece, como o Amado que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente.

* Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS, padre Alfredo é sacerdote da Congregação dos padres scalabrinianos, atual provincial da Congregação, e reside em São Paulo