Artigo: MÊS DE JUNHO E PÁTRIA DOS MIGRANTES


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS







De um ponto de vista religioso e cristão, junho é um mês significativo para os migrantes. Além de celebrarmos os chamados santos populares – Santo Antonio, São João e São Pedro, nos dias 13, 24 e 29 respectivamente – celebramos também o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. No imaginário popular brasileiro todas essas festas, e mais a dos santos padroeiros, ocupam lugar de destaque e de profunda devoção. Mês do dia dos namorados e do amor em termos mais amplos. Em determinadas regiões do Brasil, equivale em importância religiosa, ao Natal ou à passagem de ano.

Esse apelo ao transcendente ter a ver com a extrema precariedade de imensos setores da população brasileira e latino-americana. Diante de tantas adversidades e fracassos diários, o povo pobre e carente busca no santo ou na misericórdia divina um conforto para suas dores e um horizonte para suas esperanças. “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso; tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). O mesmo vale para a devoção a Maria. Por mais adultos e crescidos que sejamos, por vezes as quedas e tropeços do dia-a-dia nos fazem desejar o colo da mãe, aquela que, cuidadosa e maternalmente, “guardava todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19).

Mas a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, em especial, revela-se como uma espécie de porto seguro para aqueles que, pelas estradas do mundo, encontram-se periódica ou permanentemente a caminho. De fato, contam-se hoje aos milhares e milhões as pessoas sem pátria. Dessas, muitas jamais deixaram a terra em que nasceram e sepultaram seus entes queridos, mas as condições em que vivem negam-lhes uma cidadania justa e digna. Outras ultrapassam as fronteiras do município, do estado, do país e até do continente para encontrar um solo onde possam sentir-se cidadãos respeitados em seus direitos básicos.

Não poucas se vêem obrigadas a deixar a família e a nação em que os viu nascer, a terra natal, por motivos de guerra, conflitos localizados, confronto pelo controle do narcotráfico, tráfico de seres humanos, perseguição política, catástrofes “naturais” e até guerras santas. Órfãs de família e de pátria, seguem errantes grandes multidões de refugiados, deportados, prófugos, “desplazados”, imigrantes e emigrantes empobrecidos. Outros o fazem por motivos de trabalho ou de cultura, tais como caminhoneiros, marítimos, aeroviários, nômades, ciganos...

Neste cenário da mobilidade humana, as palavras de Jesus – “Vinde a mim vós que estais cansados...” – adquirem um sentido todo particular. No seu vaivém contínuo, não é raro deparar-se com corações de pedra, com portas fechadas e com fronteiras instransponíveis. Pior ainda é o preconceito, e a discriminação, o racismo e a xenofobia. O Coração de Jesus torna-se então uma pátria segura para os pobres, aflitos, doentes, indefesos, marginalizados, solitários, perdidos... enfim, para todos os que em sua trajetória humana experimentam situações-limite de sofrimento. Para os que chegam à fronteira da sobrevivência, e são obrigados a deslocar-se geograficamente, como ocorreu com a própria família de Nazaré, em sua fuga e retorno do Egito.

Podemos alegar que tudo isso não passa de fuga, alienação, transposição para o além do Reino de Deus. Este deve começar na história terrena, aqui e agora. Evidentemente há um pouco disso. Mas há também, e sobretudo, uma crítica velada a um individualismo que fecha a cara a tudo que é estranho e diferente, a uma sociedade sem coração e sem alma, a uma pátria que nega a seu povo condições mínimas de vida, a um modelo socioeconômico e político que privilegia as classes dominantes, deixando do lado de fora a imensa maioria da população.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria sofre dessa ambiguidade. De um lado, pode ser uma forma de transpor para a vida futura o que esta nega à grande massa dos seres humanos. Como se o sofrimento representasse uma espécie de passaporte para a salvação eterna. Não há como negar que, durante séculos, a própria Igreja difundiu, alimentou e consolidou esta esperança entre as populações pobres e miseráveis.

De outro lado, porém, a mesma devoção apresenta um aspecto duplamente profético: ao mesmo tempo que denuncia as assimetrias, injustiças e desigualdades sociais que levam tantas pessoas a se deslocarem de forma muitas vezes forçada, anuncia a necessidade urgente de mudanças nas relações humanas, sejam elas pessoais ou familiares, comunitárias, sociais ou econômicas, políticas ou culturais. O simples fato de migrar torna-se um ato profético, na medida em que escancara a precariedade de certas regiões dos países e do planeta, tentando vida melhor nas zonas centrais e desenvolvidas. A fuga se converte em busca, as condições desumanas em esperança, a falta de perspectivas em novos horizontes.

Apontando o Coração de Jesus e de Maria como pátria dos errantes e desterrados, milhões de caminhantes lançam um brado ao céu e outro à terra. À terra, porque se vêem dela escorraçados por leis e autoridades que sempre os fazem ir mais adiante, expulsos do convívio humano, numa sociedade concentradora e excludente. Ao céu, porque, após tantas peregrinações em vão, esperam encontrar em Deus a pátria definitiva, um coração paterno e materno que enfim lhes dê casa e abrigo, refúgio, descanso e paz.

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