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CARTA PASTORAL - Bento XVI aos católicos da Irlanda

No contexto dos abusos de crianças e jovens por parte do clero
1. Amados Irmãos e Irmãs da Igreja na Irlanda, é com grande preocupação que vos escrevo como Pastor da Igreja universal. Como vós, fiquei profundamente perturbado com as notícias dadas sobre o abuso de crianças e jovens vulneráveis da parte de membros da Igreja na Irlanda, sobretudo de sacerdotes e religiosos. Não posso deixar de partilhar o pavor e a sensação de traição que muitos de vós experimentastes ao tomar conhecimento destes atos pecaminosos e criminais e do modo como as autoridades da Igreja na Irlanda os enfrentaram.

Como sabeis, convidei recentemente os bispos irlandeses para um encontro aqui em Roma a fim de referir sobre o modo como trataram estas questões no passado e indicar os passos que empreenderam para responder a esta grave situação. Juntamente com alguns altos Prelados da Cúria Romana ouvi quanto tinham para dizer, quer individualmente quer em grupo, enquanto propunham uma análise dos erros cometidos e das lições aprendidas, e uma descrição dos programas e dos protocolos hoje existente. As nossas reflexões foram francas e construtivas. Alimento a confiança de que, como resultado, os bispos se encontrem agora numa posição mais forte para levar por diante a tarefa de reparar as injustiças do passado e para enfrentar as temáticas mais amplas relacionadas com o abuso dos menores segundo modalidades conformes com as exigências da justiça e com os ensinamentos do Evangelho.

2. Por meu lado, considerando a gravidade destas culpas e a resposta muitas vezes inadequada que lhes foi reservada da parte das autoridades eclesiásticas no vosso país, decidi escrever esta Carta Pastoral para vos expressar a minha proximidade, e para vos propor um caminho de cura, de renovação e de reparação.

Na realidade, como muitos no vosso país revelaram, o problema do abuso dos menores não é específico nem da Irlanda nem da Igreja. Contudo a tarefa que agora tendes à vossa frente é enfrentar o problema dos abusos que se verificaram no âmbito da comunidade católica irlandesa e de o fazer com coragem e determinação. Ninguém pense que esta dolorosa situação se resolverá em pouco tempo. Foram dados passos em frente positivos, mas ainda resta muito para fazer. É preciso perseverança e oração, com grande confiança na força restabelecedora da graça de Deus.

Ao mesmo tempo, devo expressar também a minha convicção de que, para se recuperar desta dolorosa ferida, a Igreja na Irlanda deve em primeiro lugar reconhecer diante do Senhor e diante dos outros, os graves pecados cometidos contra jovens indefesos. Esta consciência, acompanhada de sincera dor pelo dano causado às vítimas e às suas famílias, deve levar a um esforço concentrado para garantir a proteção dos jovens em relação a semelhantes crimes no futuro.

Enquanto enfrentais os desafios deste momento, peço-vos que vos recordeis da «rocha de que fostes talhados» (Is 51, 1). Refleti sobre as contribuições generosas, com frequência heróicas, oferecidas à Igreja e à humanidade como tal pelas passadas gerações de homens e mulheres irlandeses, e deixai que isto gere impulso para um honesto auto-exame e um convicto programa de renovação eclesial e individual. A minha oração é por que, assistida pela intercessão dos seus muitos santos e purificada pela penitência, a Igreja na Irlanda supere a presente crise e volte a ser uma testemunha convincente da verdade e da bondade de Deus onipotente, manifestadas no seu Filho Jesus Cristo.

3. Historicamente os católicos da Irlanda demonstraram-se uma grande força de bem quer na pátria quer fora. Monges célticos, como São Colombano, difundiram o Evangelho na Europa Ocidental lançando as bases da cultura monástica medieval. Os ideais de santidade, de caridade e de sabedoria transcendente que derivam da fé cristã, encontraram expressão na construção de igrejas e mosteiros e na instituição de escolas, bibliotecas e hospitais que consolidaram a identidade espiritual da Europa. Aqueles missionários irlandeses tiraram a sua força e inspiração da fé sólida, da guia forte e dos comportamentos morais retos da Igreja na sua terra natal.

A partir do século XVI, os católicos na Irlanda sofreram um longo período de perseguição, durante o qual lutaram para manter viva a chama da fé em circunstâncias perigosas e difíceis. Santo Oliver Plunkett, o Arcebispo mártir de Armagh, é o exemplo mais famoso de uma multidão de corajosos filhos e filhas da Irlanda dispostos a dar a própria vida pela fidelidade ao Evangelho. Depois da Emancipação Católica, a Igreja teve a liberdade de crescer de novo. Famílias e inúmeras pessoas que tinham preservado a fé durante os tempos das provações tornaram-se a centelha de um grande renascimento do catolicismo irlandês no século XIX. A Igreja forneceu escolarização, sobretudo aos pobres, e isto deu uma grande contribuição à sociedade irlandesa. Um dos frutos das novas escolas católicas foi um aumento de vocações: gerações de sacerdotes, irmãs e irmãos missionários deixaram a pátria para servir em todos os continentes, sobretudo no mundo de língua inglesa. Foram admiráveis não só pela vastidão do seu número, mas também pela robustez da fé e pela solidez do seu empenho pastoral. Muitas dioceses, sobretudo em África, América e Austrália, beneficiaram da presença de clero e religiosos irlandeses que anunciaram o Evangelho e fundaram paróquias, escolas e universidades, clínicas e hospitais, que serviram tanto os católicos, como a sociedade em geral, com atenção especial às necessidades dos pobres.

Em quase todas as famílias da Irlanda houve alguém – um filho ou uma filha, uma tia ou um tio – que deu a própria vida à Igreja. Justamente as famílias irlandesas têm em grande estima e afeto os seus queridos, que ofereceram a própria vida a Cristo, partilhando o dom da fé com outros e atualizando-a num serviço amoroso a Deus e ao próximo.

4. Contudo, nos últimos decênios a Igreja no vosso país teve que se confrontar com novos e graves desafios à fé que surgiram da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Verificou-se uma mudança social muito rápida, que muitas vezes atingiu com efeitos hostis a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos. Com frequência as práticas sacramentais e devocionais que sustentam a fé e a tornam capaz de crescer, como por exemplo a confissão frequente, a oração quotidiana e os ritos anuais, não foram atendidas. Determinante foi também neste período a tendência, até da parte de sacerdotes e religiosos, para adotar modos de pensamento e de juízo das realidades seculares sem referência suficiente ao Evangelho. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II por vezes foi mal compreendido e na realidade, à luz das profundas mudanças sociais que se estavam a verificar, não era fácil avaliar o modo melhor de o realizar. Em particular, houve uma tendência, ditada por reta intenção mas errada, a evitar abordagens penais em relação a situações canônicas irregulares. É neste contexto geral que devemos procurar compreender o desconcertante problema do abuso sexual dos jovens, que contribuiu em grande medida para o enfraquecimento da fé e para a perda do respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.

Só examinando com atenção os numerosos elementos que deram origem à crise atual é possível empreender uma diagnose clara das suas causas e encontrar remédios eficazes. Certamente, entre os fatores que para ela contribuíram podemos enumerar: procedimentos inadequados para determinar a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa; insuficiente formação humana, moral, intelectual e espiritual nos seminários e nos noviciados; uma tendência na sociedade a favorecer o clero e outras figuras com autoridade e uma preocupação inoportuna pelo bom nome da Igreja e para evitar os escândalos, que levaram como resultado à malograda aplicação das penas canônicas em vigor e à falta da tutela da dignidade de cada pessoa. É preciso agir com urgência para enfrentar estes fatores, que tiveram consequências tão trágicas para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho a tal ponto, ao qual nem sequer séculos de perseguição não tinham chegado.

5. Em diversas ocasiões desde a minha eleição para a Sé de Pedro, encontrei vítimas de abusos sexuais, assim como estou disponível a fazê-lo no futuro. Detive-me com elas, ouvi as suas vicissitudes, tomei nota do seu sofrimento, rezei com e por elas. Precedentemente no meu pontificado, na preocupação por enfrentar este tema, pedi aos Bispos da Irlanda, por ocasião da visita ad limina de 2006, que «estabelecessem a verdade de quanto aconteceu no passado, tomassem todas as medidas adequadas para evitar que se repita no futuro, garantissem que os princípios de justiça sejam plenamente respeitados e, sobretudo, curassem as vítimas e quantos são atingidos por estes crimes abnormes» (Discurso aos Bispos da Irlanda, 28 de Outubro de 2006).

Com esta Carta, pretendo exortar todos vós, como povo de Deus na Irlanda, a refletir sobre as feridas infligidas ao corpo de Cristo, sobre os remédios, por vezes dolorosos, necessários para as atar e curar, e sobre a necessidade de unidade, de caridade e de ajuda recíproca no longo processo de restabelecimento e de renovação eclesial. Dirijo-me agora a vós com palavras que me vêm do coração, e desejo falar a cada um de vós individualmente e a todos como irmãos e irmãs no Senhor.

6. Às vítimas de abuso e às suas famílias

Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. Muitos de vós experimentastes que, quando éreis suficientemente corajosos para falar de quanto tinha acontecido, ninguém vos ouvia. Quantos de vós sofrestes abusos nos colégios deveis ter compreendido que não havia modo de evitar os vossos sofrimentos. É comprensível que vos seja difícil perdoar ou reconciliar-vos com a Igreja. Em seu nome expresso abertamente a vergonha e o remorso que todos sentimos. Ao mesmo tempo peço-vos que não percais a esperança. É na comunhão da Igreja que encontramos a pessoa de Jesus Cristo, ele mesmo vítima de injustiça e de pecado. Como vós, ele ainda tem as feridas do seu injusto padecer. Ele compreende a profundeza dos vossos padecimentos e o persistir do seu efeito nas vossas vidas e nos relacionamentos com os outros, incluídas as vossas relações com a Igreja. Sei que alguns de vós têm dificuldade até de entrar numa igreja depois do que aconteceu. Contudo, as mesmas feridas de Cristo, transformadas pelos seus sofrimentos redentores, são os instrumentos graças aos quais o poder do mal é infrangido e nós renascemos para a vida e para a esperança. Creio firmemente no poder restabelecedor do seu amor sacrifical – também nas situações mais obscuras e sem esperança – que traz a libertação e a promessa de um novo início.

Dirigindo-me a vós como pastor, preocupado pelo bem de todos os filhos de Deus, peço-vos com humildade que reflitais sobre quanto vos disse. Rezo a fim de que, aproximando-vos de Cristo e participando na vida da sua Igreja – uma Igreja purificada pela penitência e renovada na caridade pastoral – possais redescobrir o amor infinito de Cristo por todos vós. Tenho confiança em que deste modo sereis capazes de encontrar reconciliação, profunda cura interior e paz.

7. Aos sacerdotes e aos religiosos que abusaram dos jovens

Traístes a confiança que os jovens inocentes e os seus pais tinham em vós. Por isto deveis responder diante de Deus onipotente, assim como diante de tribunais devidamente constituídos. Perdestes a estima do povo da Irlanda e lançastes vergonha e desonra sobre os vossos irmãos. Quantos de vós sois sacerdotes violastes a santidade do sacramento da Ordem Sagrada, no qual Cristo se torna presente em nós e nas nossas ações. Juntamente com o enorme dano causado às vítimas, foi perpetrado um grande dano à Igreja e à percepção pública do sacerdócio e da vida religiosa.

Exorto-vos a examinar a vossa consciência, a assumir a vossa responsabilidade dos pecados que cometestes e a expressar com humildade o vosso pesar. O arrependimento sincero abre a porta ao perdão de Deus e à graça da verdadeira emenda. Oferecendo orações e penitências por quantos ofendestes, deveis procurar reparar pessoalmente as vossas ações. O sacrifício redentor de Cristo tem o poder de perdoar até o pecado mais grave e de obter o bem até do mais terrível dos males. Ao mesmo tempo, a justiça de Deus exige que prestemos contas das nossas ações sem nada esconder. Reconhecei abertamente a vossa culpa, submetei-vos às exigências da justiça, mas não desespereis da misericórdia de Deus.

8. Aos pais

Ficastes profundamente transtornados ao tomar conhecimento das coisas terríveis que tiveram lugar naquele que deveria ter sido o ambiente mais seguro para todos. No mundo de hoje não é fácil construir um lar doméstico e educar os filhos. Eles merecem crescer num ambiente seguro, amados e queridos, com um forte sentido da sua identidade e do seu valor. Têm direito a ser educados nos valores morais autênticos, radicados na dignidade da pessoa humana, a serem inspirados pela verdade da nossa fé católica e a aprender modos de comportamento e de ação que os levem a uma sadia estima de si e à felicidade duradoura. Esta tarefa nobre e exigente está confiada em primeiro lugar a vós, seus pais. Exorto-vos a fazer a vossa parte para garantir a melhor cura possível dos jovens, quer em casa quer na sociedade em geral, enquanto que a Igreja, por seu lado, continua a pôr em prática as medidas adotadas nos últimos anos para tutelar os jovens nos ambientes paroquiais e educativos. Enquanto dais continuidade às vossas importantes responsabilidades, certifico-vos de que estou próximo de vós e que vos dou o apoio da minha oração.

9. Aos meninos e aos jovens da Irlanda

Desejo oferecer-vos uma particular palavra de encorajamento. A vossa experiência de Igreja é muito diversa da que fizeram os vossos pais e avós. O mundo mudou muito desde quando eles tinham a vossa idade. Não obstante, todos, em cada geração, estão chamados a percorrer o mesmo caminho da vida, sejam quais forem as circunstâncias. Todos estamos escandalizados com os pecados e as falências de alguns membros da Igreja, sobretudo de quantos foram escolhidos de modo especial para guiar e servir os jovens. Mas é na Igreja que encontrareis Jesus Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13, 8). Ele vos ama e ofereceu-se a si próprio na Cruz por vós. Procurai uma relação pessoal com ele na comunhão da sua Igreja, porque ele nunca trairá a vossa confiança! Só ele pode satisfazer as vossas expectativas mais profundas e conferir às vossas vidas o seu significado mais pleno orientando-as para o serviço ao próximo. Mantende o olhar fixo em Jesus e na sua bondade e protegei no vosso coração a chama da fé. Juntamente com os vossos irmãos católicos na Irlanda olho para vós a fim de que sejais discípulos fiéis do nosso Deus e contribuais com o vosso entusiasmo e com o vosso idealismo tão necessários para a reconstrução e para a renovação da nossa amada Igreja.

10. Aos sacerdotes e aos religiosos da Irlanda

Todos nós estamos  sofrendo como consequência dos pecados dos nossos irmãos que traíram uma ordem sagrada ou não enfrentaram de modo justo e responsável as acusações de abuso. Perante o ultraje e a indignação que isto causou, não só entre os leigos mas também entre vós e as vossas comunidades religiosas, muitos de vós vos sentis pessoalmente desanimados e também abandonados. Além disso, estou consciente de que aos olhos de alguns sois culpados por associação, e considerados como que de certo modo responsáveis pelos delitos de outros. Neste tempo de sofrimento, desejo reconhecer a dedicação da vossa vida de sacerdotes e de religiosos e dos vossos apostolados, e convido-vos a reafirmar a vossa fé em Cristo, o vosso amor à sua Igreja e a vossa confiança na promessa de redenção, de perdão e de renovação interior do Evangelho. Deste modo, demonstrareis a todos que onde abunda o pecado, superabunda a graça (cf. Rm 5, 20).

Sei que muitos de vós estais desiludidos, transtornados e encolerizados pelo modo como estas questões foram tratadas por alguns dos vossos superiores. Não obstante, é essencial que colaboreis de perto com quantos têm a autoridade e que vos comprometais para fazer com que as medidas adotadas para responder à crise sejam verdadeiramente evangélicas, justas e eficazes. Sobretudo, exorto-vos a tornar-vos cada vez mais claramente homens e mulheres de oração, seguindo com coragem o caminho da conversão, da purificação e da reconciliação. Deste modo, a Igreja na Irlanda haurirá nova vida e vitalidade do vosso testemunho ao poder redentor do Senhor tornado visível na vossa vida.

11. Aos meus irmãos bispos

Não se pode negar que alguns de vós e dos vossos predecessores falhastes, por vezes gravemente, na aplicação das normas do direito canônico codificado há muito tempo sobre os crimes de abusos de jovens. Foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações. Compreendo como era difícil lançar mão da extensão e da complexidade do problema, obter informações fiáveis e tomar decisões justas à luz de conselhos divergentes de peritos. Contudo, deve-se admitir que foram cometidos graves erros de juízo e que se verificaram faltas de governo. Tudo isto minou seriamente a vossa credibilidade e eficiência. Aprecio os esforços que fizestes para remediar os erros do passado e para garantir que não se repitam. Além de pôr plenamente em prática as normas do direito canônico ao enfrentar os casos de abuso de jovens, continuai a cooperar com as autoridades civis no âmbito da sua competência. Claramente, os superiores religiosos devem fazer o mesmo. Também eles participaram em recentes encontros aqui em Roma destinados a estabelecer uma abordagem clara e coerente destas questões. É obrigatório que as normas da Igreja na Irlanda para a tutela dos jovens sejam constantemente revistas e atualizadas e que sejam aplicadas de modo total e imparcial em conformidade com o direito canônico.

Só uma ação decidida levada em frente com total honestidade e transparência poderá restabelecer o respeito e a benquerença dos Irlandeses em relação à Igreja à qual consagramos a nossa vida. Isto deve brotar, antes de tudo, do exame de vós próprios, da purificação interior e da renovação espiritual. O povo da Irlanda espera justamente que sejais homens de Deus, que sejais santos, que vivais com simplicidade, que procureis todos os dias a conversão pessoal. Para ele, segundo a expressão de Santo Agostinho, sois bispos; contudo estais chamados a ser com eles seguidores de Cristo (cf. Discurso 340, 1). Exorto-vos portanto a renovar o vosso sentido de responsabilidade diante de Deus, a crescer em solidariedade com o vosso povo e a aprofundar a vossa solicitude pastoral por todos os membros da vossa grei. Em particular, sede sensíveis à vida espiritual e moral de cada um dos vossos sacerdotes. Sede um exemplo com as vossas próprias vidas, estai próximos a eles, ouvi as suas preocupações, oferecei-lhes encorajamento neste tempo de dificuldades e alimentai a chama do seu amor a Cristo e o seu compromisso no serviço dos seus irmãos e irmãs.

Também os leigos devem ser encorajados a fazer a sua parte na vida da Igreja. Fazei com que sejam formados de modo que possam dizer a razão, de maneira articulada e convincente, do Evangelho na sociedade moderna (cf. 1 Pd 3, 15), e cooperem mais plenamente na vida e na missão da Igreja. Isto, por sua vez, ajudar-vos-á a ser de novo guias e testemunhas credíveis da verdade redentora de Cristo.

12. A todos os fiéis da Irlanda

A experiência que um jovem faz da Igreja deveria dar sempre fruto num encontro pessoal e vivificante com Jesus Cristo numa comunidade que ama e que oferece alimento. Neste ambiente, os jovens devem ser encorajados a crescer até à sua plena estatura humana e espiritual, a aspirar por ideais nobres de santidade, de caridade e de verdade e a inspirar-se nas riquezas de uma grande tradição religiosa e cultural. Na nossa sociedade cada vez mais secularizada, na qual também nós cristãos muitas vezes temos dificuldade em falar da dimensão transcendente da nossa existência, precisamos de encontrar novos caminhos para transmitir aos jovens a beleza e a riqueza da amizade com Jesus Cristo na comunhão da sua Igreja. Ao enfrentar a presente crise, as medidas para se ocupar de modo justo de cada um dos crimes são essenciais, mas sozinhas não são suficientes: há necessidade de uma nova visão para inspirar a geração atual e as futuras a fazer tesouro do dom da nossa fé comum. Caminhando pela via indicada pelo Evangelho, observando os mandamentos e conformando a nossa vida de maneira cada vez mais próxima com a pessoa de Jesus Cristo, fareis a experiência da renovação profunda da qual hoje há uma urgente necessidade. Convido-vos a todos a perseverar neste caminho.

13. Amados irmãos e irmãs em Cristo, é com profunda preocupação por todos vós neste tempo de sofrimento, no qual a fragilidade da condição humana foi tão claramente revelada, que desejei oferecer-vos estas palavras de encorajamento e de apoio. Espero que as acolhais como um sinal da minha proximidade espiritual e da minha confiança na vossa capacidade de responder aos desafios do momento actual tirando renovada inspiração e força das nobres tradições da Irlanda de fidelidade ao Evangelho, de perseverança na fé e de firmeza na consecução da santidade. Juntamente com todos vós, rezo com insistência para que, com a graça de Deus, as feridas que atingiram muitas pessoas e famílias possam ser curadas e que a Igreja na Irlanda possa conhecer uma época de renascimento e de renovação espiritual.

14. Desejo vos propor algumas iniciativas concretas para enfrentar a situação. No final do meu encontro com os Bispos da Irlanda, pedi que a Quaresma deste ano fosse considerada como tempo de oração para uma efusão da misericórdia de Deus e dos dons de santidade e de força do Espírito Santo sobre a Igreja no vosso país. Agora convido todos vós a dedicar as vossas penitências da sexta-feira, durante todo o ano, de agora até à Páscoa de 2011, por esta finalidade. Peço-vos que ofereçais o vosso jejum, a vossa oração, a vossa leitura da Sagrada Escritura e as vossas obras de misericórdia para obter a graça da cura e da renovação para a Igreja na Irlanda. Encorajo-vos a redescobrir o sacramento da Reconciliação e a valer-vos com mais frequência da força transformadora da sua graça.

Deve ser dedicada também particular atenção à adoração eucarística, e em cada diocese deverão haver igrejas ou capelas reservadas especificamente para esta finalidade. Peço que as paróquias, os seminários, as casas religiosas e os mosteiros organizem tempos para a adoração eucarística, de modo que todos tenham a possibilidade de participar deles. Com oração fervorosa diante da presença real do Senhor, podeis fazer a reparação pelos pecados de abuso que causaram tantos danos, e ao mesmo tempo implorar a graça de uma renovada força e de um sentido da missão mais profundo por parte de todos os bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis.

Tenho esperança em que este programa levará a um renascimento da Igreja na Irlanda na plenitude da própria verdade de Deus, porque é a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 32).

Além disso, depois de me ter consultado e rezado sobre a questão, tenciono anunciar uma Visita Apostólica a algumas dioceses da Irlanda, assim como a seminários e congregações religiosas. A Visita propõe-se ajudar a Igreja local no seu caminho de renovação e será estabelecida em cooperação com as repartições competentes da Cúria Romana e com a Conferência Episcopal Irlandesa. Os pormenores serão anunciados no devido momento.

Além disso proponho que se realize uma Missão em nível nacional para todos os bispos, sacerdotes e religiosos. Alimento a esperança de que, haurindo da competência de peritos pregadores e organizadores de retiros quer da Irlanda como de outras partes, e reexaminando os documentos conciliares, os ritos litúrgicos da ordenação e da profissão e os recentes ensinamentos pontifícios, alcanceis um apreço mais profundo das vossas respectivas vocações, de modo a redescobrir as raízes da vossa fé em Jesus Cristo e a beber abundantemente nas fontes da água viva que ele vos oferece através da sua Igreja.

Neste Ano dedicado aos Sacerdotes, recomendo-vos de modo muito particular a figura de São João Maria Vianney, que teve uma compreensão tão rica do mistério do sacerdócio. «O sacerdote, escreveu, possui a chave dos tesouros do céu: é ele quem abre a porta, é ele o dispensador do bom Deus, o administrador dos seus bens». O cura d’Ars compreendeu bem como é grandemente abençoada uma comunidade quando é servida por um sacerdote bom e santo. «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o tesouro maior que o bom Deus pode dar a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina». Por intercessão de São João Maria Vianney possa o sacerdócio na Irlanda retomar vida e a inteira Igreja na Irlanda crescer na estima do grande dom do ministério sacerdotal.

Aproveito esta ocasião para agradecer desde já a quantos se comprometerem no empenho de organizar a Visita Apostólica e a Missão, assim como os tantos homens e mulheres que em toda a Irlanda já se comprometeram pela tutela dos jovens nos ambientes eclesiásticos. Desde quando a gravidade e a extensão do problema dos abusos sexuais dos jovens em instituições católicas começou a ser plenamente compreendido, a Igreja desempenhou uma grande quantidade de trabalho em muitas partes do mundo, a fim de o enfrentar e remediar. Enquanto não se deve poupar esforço algum para melhorar e atualizar procedimentos já existentes, encoraja-me o fato de que as práticas de tutela em vigor, adotadas pelas Igrejas locais, são consideradas, nalgumas partes do mundo, um modelo que deve ser seguido por outras instituições.

Desejo concluir esta Carta com uma especial Oração pela Igreja na Irlanda, que vos envio com o cuidado que um pai tem pelos seus filhos e com o afeto de um cristão como vós, escandalizado e ferido por quanto aconteceu na nossa amada Igreja. Ao utilizardes esta oração nas vossas famílias, paróquias e comunidades, que a Bem-Aventurada Virgem Maria vos proteja e vos guie pelo caminho que conduz a uma união mais estreita com o seu Filho, crucificado e ressuscitado. Com grande afeto e firme confiança nas promessas de Deus, concedo de coração a todos vós a minha Bênção Apostólica em penhor de força e paz no Senhor.

Vaticano, 19 de Março de 2010, Solenidade de São José
Bento XVI

ORAÇÃO PELA IGREJA NA IRLANDA
Deus dos nossos pais,
Renova-nos na fé que é para nós vida e salvação
na esperança que promete perdão e renovação interior,
na caridade que purifica e abre os nossos corações
para te amar, e em ti, amar todos os nossos irmãos e irmãs.

Senhor Jesus Cristo
possa a Igreja na Irlanda renovar o seu milenário compromisso
na formação dos nossos jovens no caminho da verdade,
da bondade, da santidade e do serviço generoso à sociedade.

Espírito Santo, consolador, advogado e guia,
inspira uma nova primavera de santidade e de zelo apostólico
para a Igreja na Irlanda.

Possa a nossa tristeza e as nossas lágrimas
o nosso esforço sincero por corrigir os erros do passado,
e o nosso firme propósito de correção,
dar abundantes frutos de graça
para o aprofundamento da fé
nas nossas famílias, paróquias, escolas e associações,
e para o progresso espiritual da sociedade irlandesa,
e para o crescimento da caridade, da justiça, da alegria
e da paz, na inteira família humana.

A ti, Trindade,
com plena confiança na amorosa proteção de Maria,
Rainha da Irlanda, nossa Mãe,
e de São Patrício, de Santa Brígida e de todos os santos,
recomendamos a nós próprios, os nossos jovens,
e as necessidades da Igreja na Irlanda.
Amém.

ORAÇÃO: São Patrício

Reze com São Patrício, Santo que comemoramos hoje, 17 de março:

Cristo guarde-me hoje,
Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim,
Cristo em mim, Cristo embaixo de mim, Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar,
Cristo ao me sentar,
Cristo ao me levantar,
Cristo no coração de todos os que pensarem em mim,
Cristo na boca de todos que falarem em mim,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.
Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Trindade,
Pela afirmação da Unidade,
Pelo Criador da Criação.
Amém.

PREGAÇÃO: Cristo oferece a si mesmo a Deus

Esta é a segunda pregação de Quaresma à Cúria Romana, realizada na sexta-feira, 12 de março, em presença do Papa, pelo padre Raniero Cantalamessa, OFMCap.

“Cristo oferece a si mesmo a Deus”

1. A novidade do sacerdócio de Cristo
Nesta meditação, queremos refletir sobre o sacerdote como administrador dos mistérios de Deus, entendendo desta vez por “mistérios” os sinais concretos da graça, os sacramentos. Como não podemos nos deter em todos os sacramentos, nos limitaremos ao sacramento por excelência que é a Eucaristia. Assim procede também a Presbyterorum Ordinis, que, após falar dos presbíteros como evangelizadores, prossegue dizendo que seu serviço, “que começa pela pregação evangélica, tira do sacrifício de Cristo a sua força e a sua virtude”, misticamente renovado por estes ao altar [1].
Estas duas atribuições do sacerdote são aquelas que também os apóstolos reservam a si mesmos: “Quanto a nós – declara Pedro em Atos –, continuaremos a nos dedicar à oração e ao ministério da Palavra” (At 6,4). A oração da qual fala não é a oração privada; é a oração litúrgica comunitária que tem como centro o partir o pão. A Didaché nos permite perceber como a Eucaristia, nos primeiros tempos, era oferecida no próprio contexto da oração da comunidade, como parte desta e seu cume [2].
Como o sacrifício da Missa não pode ser concebido a não ser em dependência com o sacrifício da cruz, da mesma forma o sacerdócio cristão não pode ser explicado a não ser em dependência e como participação sacramental no sacerdócio de Cristo. É daqui que devemos partir para descobrir a característica fundamental e os requisitos do sacerdócio ministerial.
A novidade do sacrifício de Cristo em relação ao sacerdócio da antiga aliança (e, como já sabemos, em relação a qualquer outra instituição sacerdotal também fora da Bíblia) é posta em relevo na Carta aos Hebreus por diversos pontos de vista: Cristo não precisa, como os sumos sacerdotes, oferecer sacrifícios a cada dia, primeiro por seus próprios pecados e depois pelos do povo. Ele já o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo (7,27); não necessita repetir uma vez mais o sacrifício, mas “na plenitude dos tempos, uma vez por todas, ele se manifestou para destruir o pecado pela imolação de si mesmo” (9, 26). Mas a diferença fundamental é outra. Vejamos como é descrita:
“Cristo, porém, veio como sumo sacerdote dos bens futuros. Ele entrou no Santuário através de uma tenda maior e mais perfeita, não feita por mãos humanas, nem pertencendo a esta criação. Ele entrou no Santuário, não com o sangue de bodes e bezerros, mas com seu próprio sangue, e isto, uma vez por todas, obtendo uma redenção eterna. De fato, se o sangue de bodes e touros e a cinza de novilhas espalhada sobre os seres impuros os santificam, realizando a pureza ritual dos corpos, quanto mais o sangue de Cristo purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!” (Hb 9, 11-14).
Enquanto qualquer outro sacerdote oferece algo externo a si, Cristo oferece a si mesmo; qualquer outro sacerdote oferece vítimas, mas Cristo oferece a si mesmo como vítima! Santo Agostinho sintetizou em uma célebre fórmula esse novo gênero de sacerdócio, no qual o sacerdote e a vítima são um só: Ideo victor, quia victima, et ideo sacerdos, quia sacrificium: “vencedor por ser vítima, sacerdote por ser vítima” [3].
Na passagem dos sacrifícios antigos para o sacrifício de Cristo, observa-se a mesma novidade notada na passagem da lei à graça, do dever ao dom, ilustrada na meditação anterior. De uma obra do homem para aplacar a divindade e reconciliá-la consigo, o sacríficio passa a ser dom de Deus para aplacar o homem, fezê-lo desistir de sua violência e reconciliá-lo por meio dele (cf. Col 1,20). Também no que diz respeito ao seu sacríficio, como em tudo mais, Cristo é “totalmente outro”.
2. “Imitem aquilo que executam”
A consequência de tudo isso é clara: para ser sacerdote “segundo a ordem de Jesus Cristo”, o presbítero deve, como ele, oferecer a si mesmo. Sobre o altar, portanto, ele não representa tão somente o Jesus “sumo sacerdote”, mas também o Jesus “suma vítima”, sendo assim as duas coisas inseparáveis. Em outras palavras, não se pode contentar em oferecer Cristo ao Pai nos sinais sacramentais do pão e do vinho; deve também oferecer a si mesmo com Cristo ao Pai. Retomando um pensamento de Santo Agostinho, a instrução da S. Congregação dos Ritos, Eucharisticum mysterium, escreve: “A Igreja, esposa e ministra de Cristo, cumprindo com ele a função de sacerdote e vítima, oferece-o ao Pai, e, junto a Ele, oferece-se a si mesma” [4].
O que se afirma aqui a respeito da Igreja como um todo aplica-se de um modo todo especial ao celebrante. No momento da ordenação, o bispo dirige aos ordenados a seguinte exortação: Agnoscite quod agitis, imitamini quod tractatis: “Tenham em conta aquilo que farão, imitem o que celebrarão”. Em outras palavras: faça também você aquilo que faz Cristo na Missa, isto é, ofereça-se a si mesmo a Deus como sacrifício vivo. Escreve são Gregório Nazianzeno:
“Sabendo que ninguém é digno da grandeza de Deus, da Vítima e do Sacerdote, se não se é primeiramente oferecido a si mesmo em sacrifício vivo e santo, se não se é apresentado como oblação santa e agradável (cf Rom 12, 1) e se não se tiver oferecido a Deus um sacrifício elogiável e um espírito contrito – o único sacríficio que o autor de todos os dons nos pede – como ousaria oferecer-lhe uma oferenda exterior sobre o altar, que é a representação dos grandes mistérios?”
Permito-me contar como eu mesmo descobri essa dimensão de meu sacerdócio, porque possa talvez nos ajudar a compreender melhor o assunto que estamos tratando. Após minha ordenação, eis como vivi o momento da consagração: fechei os olhos, abaixei a cabeça e busquei me isolar de tudo o que estava ao meu redor, para assim me ligar a Jesus, que, no cenáculo, pronunciou pela primeira vez as palavras: “Accipite et manducate…”, “Tomai e comei...”.
A própria liturgia favorecia esta atitude, ao fazer pronunciar as palavras da consagração em voz baixa e em latim, voltado para o altar e não para o povo. Mais tarde, um dia, compreendi que tal atitude, por si só, não expressava todo o significado de minha participação na consagração. Quem preside de forma invisível toda Missa é Jesus ressuscitado e vivo, o Jesus, para sermos exatos, que esteve morto, mas que agora vive para sempre (cf. Ap 1, 18). Mas este Jesus é o “Cristo total”, Cabeça e corpo indissociavelmente unidos. Assim, se é este Cristo total quem pronuncia as palavras da consagração, também eu as pronuncio com ele. Dentro do grande “Eu” da Cabeça, esconde-se o pequeno “eu” do corpo que é a Igreja e também e meu “eu” pequenino.
Desde então, quando, como sacerdote ordenado da Igreja, pronuncio as palavras da consagração “in persona Christi”, acreditando que, graças ao Espírito Santo, estas têm o poder de transformar o pão no corpo de Cristo e o vinho em seu sangue, ao mesmo tempo, como membro do corpo de Cristo, já não fecho mais os olhos, mas olho para os irmãos que estão diante de mim, ou, se celebro sozinho, penso naqueles a quem devo servir ao longo do dia e, voltado para eles, digo mentalmente, junto a Jesus: “Irmãos e irmãs, tomai e comei: este é meu corpo; tomai e bebei, este é meu sangue”.
Em seguida, encontrei uma singular confirmação nos escritos da venerável Concepciòn Cabrera de Armida, dita Conchita, a mística mexicana fundadora de três ordens religiosas e cujo processo de beatificação está em curso. A seu filho jesuíta, que estava prestes a ser ordenado sacerdote, ela escrevia: “Lembre-se, meu filho, que quando tiver em mãos a Hóstia Santa, não dirá: Eis o corpo de Cristo, eis o seu sangue, mas dirá: Este é meu corpo, este é meu sangue: deve operar-se em ti uma transformação total, deves perder-te nele, ser um outro Jesus” [6].
A oferenda do sacerdote e de toda a Igreja, sem aquela de Jesus, não seria nem santa, nem agradável a Deus, porque somos criaturas pecadoras; mas a oferenda de Jesus, sem aquela de seu corpo que é a Igreja, seria também incompleta e insuficiente: não, evidentemente, por termos alcançado a salvação, mas porque a recebemos e dela nos apropriamos. É nesse sentido que a Igreja pode dizer com São Paulo: “completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo” (cf. Col 1, 24).
Podemos ilustrar com um exemplo o que ocorre em toda Missa. Imaginemos que em uma família ocorre que um dos filho, o primogênito, é muito afeiçoado ao pai. Por ocasião de seu aniversário, decide dar-lhe um presente. Porém, antes de apresentá-lo, pede, em segredo, a todos os irmãos e irmãs que assinem também o presente. Este chega então às mãos do pai como uma homenagem por parte de todos os seus filhos e como um símbolo do amor de todos eles, mas, na verdade, apenas um deles pagou pelo valor do presente.
Jesus admira e ama ilimitadamente o Pai celeste. A ele quer oferecer, todos os dias até o fim do mundo, o presente mais precioso que se poderia conceber: sua própria vida. Na Missa, convida a todos os seus “irmãos”, que somos nós, a também assinarem o presente, “o meu e o vosso sacrifício”, como diz o sacerdote no Orate fratres. Mas, na verdade, sabemos que apenas um pagou pelo preço de tal presente. E que preço!

3. O corpo e o sangue
Para entender as consequências práticas para o sacerdote que derivam de tudo isso, é necessário ter em mente o significado da palavra “corpo” e da palavra “sangue”. Na linguagem bíblica, a palavra corpo, assim como a palavra carne, não indica, como seria para nós hoje, uma terceira parte da pessoa como na tricotomia grega (corpo, alma, nous); indica a pessoa em sua totalidade, enquanto esta vive em uma dimensão corpórea. (“O Verbo se fez carne” significa se fez homem, não ossos, músculos, nervos!). Por sua vez, “sangue” não significa uma parte de uma parte do homem. O sangue é a fonte da vida, de modo que a efusão do sangue é um símbolo da morte.
Com a palavra “corpo”, Jesus nos doou sua vida; com a palavra sangue, nos doou sua morte. Aplicado a nós, oferecer o corpo significa oferecer o tempo, os recursos físicos, mentais, um sorriso, típico de um espírito que vive em um corpo; oferecer o sangue é oferecer a morte. Não apenas o momento final da vida, mas tudo aquilo que desde já antecipa a morte: as mortificações, as doenças, a passividade, tudo o que é negativo na vida.
Tentemos imaginar a vida sacerdotal vivida com esta consciência. Toda o dia, não apenas o momento da celebração, é uma eucaristia: ensinar, governar, confessar, visitar os doentes, bem como o repouso e o lazer, tudo. Um professor espiritual, o jesuíta francês Pierre Olivant, dizia: “Le matin, moi prêtre, Lui victime; le long du jour Lui prêtre, moi victime: a manhã (naquele tempo a missa era celebrada somente de manhã), eu sacerdote, Ele (Cristo) vítima; ao longo do dia, Ele sacerdote, eu vítima. “Como faz bem um padre – dizia o Santo Cura dA’rs – em oferecer-se a Deus em sacrifício todas as manhãs” [7].
Graças à Eucaristia, também a vida do sacerdote idoso, doente e reduzido à imobilidade é preciosíssima para a Igreja. Este oferece “o sangue”.
Visitei certa vez um sacerdote que estava doente de câncer. Estava a se preparar para celebrar uma de suas últimas Missas, com a ajuda de um jovem sacerdote. Tinha também uma doença nos olhos, que fazia com que estivesse sempre em lágrimas. Me disse: “Jamais havia compreendido a importância de falar também em meu nome na Missa: “Tomai e comei; tomai e bebei...”. Hoje compreendo. É tudo o que me resta, e digo isto pensando em meus paroquianos. Compreendi o significado de ser “um pão partido” pelos outros.
4. A serviço do sacerdócio universal dos fiéis
Uma vez descoberta esta dimensão existencial da Eucaristia, é tarefa pastoral do sacerdote contribuir para que seja vivenciada também pelo restante do povo de Deus. O ano sacerdotal não representa uma oportunidade e uma graça somente para os padres, mas também para os leigos. A Presbyterorum ordinis afirma claramente que o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio universal de todos os batizados, a fim de que estes “possam oferecer-se a si mesmos como hóstia viva, santa e aceitável por Deus (Rm 12,1). De fato:
“É através do ministério dos presbíteros que o sacrifício espiritual dos fiéis é tornado perfeito por união ao sacrifício de Cristo, único mediador; este sacrifício, de fato, pela mão dos presbíteros e em nome de toda a Igreja, é oferecido na eucaristia de modo sacramental sem derramamento de sangue, até o dia da vinda do Senhor” [8].
A constituição Lumen gentium do Vaticano II, falando do “sacerdócio comum” de todos os fiéis, escreve: “os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia... pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela ; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente mas cada um a seu modo, todos tomam parte na ação litúrgica.”
A Eucaristia é, portanto, ato de todo o povo de Deus, não apenas no sentido passivo, mas também ativamente, no sentido de que é realizada mediante a participação de todos. O fundamento bíblico mais claro desta doutrina é Romanos 12, 1: “Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto”.
Comentando estas palavras de Paulo, São Pedro Crisólogo dizia: “o Apóstolo vê assim elevados todos os homens à dignidade sacerdotal, para oferecerem os próprios corpos como sacrifício vivo. Oh, imensa dignidade do sacerdócio cristão! O homem foi tornado vítima e sacerdote por si mesmo. Não busca mais fora de si algo a ser imolado a Deus, mas traz em si mesmo aquilo que sacrifica a Deus... Irmãos, este sacríficio é inspirado naquele de Cristo” [10].
Examinemos como o modo de viver a consagração que ilustrei pode ajudar também os leigos a unirem-se à oferenda do sacerdote. Também o leigo é chamado, como vimos, a oferecer-se a Cristo na Missa. Pode fazê-lo usando as mesmas palavras de Cristo: “Tomai e comei, este é meu corpo”? A meu ver, não há nada que se oponha a isso. Não fazemos o mesmo quando, para expressar nossa submissão à vontade de Deus, recorremos às palavras ditas por Jesus na cruz: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”; ou quando, em momentos de provação, repetimos: “Afasta de mim este cálice”, ou qualquer outra palavra do Salvador? Usar as palavras de Jesus nos ajuda nos unirmos aos seus sentimentos.
A mística mexicana que mencionei anteriormente sentia dirigidas também a ela, e não apenas a seu filho sacerdote, as palavras de Cristo: “Desejo que, transformado pelo sofrimento, pelo amor e pela prática de todas as virtudes, erga-se aos céus este grito de tua alma em união com Cristo: este é meu corpo, este é meu sangue” [11].
O fiel leigo deve apenas estar consciente de que estas palavras, por ele proferidas na Missa, não têm o poder de fazer presentes o corpo e o sangue de Cristo sobre o altar. Ele não age, neste momento, in persona Christi; não representa Cristo, como faz o sacerdote ordenado, mas apenas se une a Cristo. Por isso, não deve dizer as palavras da consagração em voz alta, como o sacerdote, mas no próprio coração.
Imaginemos o que ocorreria caso também os leigos, no momento da consagração, dissessem silenciosamente: “Tomai e comei: este é meu corpo. Tomai e bebei: este é meu sangue”. Uma mãe de família celebra assim sua Missa, e depois retorna a casa para dedicar-se aos seus milhares de pequenos afazeres. Sua vida está literalmente esmigalhada; aparentemente, não deixará qualquer marca na história. Mas o que faz, definitivamente, não é algo a ser desprezado: uma eucaristia junto a Jesus! Uma freira diz, também ela, em seu coração, no momento da consagração: “Tomai e comei...”; em seguida, vai se dedicar ao seu trabalho cotidiano: crianças, doentes, idosos. A Eucaristia “invade” seu dia, que se torna então uma extensão da Eucaristia.
Mas gostaria de me deter em particular em duas categorias de pessoas: os trabalhadores e os jovens. O pão eucarístico, “fruto da terra e do trabalho do homem”, há de ter algo importante a dizer a respeito do trabalho humano – e não apenas o do agricultor. No processo que parte do grão semeado e culmina com o pão sobre a mesa, intervém a indústria com seu maquinário, o comércio, os transportes e uma infinidade de outras atividades - enfim, todo o trabalho humano. Ensinemos o trabalhador cristão a oferecer, na Missa, seu corpo e seu sangue, isto é, seu tempo, seu suor, sua fadiga. Assim, o trabalho não será mais, como na ótica marxista, algo alienante, cujo fim se restringe ao produto que está sendo vendido; passa a ser santificante.
E que dizer aos jovens sobre a Eucaristia? Basta que tenhamos uma coisa em mente: o que deseja o mundo dos jovens hoje? O corpo, nada mais que o corpo! O corpo, na mentalidade do mundo, é essencialmente um instrumento de prazer e desfrute. Algo a ser vendido, espremido enquanto ainda é jovem e atraente, para depois ser descartado, juntamente com a pessoa, quando já não serve mais a estes propósitos. Especialmente o corpo da mulher se tornou um artigo de consumo.
Ensinemos os jovens cristãos a dizerem, no momento da consagração: “Tomai e comei, este é meu corpo, que será entregue por vós”. O corpo, assim, passa a ser consagrado, torna-se algo sagrado, que já não pode mais ser entregue ao consumo, que já não pode ser vendido, uma vez que é uma oferenda. Tornou-se eucaristia com Cristo. O apóstolo Paulo escrevia aos primeiros cristãos: “O corpo, porém, não é para a prostituição, ele é para o Senhor... Então, glorificai a Deus no vosso corpo (1 Cor 6, 13.20). E explicava em seguida as duas formas de glorificar a Deus com o próprio corpo: ou com o matrimônio, ou com a virgindade, de acordo com a vocação de cada um (cf. 1 Cor 7, 1 ss.).
5. Com a obra do Espírito Santo
Onde encontrar a força, sacerdotes e leigos, para fazer essa oferenda total de si mesmo a Deus, para erguer-se da terra com as próprias mãos? A resposta é: o Espírito Santo! Cristo, como vimos na primeira Carta aos Hebreus, ofereceu-se a si mesmo ao Pai em sacrifício, “no Espírito eterno” (Eb 9, 14), isto é, graças ao Espírito Santo. Foi o Espírito Santo que, assim como suscitou no homem o impulso para a oração, suscitou nele o impulso e o desejo de oferecer-se ao Pai em sacrifício pela humanidade.
O Papa Leão XIII, em sua encíclica sobre o Espírito Santo, diz que “Cristo cumpriu toda a sua obra, e, especialmente, seu sacrifício, com a intervenção do Espírito Santo (praesente Spiritu)” [12] e na Missa, antes da comunhão, o sacerdote ora dizendo: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, que por vontade do Pai e com a obra do Espírito Santo (cooperante Spiritu Sancto), morrendo deu a vida ao mundo...”. Isto explica por que na Missa há duas “epicleses”, isto é, duas invocações do Espírito Santo: uma, antes da consagração, sobre o pão e o vinho; e outra, após a consagração, sobre a totalidade do corpo místico.
Com as palavras de uma destas epicleses (Oração eucarística III), peçamos ao Pai o dom de seu Espírito para que sejamos, em cada Missa, como Jesus, sacerdotes e, ao mesmo tempo, sacrifício: “Que Ele (o Espírito Santo) faça de nós um sacrifício perene e agradável a vós, para que possamos entrar no reino prometido com os eleitos: com a Virgem Maria, Mãe de Deus, com os santos e apóstolos, os gloriosos mártires e como todos os santos nossos intercessores junto a vós”.
[Tradução de Paulo Marcelo Silva]
[Notas originais em italiano:]
[1] PO, 2.
[2] Didachè, 9-10.
[3] Agostino, Confessioni, 10,43.
[4] Eucharisticum mysterium, 3; cf. Agostino, De civitate Dei, X, 6 (CCL 47, 279).
[5] Gregorio Nazianzeno, Oratio 2, 95 (PG 35, 497).
[6] In Diario spirituale di una madre di famiglia, a cura di M.-M. Philipon, Roma, Città Nuova, 1985, p. 117.
[7] Citato da Benedetto XVI nella Lettera di indizione dell'anno sacerdotale.
[8] PO, 2.
[9] Lumen gentium, 10-11.
[10] Pietro Crisologo, Sermo 108 (PL 52, 499 s.).
[11] Diario, cit., p. 199.
[12] Leone XIII, Enc. "Divinum illud munus", 6.

Dia de Oração e Jejum em memória dos missionários mártires

"A minha vida pertence a vocês"

O 30° aniversário do assassinato de Dom Romero, 24 de março, é o Dia de Oração e Jejum pelos missionários mártires.
O Grupo Juvenil Missionário das Pontifícias Obras Missionárias da Itália recorda no próximo dia 24, o 30° aniversário do assassinato de Dom Oscar Arnulfo Romero.
Os jovens recordam, a cada ano nessa data, todos os missionários assassinados no mundo com um Dia de Oração e Jejum em memória dos missionários mártires.
A iniciativa chegou à sua 18ª edição e se realiza em várias dioceses do mundo e muitos institutos religiosos recordam, através de várias iniciativas, seus missionários que derramaram seu sangue por causa do Evangelho.
Tema
O tema deste ano para recordar Dom Romero é "A minha vida pertence a vocês". O diretor das Pontifícias Obras Missionárias da Itália, Pe. Gianni Cesena, disse que na "semente lançada por Dom Romero, como por muitos outros mártires cristãos da antiguidade e de hoje, a comunidade cristã reencontra o sentido profundo da vida segundo o Evangelho e a coragem de uma memória ativa, capaz de continuar o caminho com uma perspectiva melhor".
Atividades propostas
Às comunidades paroquiais e de vida consagrada, seminários, noviciados, grupos engajados, são propostas a realização da Vigília de Oração, a Via Sacra, a Adoração Eucarística sobre o tema do dia. Entre outras indicações sugere-se a criação nas igrejas de um ângulo do martírio utilizando uma cruz, pano vermelho, um ramo de oliveira com os nomes dos missionários e missionárias mortos; tocar os sinos, às 15h, do dia 24 de março para convidar à meditação sobre o sacrifício de Cristo de tantas mulheres e homens de boa vontade; plantar uma árvore para lembrar o amor daqueles que deram tudo por amor. As famílias podem acender uma vela vermelha nas janelas junto com um pano vermelho; fazer um gesto de reconciliação entre os membros da família e os vizinhos. Oferecer a oferta do jejum para ajudar nos projetos de solidariedade proposto este ano. Doentes e sofredores podem oferecer seu sofrimento em memória dos missionários e missionárias mortos por causa do Evangelho. Os jovens são convidados a doar sangue e visitar os que estão sozinhos e oprimidos, no hospital, clínicas e cárceres...

Projeto de solidariedade
Este ano o projeto de solidariedade pretende apoiar com as ofertas arrecadadas do jejum do próximo dia 24, a construção do Centro Juvenil dos Padres Canossianos no Distrito de Tondo, uma das áreas mais pobres de Manila, capital das Filipinas.

(S.L.) (Agência Fides 9/3/2010)

TESTEMUNHO: Primeiro Sacerdote Paulino


Bem-aventurado Timóteo Giaccardo, primeiro sacerdote paulino.


Família Paulina celebra o bem-aventurado Timóteo

No mundo inteiro, no dia de hoje, 22 de outubro, a Família Paulina celebrou missas de ação de graças pelo bem-aventurado Timóteo Giaccardo.


Onde nasceu

A originalidade de sua vida está em ter sido um fidelíssimo discípulo do Fundador da Família Paulina, Bem-aventurado Tiago Alberione.

Nasceu em Narzole, norte da Itália. Sua família era pobre de bens materiais, mas rica de fé e virtudes cristãs.

Em 1908, Giaccardo encontrou-se pela primeira vez com o jovem padre Tiago Alberione que, em Narzole estava dando sua colaboração na paróquia. Padre Alberione, percebendo no pequeno José profunda piedade e grande vontade de ser padre; encaminhou-o para o seminário da diocese de Alba. Tendo como guia espiritual padre Alberione, em 1917 Timóteo entrou na "Obra de São Paulo" fundada em 1914 por seu mestre e cuja finalidade específica era a evangelização por meio da imprensa, a principal mídia da época.

Vida espiritual

Desde cedo Timóteo mostrou-se uma pessoa de profunda vida interior, desejosa de ser cada dia melhor e ajudar seus semelhantes no bem. Por isso com grande fé acatou as orientações de Padre Alberione que indicava uma nova forma de santidade e de evangelização. Giaccardo, movido pela fé, foi fiel companheiro da "primeira hora", seguidor incondicional e colaborador ativo do Fundador da então nascente Família Paulina. Acompanhou todas as obras e todas as pessoas com grande perspicácia e sensibilidade.

Além de alguns livros, deixou como preciosa herança espiritual um "Diário", rico da presença de Deus e desejos profundos de santidade para si mesmo e para todos. Sua fé em Deus e amor à missão fazia dele uma pessoa autêntica e radical. Lemos em seu "Diário": "Ó Jesus, quero viver de tua vida, transforma-me. Quero ser "outro Jesus" na minha vida e com todas as pessoas".


Ofereceu a própria vida pela Congregação das Discípulas


Diante das grandes dificuldades para a aprovação da Congregação das Discípulas do Divino Mestre (uma das congregações fundadas por Alberione) que se dedicam à missão eucarística, missão sacerdotal e missão litúrgica, padre Timóteo não mediu esforços nem súplicas. Diante das respostas negativas não hesitou em oferecer a própria vida para a garantir a existência na Igreja desta congregação, certamente querida por Deus. E o importante é que Deus aceitou a oferta. Foi assim que ele, acometido por leucemia, veio a falecer alguns dias após a aprovação pontifícia das Discípulas do Divino Mestre, no dia 24 de janeiro de 1948. A aprovação chegara no dia 12 de janeiro de 1948. Dele escreveu o Fundador: "De 1909 a 1914, quando a Divina Providência preparava a Família Paulina, ele, embora não entendendo tudo, teve clara intuição da obra. As luzes que recebeu da Eucaristia, sua fervorosa devoção Mariana, a reflexão sobre os documentos pontifícios o iluminaram sobre as necessidades da Igreja e sobre os meios modernos para anúncio do Evangelho".


Formador e Mestre da Família Paulina

Desde 1917, ainda seminarista, orientava os mais novos; foi chamado e tornou-se para sempre: o senhor mestre: amado, ouvido, seguido e venerado por todos. Foi o mestre que a todos precedia com o exemplo, que ensinava, aconselhava e construía com suas orações iluminadas e fervorosas. Gravou, pode-se dizer, em cada pessoa sua marca, e imprimiu algo de si em cada coração dos Sacerdotes e Discípulos, das Paulinas, Discípulas e Pastorinhas e em todos aqueles que se aproximaram dele por motivos espirituais ou sociais e econômicos.


Foi mestre na oração

Sabia falar com Deus. Vivia intensamente a devoção à eucaristia, a Nossa Senhora, à liturgia e nutria um grande amor à Igreja e ao Papa.


Foi mestre na missão

Ele a sentia, a amava e a desenvolvia. Sabia suscitar energias, ser o sustento para os fracos e luz e sal, no sentido evangélico, para todos. Foi o coração e a alma da Família Paulina. Quem quiser conhecer alguém que encarnou totalmente o ideal e o carisma da missão paulina em sua integralidade, deve olhar o "senhor mestre". (Alberione)


Venerável e bem-aventurado

A aprovação e o reconhecimento de suas virtudes, por parte da Igreja, não se fizeram esperar. Em 1985 foi declarado venerável. E a 22 de outubro de 1989, o Papa João Paulo II o declarou solenemente bem-aventurado.

Entrevista: A realização da pessoa no celibato sacerdotal

Detalhe da Capela Central das Irmãs Paulinas, em são Paulo
Na última sexta-feira, 5 de março, terminou, na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, de Roma, o congresso “O celibato sacerdotal: teologia e vida”, organizado pela faculdade de teologia da instituição e patrocinado pela Congregação para o Clero, a propósito do Ano Sacerdotal.

Uma das conferências mais aplaudidas pelos participantes, compostos em sua maioria por diáconos e sacerdotes, foi a denominada “A realização da pessoa no celibato sacerdotal”, do professor espanhol Aquilino Polaino-Lorente.

Polaino é médico pela Universidade de Granada. Posteriormente, estudou Psicologia clínica na Complutense de Madri. É doutor em Medicina pela Universidade de Sevilha. Também se formou em Filosofia na Universidade de Navara. Ampliou seus estudos em diversas instituições de educação superior europeias e americanas. De 1978 a 2004, foi catedrático de Psicopatologia na Universidade Complutense e atualmente é docente da mesma disciplina na Universidade San Pablo, na capital espanhola.

Escreveu numerosos artigos e livros, especialmente sobre os problemas psicológicos infantis e juvenis, assim como familiares. É membro de academias de Medicina de várias cidades espanholas, colaborador de diversos organismos e, pelo seu trabalho e sua bagagem intelectual, já recebeu várias distinções.

Zenit entrevistou o professor Polaino, quem, em sua conferência, explicou como uma correta visão da sexualidade, na qual devem integrar-se o amor, a abertura à vida e o prazer, pode levar a entender também o sentido do celibato sacerdotal, ao qual são chamadas algumas pessoas para estarem mais disponíveis para o apostolado e para viver o amor universal.

“Deus não pede coisas impossíveis a quem chama para o seu serviço”, disse em sua intervenção, referindo-se ao tema central do congresso.

-O celibato sacerdotal é psicologicamente perigoso?

Aquilino Polaino: Não é nada perigoso, porque talvez entenda muito bem como é a estrutura antropológica realista da condição humana. Tem suas dificuldades, como é lógico, já que a natureza humana está um pouco deteriorada e é preciso integrar todas as dimensões. Eu acho mais perigoso o comportamento sexual aberto, não normativo, no qual vale tudo; acho que isso tem consequências mais desestruturadores da personalidade do que o celibato bem vivido em sua plenitude, sem rupturas ou fragmentações.

-Que meios o sacerdote deve por para ser fiel ao voto do celibato durante todos os dias da sua vida?

Aquilino Polaino: A tradição da Igreja oferece muitíssimos conselhos que podem ser aplicados e que são eficazes: por exemplo, a guarda do coração e da vista. O que os olhos não veem o coração não se sente. Tampouco se trata de andar olhando para o chão, mas é possível ver sem enxergar. Isso garante a limpeza do coração e, além disso, a vivência do primeiro mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas. Em uma panela de pressão não entram mosquitos. Um coração satisfeito não anda com mesquinhez nem com fragmentações.

-Você acha que a cultura hedonista deste novo século, tão difundida na mídia, influencia no fato de que alguns sacerdotes não sejam fiéis ao voto do celibato?

Aquilino Polaino: É possível, porque a fragilidade da condição humana também é vivida pelos sacerdotes. Penso que é preciso prestar mais atenção ao imenso número de sacerdotes fiéis à sua vocação. A exceção também se dá na vida sacerdotal, mas é exceção. Ainda que no jornalismo seja muito correto focar a exceção, não podemos ser cegos aos muitíssimos sacerdotes que são leais, que vivem sua vocação plenamente, que são felizes e aos quais o mundo deve sua felicidade. Isso é que precisa ser enfatizado.

-Uma reta visão da sexualidade pode proporcionar uma reta visão da vida celibatária?

Aquilino Polaino: Sim. Penso que a sexualidade hoje é uma função muito confusa, é uma faculdade sobre a qual há mais erros que pontos de acordo sobre o que é a natureza humana e talvez seja um programa para ensinar em todas as idades, porque, como é um dos eixos fundamentais da vida humana, se não for bem atendido, se as pessoas não estiverem bem formadas, o que viverão é a confusão reinante. Isso afeta tanto seminaristas como pessoas jovens, noivos. Esta educação hoje é uma educação para a vida. É uma matéria que às vezes se ensina mal, porque são ensinados os erros e isso é confundir ainda mais, ao invés de explicar esta matéria com rigor científico que tenha fundamento na natureza humana.

-O que significa o sacerdote ser chamado a ser pai espiritual?

Aquilino Polaino: Penso que este é um dos temas pouco aprofundados. A paternidade espiritual também deve ser vivida pelos pais biológicos e muitos deles jamais ouviram falar disso. A paternidade espiritual é, de certa forma, viver todas as obras de misericórdia: consolar o triste, redimir o cativo, ser hospitaleiro, afirmar o outro no que vale, evitar-lhe problemas, estimulá-lo e motivá-lo para que cresça pessoalmente, incentivar o aparecimento de valores que ele já tem, porque vieram com sua natureza, mas talvez não tenha sabido encontrá-los nem fazê-los crescer. Penso que este mundo está órfão dessa paternidade e dessa maternidade espiritual; e acho que é uma dimensão que o sacerdote, quase sem perceber o que faz, já vive.

-A vida celibatária pode tornar esta paternidade espiritual mais fecunda?

Aquilino Polaino: Necessariamente sim, porque há mais tempo e disponibilidade. Se o objetivo final é a união com Deus, a paternidade espiritual adquire mais sentido, porque é a melhor imagem da paternidade divina no mundo contemporâneo; portanto, está como mediador e, na medida em que viver a filiação divina, também viverá muito bem a paternidade espiritual.

Fonte: ZENIT

Há 50 anos gravando o Evangelho no coração do povo

Abertura do Jubileu de 50 anos da Paulinas COMEP.
Dia 6 de março, às 9h, Missa no Santuário de Aparecida.
Padre Zezinho, scj, vai co-celebrar!