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DOCUMENTO: Os bispos falaram dos desafios dos presbíteros

Os bispos da América Latina falaram, no Documento Final da V Conferência, sobre situações que afetam a vida e o ministério dos presbíteros.
192. Um olhar ao nosso momento atual nos mostra situações que afetam e desafiam a vida e o ministério de nossos presbíteros. Entre outras coisas, a identidade teológica do ministério presbiteral, sua inserção na cultura atual e situações que incidem sobre a existência deles.

193. O primeiro desafio tem relação com a identidade teológica do ministério presbiteral. O Concílio Vaticano II estabelece o sacerdócio ministerial a serviço do sacerdócio comum dos fiéis, e cada um, ainda que de maneira qualitativamente diferente, participa do único sacerdócio de Cristo. Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, nos remiu e nos partilhou sua vida divina. NEle, somos todos filhos do mesmo Pai e irmãos entre nós. O sacerdote não pode cair na tentação de se considerar somente mero delegado ou apenas representante da omunidade, mas sim um dom para ela, pela unção do Espírito e por sua especial união com Cristo. “Todo Sumo Sacerdote é tomado dentre os homens e colocado para intervir a favor dos homens em tudo o que se refere ao serviço de Deus” (Hb 5,1).

194. O segundo desafio se refere ao ministério do presbítero inserido na cultura atual. O presbítero é chamado a conhecê-la para semear nela a semente do Evangelho, ou seja, para que a mensagem de Jesus chegue a ser uma interpelação válida, compreensível, cheia de esperança e relevante para a vida do homem e da mulher de hoje, especialmente para os jovens. Esse desafio inclui a necessidade de potencializar adequadamente a formação inicial e permanente dos presbíteros, em suas quatro dimensões: humana, espiritual, intelectual e pastoral.

195. O terceiro desafio se refere aos aspectos vitais e afetivos, ao celibato e a uma vida espiritual intensa fundada na caridade pastoral, que se nutre na experiência pessoal com Deus e na comunhão com os irmãos; também ao cultivo de relações fraternas com o Bispo, com os demais presbíteros da diocese e com os leigos. Para que o ministério do presbítero seja coerente e testemunhal, ele deve amar e realizar sua tarefa pastoral em comunhão com o bispo e com os demais presbíteros da diocese. O ministério sacerdotal que brota da Ordem Sagrada tem “radical forma comunitária” e só pode desenvolver-se como “tarefa coletiva”. O sacerdote deve ser homem de oração, maduro em sua opção de vida por Deus, fazer uso dos meios de perseverança,como o Sacramento da Confissão, da devoção à Santíssima Virgem, da mortificação e da entrega apaixonada por sua missão pastoral.

196. Em particular, o presbítero é convidado a valorizar como dom de Deus o celibato, que lhe possibilita especial configuração com o estilo de vida do próprio Cristo e o faz sinal de sua caridade pastoral na entrega a Deus e aos homens com o coração pleno e indivisível. “Na verdade, esta opção do sacerdote é uma expressão singular da entrega que o configura com Cristo e da entrega de si mesmo pelo Reino de Deus”. O celibato solicita assumir com maturidade a própria afetividade e sexualidade, vivendo-as com serenidade e alegria no caminho comunitário.

197. Outros desafios são de caráter estrutural, como por exemplo a existência de paróquias muito grandes, que dificultam o exercício de uma pastoral adequada: paróquias muito pobres que fazem com que os pastores se dediquem a outras tarefas para poderem subsistir; paróquias situadas em regiões de extrema violência e insegurança, e a falta e má distribuição de presbíteros nas Igrejas do Continente.

198. O presbítero, à imagem do Bom Pastor, é chamado a ser homem de misericórdia e compaixão, próximo a seu povo e servidor de todos, particularmente dos que sofrem grandes necessidades.
A caridade pastoral, fonte da espiritualidade sacerdotal, anima e unifica sua vida e ministério. Consciente de suas limitações, ele valoriza a pastoral orgânica e se insere com gosto em seu presbitério.

CARTA: Encerramento do ano Sacerdotal - Dom Cláudio Hummes

Roma, 12 de abril de 2010

Caros Presbíteros,

A Igreja sem dúvida está muito feliz com o Ano Sacerdotal e agradece ao Senhor por haver inspirado o Santo Padre a decidir sua realização. Todas as informações que chegam aqui a Roma sobre as numerosas e multíplices iniciativas programadas pelas Igrejas locais no mundo inteiro para realizar este ano especial constituem a prova de como foi bem recebido e - podemos dizer – correspondeu a um verdadeiro e profundo anseio dos presbíteros e de todo o povo de Deus. Estava na hora de dar uma atenção especial de reconhecimento e de empreendimento em favor do grande, laborioso e insubstituível presbitério e de cada presbítero da Igreja.

É verdade que alguns, mas proporcionalmente muito poucos, presbíteros cometeram horríveis e gravíssimos delitos de abuso sexual contra menores, fatos que devemos rejeitar e condenar de modo absoluto e intransigente. Devem eles responder diante de Deus e diante dos tribunais, também civis. Mas estamos antes de mais nada do lado das vítimas e queremos dar-lhes apoio tanto na recuperação como em seus direitos ofendidos.

Por outro lado, os delitos de alguns não podem absolutamente ser usados para manchar o inteiro corpo eclesial dos presbíteros. Quem o faz, comete uma clamorosa injustiça. A Igreja, neste Ano Sacerdotal, procura dizer isto à sociedade humana. Qualquer pessoa de bom senso e boa vontade o entende.

Dito necessariamente isso, voltamos a vós, caros presbíteros. Queremos dizer-vos, mais uma vez, que reconhecemos o que sois e o que fazeis na Igreja e na sociedade. A Igreja vos ama, vos admira e vos respeita. Sois também alegria para nossa gente católica no mundo, que vos acolhe e apoia, principalmente nestes tempos de sofrimentos.

Daqui a dois meses chegaremos ao encerramento do Ano Sacerdotal. O Papa, caros sacerdotes, convida-vos de coração a vir de todo o mundo a Roma para este encerramento nos dias 9, 10 e 11 de junho próximo. De todos os países do mundo. Dos países mais próximos de Roma dever-se-ia poder esperar milhares e milhares, não é verdade? Então, não recuseis o convite premuroso e cordial do Santo Padre. Vinde e Deus vos abençoará. O Papa quer confirmar os presbíteros da Igreja. A vossa presença numerosa na Praça de São Pedro constituirá também uma forma propositiva e responsável de os presbíteros se apresentarem, prontos e não intimidados, para o serviço à humanidade, que lhes foi confiado por Jesus Cristo. A vossa visibilidade na praça, diante do mundo hodierno, será uma proclamação do vosso envio não para condenar o mundo, mas para salvá-lo (cfr. Jo 3,17 e 12,47). Em tal contexto, também o grande número terá um significado especial.

Para essa presença numerosa dos presbíteros no encerramento do Ano Sacerdotal, em Roma, há ainda um motivo particular, que a Igreja hoje tem muito a peito. Trata-se de oferecer ao amado Papa Bento XVI nossa solidariedade, nosso apoio, nossa confiança e nossa comunhão incondicional, diante dos frequentes ataques que lhe são dirigidos, no momento atual, no âmbito de suas decisões referentes aos clérigos incursos nos delitos de abuso sexual contra menores. As acusações contra o Papa são evidentemente injustas e foi demonstrado que ninguém fez tanto quanto Bento XVI para condenar e combater corretamente tais crimes. Então, a presença massiva dos presbíteros na praça com Ele será un sinal forte da nossa decidida rejeição dos ataques de que è vítima. Portanto, vinde também para apoiar o Santo Padre.

O encerramento do Ano Sacerdotal não constituirá propriamente um encerramento, mas um novo início. Nós, o povo de Deus e os pastores, queremos agradecer a Deus por este período privilegiado de oração e de reflexão sobre o sacerdócio. Ao mesmo tempo, propomo-nos de estar sempre atentos ao que o Espírito Santo quer nos dizer. Entretano, voltaremos ao serviço de nossa missão na Igreja e no mundo com alegria renovada e com a convicção de que Deus, o Senhor da história, fica conosco, seja nas crises seja nos novos tempos.

A Virgem Maria, Mãe e Rainha dos sacerdotes, interceda por nós e nos inspire no seguimento de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.

Cardeal Cláudio Hummes
Arcebispo Emérito de São Paulo
Prefeito da Congregação para o Clero

DOCUMENTO: O ministério dos presbíteros no mundo


Os presbíteros, tirados dentre os homens e constituídos a favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecerem dons e sacrifícios pelos pecados, convivem fraternalmente com os restantes homens. Assim também, o Senhor Jesus, Filho de Deus, enviado pelo Pai como homen para o meio dos homens, habitou entre nós e quis assemelhar-se em tudo aos seus irmãos, menos no pecado. Já os Apóstolos o imitaram, e S. Paulo doutor das gentes, «escolhido para anunciar o Evangelho de Deus» (Rm 1,1) atesta que se fez tudo para todos, para salvar a todos. Os presbíteros do Novo Testamento, em virtude da vocação e ordenação, de algum modo são segregados dentro do Povo de Deus, não para serem separados dele ou do qualquer homem, mas para se consagrarem totalmente à obra para que Deus os chama. Não poderiam ser ministros de Cristo se não fossem testemunhas e dispensadores duma vida diferente da terrena, e nem pode riam servir os homens se permanecessem alheios à sua vida e às suas situações. O seu próprio ministério exige, por um título especial, que não se conformem a este mundo; mas exige também que vivam neste mundo entre os homens e, como bons pastores, conheçam as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que não pertencem a este redil, para que também elas oiçam a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só pastor. Para o conseguirem, muito importam as virtudes que justamente se apreciam no convívio humano, como são a bondade, a sinceridade, a fortaleza de alma e a constância, o cuidado assíduo da justiça, a delicadeza, e outras que o Apóstolo Paulo recomenda quando diz: «Tudo quanto é verdadeiro, tudo quanto é puro, tudo quanto é justo, tudo quanto é santo, tudo quanto é amável, tudo quanto é de bom nome, toda a virtude, todo o louvor da disciplina, tudo isso pensai» (Fl 4,8). (Presbyterorum ordinis, 3).

25a. Jornada Mundial da Juventude

"Bom Mestre, o que tenho que fazer para conseguir a vida eterna?"
Bento XVI pede que jovens sigam Cristo sem temer incompreensões

O papa pediu hoje, 28, aos jovens, na 25ª Jornada Mundial da Juventude, que sigam Cristo e que não temam "as incompreensões e ofensas" que isso demanda.

Criada há 25 anos por João Paulo II, a Jornada Mundial da Juventude este ano é realizada em nível diocesano em todo o mundo.

"Hoje renovo a chamada de João Paulo II às novas gerações para que testemunhem com força aprazível e luminosa a verdade, para que aos homens e mulheres do terceiro milênio não falte o modelo mais autêntico, que é Jesus", afirmou o papa.
Bento XVI teve palavras de afeto para os milhares de jovens presentes na praça de São Pedro, que levavam bandeiras de seus países.
O lema da jornada este ano é "Bom Mestre, o que tenho que fazer para conseguir a vida eterna?". Por ocasião do evento, o papa enviou uma mensagem a todos os jovens do mundo e os exortou a não ter medo da crise econômica e do desemprego.
Também disse que o futuro está nas mãos dos jovens e que a fé em Cristo lhes dará força para enfrentar com serenidade a vida e assumir responsabilidades familiares e profissionais.
Bento XVI, de quase 83 anos, afirmou ainda que, da mesma forma que os desportistas, os jovens têm que se exercitar todos os dias, mesmo que não estejam entre os vencedores, e que essa mesma situação serve para os outros aspectos da vida.

Em 1984, após concluir o Ano Santo da Redenção, João Paulo II entregou uma cruz de madeira de 4 metros aos jovens e os convidou a levá-la por todo o mundo, nascendo assim a jornada.
A primeira jornada ocorreu em Roma, em 1985, e a próxima será em Madri, em 2011.

Fonte: Agência EFE

Mensagem de Bento XVI para a 25ª Jornada Mundial da Juventude

“Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (Mc 10, 17)

Queridos amigos,

Celebra-se este ano o 25º aniversário de instituição da Jornada Mundial da Juventude, desejada pelo Venerável João Paulo II como encontro anual dos jovens crentes do mundo inteiro. Foi uma iniciativa profética que deu frutos abundantes, permitindo às novas gerações cristãs encontrar-se, pôr-se à escuta da Palavra de Deus, descobrir a beleza da Igreja e viver experiências fortes de fé que levaram muitos à decisão de doar-se totalmente a Cristo.

Esta XXV Jornada representa uma etapa rumo ao próximo Encontro Mundial dos Jovens, que terá lugar no mês de Agosto de 2011 em Madrid, onde espero sejais numerosos a viver este evento de graça.

Para nos prepararmos para tal celebração, gostaria de vos propor algumas reflexões sobre o tema deste ano: "Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?"» (Mc 10, 17), tirado do episódio evangélico do encontro de Jesus com o jovem rico; um tema abordado já em 1985 pelo Papa João Paulo II numa belíssima Carta, a primeira dirigida aos jovens.

1. Jesus encontra um jovem
"Quando saía [Jesus], para se pôr a caminho – narra o Evangelho de São Marcos – aproximou-se dele um homem a correr e, ajoelhando-se, perguntou: ´Bom mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?´. Jesus disse-lhe: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus. Sabes os mandamentos: não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, não defraudarás, honrarás teu pai e tua mãe”.

Ele respondeu-lhe: “Mestre, tenho guardado tudo isto desde a minha juventude”. Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele, e respondeu-lhe: “Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me!”. Mas, ao ouvir tais palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, pois tinha grande fortuna" (Mc 10, 17-22).

Esta narração exprime de maneira eficaz a grande atenção de Jesus pelos jovens, por vós, pelas vossas expectativas, pelas vossas esperanças, e mostra como é grande o seu desejo de vos encontrar pessoalmente e entrar em diálogo com cada um de vós. Com efeito, Cristo interrompe o seu caminho para responder ao pedido do seu interlocutor, manifestando plena disponibilidade àquele jovem, que é impelido por um ardente desejo de falar com o "Bom Mestre", para aprender dele a percorrer o caminho da vida. Com este trecho evangélico, o meu Predecessor queria exortar cada um de vós a "desenvolver o próprio diálogo com Cristo – um diálogo que é de importância fundamental e essencial para um jovem" (Carta aos jovens, n. 2).

2. Jesus fitou-o e sentiu afeição por ele
Na narração evangélica, São Marcos sublinha como "Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele" (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro muito especial e de toda a experiência cristã. Com efeito, o cristianismo não é primariamente uma moral, mas experiência de Jesus Cristo, que nos ama pessoalmente, jovens ou idosos, pobres ou ricos; ama-nos mesmo quando lhe voltamos as costas.

Comentando a cena, o Papa João Paulo II acrescentava, dirigindo-se a vós, jovens: "Faço votos por que experimenteis um olhar assim! Faço votos por que experimenteis a verdade de que Ele, Cristo, vos fixa com amor" (Carta aos jovens, n. 7). Um amor, que se manifestou na Cruz de maneira tão plena e total, que São Paulo escreve maravilhado: "Amou-me e entregou-se por mim" (Gl 2, 20). "A consciência de que o Pai nos amou desde sempre no seu Filho, de que Cristo ama cada um e sempre – escreve ainda o Papa João Paulo II – torna-se um ponto de apoio firme para toda a nossa existência humana" (Carta aos jovens, n. 7) e permite-nos superar todas as provas: a descoberta dos nossos pecados, o sofrimento, o desânimo.

Neste amor, encontra-se a fonte de toda a vida cristã e a razão fundamental da evangelização: se verdadeiramente encontramos Jesus, não podemos deixar de o testemunhar àqueles que ainda não se cruzaram com o seu olhar.

3. A descoberta do projeto de vida
No jovem do Evangelho, podemos vislumbrar uma condição muito semelhante à de cada um de vós. Também vós sois ricos de qualidades, energias, sonhos, esperanças: recursos que possuís em abundância! A vossa própria idade constitui uma grande riqueza não apenas para vós, mas também para os outros, para a Igreja e para o mundo.

O jovem rico pergunta a Jesus: "Que devo fazer?" A estação da vida em que vos encontrais é tempo de descoberta: dos dons que Deus vos concedeu e das vossas responsabilidades. É, igualmente, tempo de opções fundamentais para construir o vosso projeto de vida. Por outras palavras, é o momento de vos interrogardes sobre o sentido autêntico da existência, perguntando a vós mesmos: "Estou satisfeito com a minha vida? Ou falta-me ainda qualquer coisa"?

Como o jovem do Evangelho, talvez vós vivais também situações de instabilidade, de perturbação ou de sofrimento, que vos levam a aspirar a uma vida não medíocre e a perguntar-vos: em que consiste uma vida bem sucedida? Que devo fazer? Qual poderia ser o meu projeto de vida? "Que devo fazer a fim de que a minha vida tenha pleno valor e pleno sentido?" (Ibid., n. 3).

Não tenhais medo de enfrentar estas perguntas! Longe de vos acabrunhar, elas exprimem as grandes aspirações, que estão presentes no vosso coração. Portanto, devem ser ouvidas. Esperam respostas não superficiais, mas capazes de satisfazer as vossas autênticas expectativas de vida e felicidade.

Para descobrir o projeto de vida que vos pode tornar plenamente felizes, colocai-vos à escuta de Deus, que tem um desígnio de amor sobre cada um de vós. Com confiança, perguntai-lhe: "Senhor, qual é o teu desígnio de Criador e Pai sobre a minha vida? Qual é a tua vontade? Desejo cumpri-la". Estai certos de que vos responderá. Não tenhais medo da sua resposta! "Deus é maior que os nossos corações e conhece tudo" (1 Jo 3, 20)!

4. Vem e segue-me!
Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projeto pessoais, dizendo-lhe: "Vem e segue-me!". A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor: "Jesus convida os seus discípulos ao dom total da sua vida, sem cálculos nem vantagens humanas, com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolhem este convite exigente e, com docilidade humilde, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em nunca se colocarem a si mesmos no centro, mas decidirem ir contra a corrente, vivendo segundo o Evangelho" (Bento XVI, "Homilia por ocasião das canonizações", in L'Osservatore Romano, 12-13/X/2009, pág. 6).

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, acolhei também vós, queridos amigos, com alegria o convite a seguir Jesus, para viverdes intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o Batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

A tristeza do jovem rico do Evangelho é aquela que nasce no coração de cada um, quando não tem a coragem de seguir Cristo, de fazer a escolha justa. Mas nunca é tarde demais para lhe responder!

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Neste Ano Sacerdotal, gostaria de exortar os jovens e adolescentes a estarem atentos para ver se o Senhor os convida a um dom maior, no caminho do sacerdócio ministerial, e a tornarem-se disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial, empreendendo, com a ajuda de um sacerdote, do diretor espiritual, o necessário caminho de discernimento. Depois, não tenhais medo, queridos jovens e queridas jovens, se o Senhor vos chamar à vida religiosa, monástica, missionária ou de especial consagração: Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

E, a quantos sentem a vocação ao matrimônio, convido a acolhê-la com fé, comprometendo-se a lançar bases sólidas para viver um amor grande, fiel e aberto ao dom da vida, que é riqueza e graça para a sociedade e para a Igreja.

5. Orientados para a vida eterna
"Que devo fazer para alcançar a vida eterna?": esta pergunta do jovem do Evangelho parece distante das preocupações de muitos jovens contemporâneos; porventura, como observava o meu Predecessor, "não somos nós a geração cujo horizonte da existência está completamente preenchido pelo mundo e pelo progresso temporal?" (Carta aos jovens, n. 5). Mas a questão acerca da "vida eterna" impõe-se em momentos particularmente dolorosos da existência, como quando sofremos a perda de uma pessoa querida ou experimentamos o insucesso.

Mas o que é a "vida eterna", de que fala o jovem rico? Jesus no-lo explica quando, dirigindo-se aos seus discípulos, afirma: "Ei de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria" (Jo 16, 22). São palavras que indicam uma proposta sublime de felicidade sem fim: a alegria de sermos cumulados pelo amor divino para sempre.

O interrogar-se sobre o futuro definitivo que nos espera dá sentido pleno à existência, porque orienta o projeto de vida não para horizontes limitados e passageiros mas amplos e profundos, que levam a amar o mundo, tão amado pelo próprio Deus, a dedicar-se ao seu desenvolvimento, mas sempre com a liberdade e a alegria que nascem da fé e da esperança.

São horizontes que nos ajudam a não absolutizar as realidades terrenas, sentindo que Deus nos prepara um bem maior, e a repetir com Santo Agostinho: "Desejemos juntos a pátria celeste, suspiremos pela pátria celeste, sintamo-nos peregrinos aqui na terra" (Comentário ao Evangelho de São João, Homilia 35, 9). Com o olhar fixo na vida eterna, o Beato Pier Giorgio Frassati – falecido em 1925, com a idade de 24 anos – dizia: "Quero viver; não ir vivendo!" e, numa fotografia a escalar uma montanha que enviou a um amigo, escrevera: "Rumo ao alto!", aludindo à perfeição cristã mas também à vida eterna.

Queridos jovens, exorto-vos a não esquecer esta perspectiva no vosso projeto de vida: somos chamados à eternidade. Deus criou-nos para estar com Ele, para sempre. Aquela ajudar-vos-á a dar um sentido pleno às vossas decisões e a dar qualidade à vossa existência.

6. Os mandamentos, caminho do amor autêntico
Jesus recorda ao jovem rico os dez mandamentos como condições necessárias para "alcançar a vida eterna". Constituem pontos de referência essenciais para viver no amor, para distinguir claramente o bem do mal e construir um projeto de vida sólido e duradouro. Também a vós, Jesus pergunta se conheceis os mandamentos, preocupando-vos em formar a vossa consciência segundo a lei divina, e se os pondes em prática.

Sem dúvida, trata-se de perguntas contra a corrente em relação à mentalidade contemporânea, que propõe uma liberdade desligada de valores, de regras, de normas objetivas, e convida a não colocar limites aos desejos do momento. Mas este tipo de proposta, em vez de conduzir à verdadeira liberdade, leva o homem a tornar-se escravo de si mesmo, dos seus desejos imediatos, de ídolos como o poder, o dinheiro, o prazer desenfreado e as seduções do mundo, tornando-o incapaz de seguir a sua vocação natural ao amor.

Deus dá-nos os mandamentos, porque nos quer educar para a verdadeira liberdade, porque quer construir conosco um Reino de amor, de justiça e de paz. Ouvi-los e pô-los em prática não significa alienar-se, mas encontrar o caminho da liberdade e do amor autênticos, porque os mandamentos não limitam a felicidade, mas indicam o modo como encontrá-la. No início do diálogo com o jovem rico, Jesus recorda que a lei dada por Deus é boa, porque "Deus é bom".

7. Temos necessidade de vós
Quem vive hoje a condição juvenil encontra-se a enfrentar muitos problemas resultantes do desemprego, da falta de referências ideais certas e de perspectivas concretas para o futuro. Às vezes pode-se ficar com a impressão de impotência diante das crises e derivas atuais. Apesar das dificuldades, não vos deixeis desencorajar nem renuncieis aos vossos sonhos! Pelo contrário, cultivai no coração desejos grandes de fraternidade, de justiça e de paz.

O futuro está nas mãos de quem souber procurar e encontrar razões fortes de vida e de esperança. Se quiserdes, o futuro está nas vossas mãos, porque os dons e as riquezas que o Senhor guardou no coração de cada um de vós, plasmados pelo encontro com Cristo, podem dar esperança autêntica ao mundo! É a fé no seu amor que, tornando-vos fortes e generosos, vos dará a coragem de enfrentar com serenidade o caminho da vida e assumir as responsabilidades familiares e profissionais. Comprometei-vos a construir o vosso futuro através de percursos sérios de formação pessoal e de estudo, para servir o bem comum de maneira competente e generosa.

Na recente Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral, Caritas in veritate, enumerei alguns dos grandes desafios atuais que são urgentes e essenciais para a vida deste mundo: a utilização dos recursos da terra e o respeito pela ecologia, a justa repartição dos bens e o controle dos mecanismos financeiros, a solidariedade com os países pobres no âmbito da família humana, a luta contra a fome no mundo, a promoção da dignidade do trabalho humano, o serviço à cultura da vida, a construção da paz entre os povos, o diálogo inter-religioso, o bom uso dos meios de comunicação social.

São desafios a que sois chamados a responder para construir um mundo mais justo e fraterno. São desafios que requerem um projeto de vida exigente e apaixonante, no qual investir toda a vossa riqueza, segundo o desígnio que Deus tem para cada um de vós. Não se trata de realizar gestos heróicos ou extraordinários, mas de agir fazendo frutificar os próprios talentos e possibilidades, comprometendo-se a progredir constantemente na fé e no amor.

Neste Ano Sacerdotal, convido-vos a conhecer a vida dos santos, em particular a dos santos sacerdotes. Vereis que Deus os guiou, tendo encontrado o seu caminho dia após dia precisamente na fé, na esperança e no amor. Cristo chama cada um de vós a comprometer-se com Ele e a assumir as próprias responsabilidades para construir a civilização do amor. Se seguirdes a sua Palavra, também o vosso caminho se iluminará e vos conduzirá rumo a metas elevadas, que dão alegria e sentido pleno à vida.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, vos acompanhe com a sua proteção. Asseguro-vos uma lembrança particular na minha oração e, com grande afeto, vos abençôo.

BENTO XVI

Cardeais e jornalistas comentam a carta do Papa à Igreja da Irlanda

Comentário do cardeal Ruini

O cardeal Camillo Ruini, presidente do Comitê para o Projeto Cultural da Igreja italiana, antecessor de Bagnasco na presidência da CEI e vigário do Papa para a diocese de Roma de 1991 a 2008.

Em uma entrevista concedida ao jornal Il Foglio do dia 16 de março, poucos dias antes que o Papa publicasse sua carta, Ruini disse, dentre outras coisas:

"Em minha opinião, a campanha difamatória contra a Igreja Católica e o Papa executada pelos meios de comunicação faz parte da estratégia que já está em curso há séculos e que Friedrich Nietzsche já teorizava com o gosto dos detalhes. Segundo Nietzsche, o ataque ao cristianismo não pode ser levado ao plano da verdade, mas ao da ética cristã, que seria inimiga da alegria de viver. E então, gostaria de perguntar a quem lança os escândalos da pedofilia principalmente contra a Igreja Católica, talvez colocando na roda o celibato dos padres: não seria talvez mais honesto e realista reconhecer que certamente esses e outros desvios ligados à sexualidade acompanham toda a história do gênero humano, mas também que, no nosso tempo, esses desvios foram posteriormente estimulados pela tão conclamada 'libertação sexual'?".

Cardel Bagnasco
O cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo de Gênova e presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), na segunda-feira, 22 de março, no discurso com o qual abriu os trabalhos do Conselho Permanente da CEI, Bagnasco concluiu assim a passagem dedicada à carta do Papa aos católicos da Irlanda:

"De várias partes, mesmo que não católicas, percebe-se como, não de agora, o fenômeno da pedofilia parece estar tragicamente difundido em diversos ambientes e em várias categorias de pessoas: mas isso, longe de ser aqui evocado para diminuir os relativizar a específica gravidade dos fatos assinalados em âmbito eclesiástico, é ao invés um alerta a querer compreender o tamanho objetivo da tragédia. No momento mesmo em que sente sobre si a humilhação, a Igreja aprende do Papa a não ter medo da verdade, mesmo quando ela é dolorosa e odiosa, a não calá-la ou cobri-la. Isso, porém, não significa sofrer – no caso que existam – estratégias de descrédito generalizadas.

"Devemos, na realidade, interrogar-nos todos, sem mais álibis, a propósito de uma cultura que, nos nossos dias, impera incontrastada e acariciada, e que tende a desfazer progressivamente o tecido conectivo de toda a sociedade, zombando talvez de quem resiste e tenta se opor: isto é, a atitude de quem cultiva a absoluta autonomia dos critérios do juízo moral e veicula como bons e sedutores os comportamentos retalhados também sobre vontades individuais e instintos talvez desenfreados. Mas a exasperação da sexualidade desconectada do seu significado antropológico, o hedonismo em todo o lugar e o relativismo que não admite nem barreiras, nem sacudidas, fazem um grande mal porque são capciosos e às vezes insuspeitavelmente penetrantes.

"Convém então que todos voltemos a chamar as coisas com o seu nome sempre e em todo o lugar, a identificar o mal na sua progressiva gravidade e na multiplicidade das suas manifestações, para não nos encontrarmos com o tempo diante da pretensão de uma aberração reivindicada no plano dos princípios".

"Quando a exaltação da sexualidade invade todos os espaços da vida e quando se reivindica a autonomia do instinto sexual de todos os critérios morais, torna-se difícil fazer com que se compreenda que determinados abusos devem ser absolutamente condenados. Na realidade, a sexualidade humana desde o seu início não é simplesmente instintiva, não é idêntica à dos outros animais. É, como todo o homem, uma sexualidade 'impregnada' pela razão e pela moral, que pode ser vivida humanamente e tornar-nos verdadeiramente felizes, apenas se é vivida desse modo".

Jornalistas de "La Stampa" e "L'Espresso"

Para os jornalistas Marco Tosatti, do diário “La Stampa”, e Sandro Magister, do semanário “L’Espresso” — que há vários anos observam e comentam a política da Santa Sé — as atitudes de Bento XVI têm mostrado algum avanço na tradicional “política do avestruz”, adotada no passado, quando o Vaticano preferia ignorar — ou fingir ignorar — denúncias de abuso sexual.

— Bento XVI fez o que nenhum papa dos últimos séculos teve a audácia de fazer: dar ordens a toda a Igreja da Irlanda, pedindo que culpados fossem levados a tribunais canônicos e civis, além de fazer coletivamente penitência e purificação — destaca Magister. A seriedade e firmeza que Bento XVI demonstrou em atos públicos e religiosos, ao condenar insinuações de conivência, cumplicidade ou tentativa de acobertar crimes sexuais nas fileiras da Igreja impressionam os vaticanistas.

Por enquanto, eles são unânimes na defesa do Pontífice.

— Ninguém pode acusar Bento XVI de justificar o injustificável — arrisca Tosatti.

— Nem os piores inimigos, se forem sinceros — emenda o jornalista.

Magister lembra que é absurdo considerar referências do Papa ao perdão para pecadores como prova de tolerância com seus crimes.

— O Papa abre a porta do perdão de Deus até para o criminoso mais abominável, se estiver sinceramente arrependido — afirma Magister.

TESTEMUNHO - Hoje, memória de Dom Oscar Romero

Dom Oscar Arnulfo Romero

1917 - Nasce Oscar Arnulfo Romero em uma família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador).

1931- Aos 14 anos o menino Oscar ingressa no seminário, mas seis anos depois se afasta para ajudar a família que estava com dificuldades. Passa a trabalhar nas minas de ouro com os irmãos. Retoma os estudos e é enviado a Roma para estudar teologia.

1942 - Ordenado sacerdote, volta a El Salvador e assume uma paróquia do interior. Logo é transferido para a catedral de San Miguel, onde fica por 20 anos. Sacerdote dedicado à oração e à atividade pastoral, pobre, dedica-se a obras de caridade, mas sem engajamento reconhecidamente social.

1966 - Dom Oscar assume como secretário da Conferência Episcopal de El Salvador.

1970 - É nomeado bispo auxiliar de San Salvador. O bispo dom Luis Chávez y Gonzalez busca atualizar a linha pastoral de acordo com o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín. Romero não se identifica integralmente com a linha pastoral proposta, revelando-se conservador.

1974 - É nomeado bispo da diocese de Santiago de Maria, em meio a um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.

1975 - A Guarda Nacional executa cinco camponeses e dom Romero celebra missa em intenção das vítimas. Ele não faz denuncia explícita do crime, mas escreve uma carta severa ao presidente Molina.

1977 - A nomeação de dom Oscar Romero como bispo de El Salvador desagrada os setores renovadores. Mas em 12 de março é assassinado o jesuíta padre Rutílio Grande, engajado na luta do povo e ligado a dom Oscar. Este é o momento em que ele reavalia sua posição e se coloca corajosamente junto aos oprimidos, denunciando a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e econômicos, apoiada pelos Estados Unidos. O bispo denuncia também a violência da guerrilha revolucionária. Suas homilias são transmitidas pela rádio católica dando esperança à população e provocando a fúria dos governantes.

1978 - É homenageado com o título de doutor honoris causa das Universidades de Georgetown (EUA) e de Louvain (Bélgica).

1979 - Em outubro, um golpe de Estado depõe o ditador Humberto Romero. Uma junta de civis e militares assume o poder, e nesse cenário, exército e organizações paramilitares assassinam centenas de civis (entre eles sacerdotes). A guerrilha retalia com execuções sumárias.

1980 - Em 17 de fevereiro, dom Romero escreve ao presidente dos EUA, Jimmy Carter. O bispo faz um apelo para que ele não envie ajuda militar e econômica ao governo salvadorenho, para não financiar a repressão ao povo.

1980 - Na homilia de 23 de março, o bispo se dirige explicitamente aos homens do Exército, da Guarda Nacional e da Polícia e afirma: "Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (.). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cessem a repressão!" Estas foram as últimas palavras do bispo ao país.

1980 - Em 24 de março, dom Oscar Romero é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa na capela do Hospital da Divina Providência.

1994 - Abre-se o processo de canonização de dom Romero em San Salvador.

1997 - O processo passa para a Congregação das Causas dos Santos em Roma.

2010 - Em 24 de fevereiro, 30 anos da morte de dom Oscar Romero, Organizações sociais e religiosas apresentaram ao Parlamento salvadorenho petição para instituir 24 de março como "Dia Nacional de dom Oscar Arnulfo Romero".


São Romero da América, pastor e mártir
(Dom Pedro Casaldáliga)

Tu ofertavas o Pão, o Corpo Vivo
- o triturado corpo de teu Povo;
Seu derramado Sangue vitorioso -
o sangue campesino de teu Povo em massacre,
que há de tingir em vinhos de alegria a Aurora conjurada!

E soubeste beber
o duplo cálice
do Altar e do Povo,
com uma só mão consagrada ao Serviço.