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Artigo: MÊS DE JUNHO E PÁTRIA DOS MIGRANTES


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS







De um ponto de vista religioso e cristão, junho é um mês significativo para os migrantes. Além de celebrarmos os chamados santos populares – Santo Antonio, São João e São Pedro, nos dias 13, 24 e 29 respectivamente – celebramos também o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. No imaginário popular brasileiro todas essas festas, e mais a dos santos padroeiros, ocupam lugar de destaque e de profunda devoção. Mês do dia dos namorados e do amor em termos mais amplos. Em determinadas regiões do Brasil, equivale em importância religiosa, ao Natal ou à passagem de ano.

Esse apelo ao transcendente ter a ver com a extrema precariedade de imensos setores da população brasileira e latino-americana. Diante de tantas adversidades e fracassos diários, o povo pobre e carente busca no santo ou na misericórdia divina um conforto para suas dores e um horizonte para suas esperanças. “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso; tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). O mesmo vale para a devoção a Maria. Por mais adultos e crescidos que sejamos, por vezes as quedas e tropeços do dia-a-dia nos fazem desejar o colo da mãe, aquela que, cuidadosa e maternalmente, “guardava todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19).

Mas a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, em especial, revela-se como uma espécie de porto seguro para aqueles que, pelas estradas do mundo, encontram-se periódica ou permanentemente a caminho. De fato, contam-se hoje aos milhares e milhões as pessoas sem pátria. Dessas, muitas jamais deixaram a terra em que nasceram e sepultaram seus entes queridos, mas as condições em que vivem negam-lhes uma cidadania justa e digna. Outras ultrapassam as fronteiras do município, do estado, do país e até do continente para encontrar um solo onde possam sentir-se cidadãos respeitados em seus direitos básicos.

Não poucas se vêem obrigadas a deixar a família e a nação em que os viu nascer, a terra natal, por motivos de guerra, conflitos localizados, confronto pelo controle do narcotráfico, tráfico de seres humanos, perseguição política, catástrofes “naturais” e até guerras santas. Órfãs de família e de pátria, seguem errantes grandes multidões de refugiados, deportados, prófugos, “desplazados”, imigrantes e emigrantes empobrecidos. Outros o fazem por motivos de trabalho ou de cultura, tais como caminhoneiros, marítimos, aeroviários, nômades, ciganos...

Neste cenário da mobilidade humana, as palavras de Jesus – “Vinde a mim vós que estais cansados...” – adquirem um sentido todo particular. No seu vaivém contínuo, não é raro deparar-se com corações de pedra, com portas fechadas e com fronteiras instransponíveis. Pior ainda é o preconceito, e a discriminação, o racismo e a xenofobia. O Coração de Jesus torna-se então uma pátria segura para os pobres, aflitos, doentes, indefesos, marginalizados, solitários, perdidos... enfim, para todos os que em sua trajetória humana experimentam situações-limite de sofrimento. Para os que chegam à fronteira da sobrevivência, e são obrigados a deslocar-se geograficamente, como ocorreu com a própria família de Nazaré, em sua fuga e retorno do Egito.

Podemos alegar que tudo isso não passa de fuga, alienação, transposição para o além do Reino de Deus. Este deve começar na história terrena, aqui e agora. Evidentemente há um pouco disso. Mas há também, e sobretudo, uma crítica velada a um individualismo que fecha a cara a tudo que é estranho e diferente, a uma sociedade sem coração e sem alma, a uma pátria que nega a seu povo condições mínimas de vida, a um modelo socioeconômico e político que privilegia as classes dominantes, deixando do lado de fora a imensa maioria da população.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria sofre dessa ambiguidade. De um lado, pode ser uma forma de transpor para a vida futura o que esta nega à grande massa dos seres humanos. Como se o sofrimento representasse uma espécie de passaporte para a salvação eterna. Não há como negar que, durante séculos, a própria Igreja difundiu, alimentou e consolidou esta esperança entre as populações pobres e miseráveis.

De outro lado, porém, a mesma devoção apresenta um aspecto duplamente profético: ao mesmo tempo que denuncia as assimetrias, injustiças e desigualdades sociais que levam tantas pessoas a se deslocarem de forma muitas vezes forçada, anuncia a necessidade urgente de mudanças nas relações humanas, sejam elas pessoais ou familiares, comunitárias, sociais ou econômicas, políticas ou culturais. O simples fato de migrar torna-se um ato profético, na medida em que escancara a precariedade de certas regiões dos países e do planeta, tentando vida melhor nas zonas centrais e desenvolvidas. A fuga se converte em busca, as condições desumanas em esperança, a falta de perspectivas em novos horizontes.

Apontando o Coração de Jesus e de Maria como pátria dos errantes e desterrados, milhões de caminhantes lançam um brado ao céu e outro à terra. À terra, porque se vêem dela escorraçados por leis e autoridades que sempre os fazem ir mais adiante, expulsos do convívio humano, numa sociedade concentradora e excludente. Ao céu, porque, após tantas peregrinações em vão, esperam encontrar em Deus a pátria definitiva, um coração paterno e materno que enfim lhes dê casa e abrigo, refúgio, descanso e paz.

Pensando no futuro!

"Alegrem-se comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!" (Lc 15,6)

Em nossa enquete sobre a continuação deste blog, 91% votaram pela sua continuidade. Destes, 30% votaram pela mudança do nome. A equipe responsável vai pensar no novo nome e em novo visual, conservando os conteúdos postados durante este ano. Agradecemos a todos que participaram da enquete e nos acompanharam durante este ano!

Celebração de encerramento do Ano Sacerdotal


Hoje, dia do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja viveu na Praça São Pedro a maior Concelebração Eucarística da história de Roma. Uma imensa multidão branca cobriu dois terços da praça, oferecendo um visual inédito: 15 mil sacerdotes concelebraram com Bento XVI a conclusão do Ano Sacerdotal.

O Papa entrou na praça de jeep aberto, e fez o giro pelos quatro setores dianteiros, sorrindo e abençoando os presentes. A cerimônia teve início com o rito de aspersão com a água benta, como ato penitencial, fazendo referência ao sangue e à água emanados do Coração do Senhor como salvação para o mundo, evocando assim o tema da purificação.

Em sua homilia, Bento XVI citou o Santo Cura d’Ars, como modelo do ministério sacerdotal em nosso mundo; e abordou a questão dos abusos sexuais na Igreja, pedindo um explícito perdão a Deus e às vítimas dos abusos cometidos por sacerdotes e bispos.

“O sacerdote não é simplesmente o detentor de um ofício, como os ofícios dos quais toda sociedade precisa. Ele faz algo que nenhum ser humano pode fazer por si: pronuncia, em nome de Cristo, a palavra de absolvição dos nossos pecados e muda assim, a partir de Deus, a situação da nossa vida. O sacerdócio não é simplesmente um ofício, mas sacramento” – recordou.

Embora conhecendo as fraquezas humanas, Deus confia nos sacerdotes, e Bento XVI quis ressaltá-lo aos jovens, auspiciando novas vocações para a Igreja:

“Esta vocação, esta comunhão de serviço para Deus e com Deus, existe – aliás, Deus está à espera do nosso ‘sim’. Junto à Igreja gostaríamos novamente de pedir a Deus esta vocação. Pedimos operários para a messe de Deus”.

Para o Papa, este pedido a Deus é ao mesmo tempo, um bater de Deus no coração de jovens que se considerem capazes daquilo de que Deus os considera capazes: “Era de se esperar que este novo brilhar do sacerdócio não agradasse ao ‘inimigo’; ele preferiria vê-lo desaparecer, para que afinal, Deus fosse afastado do mundo.

“E assim se deu que, justamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados de sacerdotes – sobretudo o abuso contra as crianças, no qual o sacerdócio, como sinal da ternura de Deus em favor do homem se reverte em seu contrário”.

“Também nós pedimos insistentemente perdão a Deus e às pessoas envolvidas, ao tempo em que prometemos fazer todo o possível a fim de que tal abuso jamais possa voltar a se verificar; faremos tudo que estiver ao nosso alcance para avaliar a autenticidade da vocação; e acompanharemos ainda mais os sacerdotes em seu caminho, a fim de que o Senhor os proteja e os defenda em situações penosas e nos perigos da vida”.

Neste sentido, Bento XVI ressaltou que estes acontecimentos, emersos durante o Ano Sacerdotal, devem ser vistos como uma “tarefa de purificação, uma tarefa que nos acompanha rumo ao futuro e que, mais ainda, nos faz reconhecer e amar o grande dom de Deus”.

O Papa afirmou ainda que os sacerdotes devem estar próximos de seu rebanho, pois em relação ao âmbito a ele confiado, assim como o fez o Senhor, ele deveria poder dizer: “Eu conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem”.

Mas “conhecer” não somente um saber exterior, como se conhece o número telefônico de uma pessoa, “conhecer” significa estar interiormente próximo ao outro. Querer-lhe bem. Nós devemos tentar conhecer os homens; devemos buscar trilhar com eles, o caminho da amizade com Deus.

A este ponto de sua homilia, o Papa quis assegurar sacerdotes e fiéis sobre a presença de Cristo, e baseando-se no Salmo responsorial, disse:

“No vale tenebroso, não temo nenhum mal. Podemos pensar também nos vales tenebrosos da tentação, do desencorajamento, da provação, que toda pessoa humana deve atravessar. Também nesses vales tenebrosos da vida Ele está lá”.

Junto ao bastão – explicou ainda Bento XVI– está o cajado, que dá apoio e ajuda a atravessar passagens difíceis. Ambas as coisas têm lugar também no ministério da Igreja, no ministério do sacerdote. O Pontífice adaptou esta metáfora para a realidade de hoje, afirmando que também a Igreja deve usar o bastão do pastor, o bastão com o qual protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que são, na realidade, desorientações.

“Justamente o uso do bastão pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. Bem como não se trata de amor se se deixa proliferar a heresia, o desvio e o esfacelamento da fé, como se nós autonomamente inventássemos a fé”.

Depois da homilia, os sacerdotes renovaram as promessas sacerdotais, como na Quinta-Feira Santa, na Missa crismal.

Antes da bênção final, o Santo Padre renovou o ato de consagração dos sacerdotes a Nossa Senhora, segundo a fórmula utilizada por ocasião da recente peregrinação a Fátima, e proferiu algumas palavras em português:

Queridos sacerdotes dos países de língua oficial portuguesa, dou graças a Deus pelo que sois e pelo que fazeis, recordando a todos que nada jamais substituirá o ministério dos sacerdotes na vida da Igreja. A exemplo e sob o patrocínio do Santo Cura d’Ars, perseverai na amizade de Deus e deixai que as vossas mãos e os vossos lábios continuem a ser as mãos e os lábios de Cristo, único Redentor da humanidade!”.


Artigo: O olhar


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS






Todo o olhar desvenda e desnuda. Ao pousar sobre outro, tira as máscaras, vê além das aparências. Ocorre isso porque os olhos costumam ser a janela da alma. Revelam em geral aquilo que gostaríamos de ocultar aos demais. Em numerosas ocasiões desmentem os gestos e a verborréia das palavras. Até mesmo os animais, com seu olhar aparentemente neutro e inexpressivo, muitas vezes parecem trazer à luz sentimentos genuinamente humanos, tais como tristeza e alegria, saudade e euforia, raiva e humilhação...

Entretanto, há olhares que desnudam para expor em praça pública a nudez de alguém que se acha indefeso. São os olhos da indiscrição, da curiosidade ou do voyeurismo irresponsável. De fato, é comum encontrar pessoas dispostas a invadir a privacidade alheia, submetendo-a ao escárnio e ao ridículo. Desvendam sem escrúpulo aquilo que o ser humano possui de mais íntimo e sagrado. Ao fazer circular determinadas imagens ou sentimentos, provocam a timidez, a vergonha ou a revolta. Como a fumaça, os segredos jogados ao vento não têm retorno.

De outro lado, há olhares que somente desnudam para, em seguida, revestir de profundo respeito a nudez do outro. Neste caso, só o amor é capaz de defrontar-se com a nudez sem reduzi-la a um escândalo ou ao vexame. Da mesma forma que põe a nu os segredos mais ocultos, o amor os cobre de carinho e ternura, evitando a exposição à curiosidade estranha. É assim que um corpo só pode permanecer nu diante do olhar amado, pois este o reveste de uma roupa invisível, mas nobre e sublime. Abrir a privacidade de uma pessoa é o mesmo que abrir o sacrário. Nos dois casos, estamos diante do mistério que não pode banalizado.

O primeiro tipo de olhar tende a rasgar e ferir, ao passo que o segundo afaga e protege. Ambos retiram da pessoa todas as defesas, deixando-a despida e desamparada. Mas enquanto um exibe a nudez como uma espécie de troféu de sua vitória, o outro a envolve numa nova veste que a deixa segura e confiante. Ambos podem ser comparados ao bisturi do cirurgião. A diferença é que o olhar possessivo e curioso corta o tumor para escancarar sua podridão, ao contrário do olhar amoroso, que corta para curar. Um aponta o dedo em riste sobre a ferida exposta, atraindo sobre ela a atenção de todos; o outro, usa o bálsamo da compreensão e da misericórdia para saná-la.

Por aí se explica porque muitos olhares nos fazem reagir com um desvio imediato, automático, quase involuntário. Sentimos a invasão e procuramos defender a intimidade violada. No trem, no ônibus, na multidão, nas ruas... é comum os olhares se cruzarem e se desviarem logo, ao ser surpreendidos. Também com o olhar é possível violentar um segredo alheio. Daí a reação inconsciente, instantânea. Diante de um olhar que ama, porém, permanecemos firmes e sem medo, pois a nudez está protegida da mera curiosidade. O amor nos deixa transparentes, nus e frágeis como a flor ao vento, mas, ao mesmo tempo, nos recobre com uma capa de profunda compaixão.

Ilustra bem isso o episódio da mulher adúltera no Evangelho de João (Jo 8, 1-11). Três olhares estão em cena: o da própria mulher surpreendida em adultério, o dos escribas e fariseus que carregam e acusam a mulher e o de Jesus. Trata-se, no fundo, de dois olhares apenas. Certamente a mulher já terá introjetado em si mesma a opinião daquela cultura legalista e marcadamente machista. Ela mesma provavelmente se vê como impura e pecadora.

Hoje diríamos que os escribas e fariseus representam o olhar da opinião pública. Esta desnuda a mulher, expõe seu pecado à luz do dia, para julgá-la, acusá-la e apedrejá-la. A exemplo de muitos setores da mídia e das multidões enfurecidas, a opinião pública guia-se unicamente pela letra da lei. Permanece cega e surda às circunstâncias históricas e à condição da acusada. É preciso que se cumpra o que está escrito.

O olhar de Jesus repousa com doçura sobre o coração e a alma da mulher. Não julga, apenas observa e ilumina, em silêncio. Joga uma luz nova sobre as entranhas mais íntimas do ser humano. Sabe que, muito mais que pecadora, aquela mulher é vítima do contexto social. Não ignora também a possibilidade do arrependimento e da conversão. Passa por cima de todo discriminação e preconceito. Concede uma nova chance a um coração que só quer amar e ser amado. A misericórdia prevalece sobre a lei. Mais ainda, Jesus inverte a situação do “tribunal público e popular”. Aquela que vinha sendo julgada, condenada à marginalidade, é convidada ao centro. A ré torna-se referência para o julgamento dos pretensos juízes. “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.

Qual não terá sido a surpresa dos escribas e fariseus, bem como da própria mulher! “Eu também não te condeno; vai, e de agora em diante não tornes a pecar”. O pecado não é justificado, mas o pecador tem direito a uma nova oportunidade.

ARTIGO: O jardineiro - Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS*


Sempre tive uma vontade oculta de ser jardineiro: mexer com a terra, afundar os pés e as mãos em suas entranhas, sentir-lhe o calor e o frio, inebriar-me de seus cheiros, seguir as estações do ano, contemplar o sol e a chuva, lançar a semente e esperar a lenta maturação da vida... Mas especialmente cultivar flores. Quem sabe, um dia, ser uma entre elas!

Mas a profissão de jardineiro tem suas armadilhas. Sem dúvida, é gratificante ver as plantas se erguerem do solo, produzir botões e estes se abrirem em pétalas de diferentes cores e tonalidades. Em pouco tempo, porém, elas murcham, secam, desaparecem. Com a mesma voluptuosidade com que buscam o céu azul, a luz e o ar livre, também se curvam encarquilhadas sobre o chão, morrem e caem no esquecimento. Menos mal que deixam na terra suas sementes e que estas, em potencial, contêm novas flores. Cedo ou tarde, haverão de romper a superfície da terra e se reerguer para a vida.

Outra armadilha é que, após preparar o solo, lançar a semente, e zelar diariamente pela sua gestação, o jardineiro pode surpreender-se com alguma flor que nasce fora do jardim cultivado. Tanto carinho e cuidado, para ver o broto ressurgir em meio ao mato e aos espinhos, ou entre as pedras do caminho. Flores são seres rebeldes, crescem não raro onde menos se espera, longe de nosso alcance. Às vezes são mais vivas e vigorosas onde a terra é mais agreste.

Ninguém como o jardineiro se dá conta de como a flor é bela e frágil. Ou melhor, bela porque frágil. Oferece seu brilho intenso e colorido, mas sempre provisório. Tão forte quanto fugaz, talvez porque possui uma estranha consciência orgânica de que sua passagem pela vida é breve. Logo terá de desaparecer! O mesmo ocorre com o perfume. A flor exala-o com tanta intensidade que chega a embriagar o viajante que passa. Mas fenece junto com ela. Também neste caso é verdade que, apesar de resistir mal à tormenta, a beleza e o perfume da flor jamais se apagam da memória de quem os experimentou.

Mas o cultivador de flores conhece outros segredos. Sabe que cada uma delas é única, incomparável e insubstituível. Inútil perguntar qual a mais bonita, a mais sedutora a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim.

O senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Se tentar fazê-lo, mata-as, perdendo-as para sempre. De resto, essa relação com as flores reproduz-se na relação com outros seres vivos, plantas ou animais, como também na relação entre as pessoas. Cultivar implica não em dominar e possuir, mas deixá-las livres. Livres para que outros possam desfrutar de seu conhecimento e riqueza. A posse é a negação do amor.

O jardineiro é diferente do colecionador. De fato, O cultivador de carros de luxo, de pérolas preciosas, de contas bancárias, de objetos exóticos, como também o cultivador de mágoas ou ressentimentos, de ódio ou vingança, torna-se escravo daquilo que cultiva. Constrói sua própria prisão. “Onde está teu tesouro, aí está teu coração”, diz o sábio Jesus. Ao contrário do colecionador, o jardineiro aprende que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. Mas ele as colhe com o olhar, com o deslumbramento da alma. Prendê-las é condená-las à morte.

E assim, livre e bela, a flor pode entregar-se gratuitamente a todos que visitam o jardim. Seu brilho fala de Deus quando guarda as gotas do orvalho noturno ou abre suas pétalas à luz matutina, quando dança ao ritmo da brisa suave ou oferece seu néctar ao beija-flor, o qual, a seu turno, transportará o pólen para fecundar outras flores, alimentando assim o ciclo interminável da vida.

Unida ao sorriso da criança, ao murmúrio ou ao rugido da água, ao canto do pássaro, à luz longínqua da estrela, ao sol que chega ou que parte, ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos – a flor integra a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Cultivar flores é cultivar relações novas, livres, autênticas, transparentes. Relação consigo mesmo, com o outro e com os outros, com a história de um povo, com o meio ambiente, com o Transcendente. Essas dimensões, embora distintas, não constituem instâncias cerradas uma à outra. Ao contrário, todas se entrelaçam inextricavelmente. Todas se interpelam e se integram, se enriquecem e se complementam. O cultivo de uma repercute no crescimento das demais, o descuido de uma significa o esvaziamento de todo o ser.

Como ponto final, vale sublinhar, uma vez mais, a lição da flor: porque é bela, fugaz e frágil, ela brilha e se apaga, revela-se e se esconde, aparece e desaparece, como o Amado que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente.

* Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS, padre Alfredo é sacerdote da Congregação dos padres scalabrinianos, atual provincial da Congregação, e reside em São Paulo

Ato de confiança e consagração dos sacerdotes a Maria - Bento XVI, em Fátima

“Que a Igreja possa ser renovada por santos sacerdotes”
Ato de confiança e consagração dos sacerdotes ao Imaculado Coração de Maria,feito pelo Papa na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, dia 12/5/10 
Mãe Imaculada,
neste lugar de graça,
convocados pelo amor do vosso Filho Jesus,
Sumo e Eterno Sacerdote, nós,
filhos no Filho e seus sacerdotes,
consagramo-nos ao vosso Coração materno,
para cumprirmos fielmente a Vontade do Pai.

Estamos cientes de que, sem Jesus,
nada de bom podemos fazer (cf. Jo 15, 5)
e de que, só por Ele, com Ele e n'Ele,
seremos para o mundo
instrumentos de salvação.

Esposa do Espírito Santo,
alcançai-nos o dom inestimável
da transformação em Cristo.
Com a mesma força do Espírito que,
estendendo sobre Vós a sua sombra,
Vos tornou Mãe do Salvador,
ajudai-nos para que Cristo, vosso Filho,
nasça em nós também.

E assim possa a Igreja
ser renovada por santos sacerdotes,
transfigurados pela graça d'Aquele
que faz novas todas as coisas.

Mãe de Misericórdia,
foi o vosso Filho Jesus que nos chamou
para nos tornarmos como Ele:
luz do mundo e sal da terra
(cf. Mt 5, 13-14).

Ajudai-nos,
com a vossa poderosa intercessão,
a não esmorecer nesta sublime vocação,
nem ceder aos nossos egoísmos,
às lisonjas do mundo
e às sugestões do Maligno.

Preservai-nos com a vossa pureza,
resguardai-nos com a vossa humildade
e envolvei-nos com o vosso amor materno,
que se reflecte em tantas almas
que Vos são consagradas
e se tornaram para nós
verdadeiras mães espirituais.

Mãe da Igreja,
nós, sacerdotes,
queremos ser pastores
que não se apascentam a si mesmos,
mas se oferecem a Deus pelos irmãos,
nisto mesmo encontrando a sua felicidade.
Queremos,
não só por palavras mas com a própria vida,
repetir humildemente, dia após dia,
o nosso « eis-me aqui».

Guiados por Vós,
queremos ser Apóstolos
da Misericórdia Divina,
felizes por celebrar cada dia
o Santo Sacrifício do Altar
e oferecer a quantos no-lo peçam
o sacramento da Reconciliação.

Advogada e Medianeira da graça,
Vós que estais totalmente imersa
na única mediação universal de Cristo,
solicitai a Deus, para nós,
um coração completamente renovado,
que ame a Deus com todas as suas forças
e sirva a humanidade como o fizestes Vós.

Repeti ao Senhor aquela
vossa palavra eficaz:
« não têm vinho » (Jo 2, 3),
para que o Pai e o Filho derramem sobre nós,
como que numa nova efusão,
o Espírito Santo.

Cheio de enlevo e gratidão
pela vossa contínua presença no meio de nós,
em nome de todos os sacerdotes quero,
também eu, exclamar:
« Donde me é dado que venha ter comigo
a Mãe do meu Senhor?» (Lc 1, 43).

Mãe nossa desde sempre,
não Vos canseis de nos visitar,
consolar, amparar.
Vinde em nosso socorro
e livrai-nos de todo o perigo
que grava sobre nós.
Com este ato de entrega e consagração,
queremos acolher-Vos de modo
mais profundo e radical,
para sempre e totalmente,
na nossa vida humana e sacerdotal.

Que a vossa presença faça reflorescer o deserto
das nossas solidões e brilhar o sol
sobre as nossas trevas,
faça voltar a calma depois da tempestade,
para que todo o homem veja a salvação
do Senhor,
que tem o nome e o rosto de Jesus,
reflectida nos nossos corações,
para sempre unidos ao vosso!

Assim seja!

ARTIGO: Qual deve ser a nossa resposta aos terríveis escândalos na Igreja?

Pe. Roger J. Landry*

Muitas pessoas vieram me falar deste assunto. Muitas outras também gostariam, mas evitaram, creio que por respeito e para não chamar a atenção para um fato desagradável. Mas para mim era óbvio que tinham isso presente. Por isso, hoje, quero enfrentar este assunto de frente. Vocês têm direito. Não podemos fingir como se não houvesse acontecido. E eu quero debater qual deve ser a nossa resposta como fiéis católicos a este terrível escândalo.

Primeiramente, é preciso entender o acontecimento à luz da nossa fé no Senhor. Antes de escolher seus primeiros discípulos, Jesus subiu a montanha para orar durante toda a noite. Nesse tempo tinha muitos seguidores. Falou com seu Pai na oração sobre quais escolheria para que fossem seus doze apóstolos, os doze que Ele formaria intimamente, os doze que enviaria a pregar a Boa Nova em Seu nome. Deu-lhes poder de expulsar os demônios. Deu-lhes poder para curar os doentes. Eles viram como Jesus operou muitos milagres. Eles mesmos fizeram, em Seu nome, numerosos milagres.

Mas, apesar de tudo, um deles foi um traidor. O traidor tinha seguido o Senhor, tivera os pés lavados pelo Senhor, O viu caminhar pelas águas, ressuscitar pessoas e perdoar os pecadores. O Evangelho diz que ele permitiu que satanás entrasse nele e logo vendeu o Senhor por 30 moedas, e entregou-o no Horto de Getsêmani, simulando um ato de amor, um beijo. “Judas!”, disse o Senhor no horto do Getsêmani, “com um beijo entregas o Filho do Homem”. Jesus não o escolheu para que o traísse. Ele o escolheu para que fosse como os demais. Mas Judas foi sempre livre e usou sua liberdade para permitir que satanás entrasse nele e, por sua traição, terminou fazendo com que Jesus fosse crucificado e morto. Portanto, entre os primeiros doze que o próprio Jesus escolheu, um deles foi um terrível traidor. ÀS VEZES, OS ESCOLHIDOS DE DEUS TRAEM. Este é um fato que devemos assumir. É um fato que a Igreja primitiva assumiu. Se o escândalo de Judas tivesse sido a única coisa com que os membros da Igreja primitiva tivessem se preocupado, a Igreja teria acabado antes de começar. Em vez disso, a Igreja reconheceu que não se deve julgar algo (religioso) a partir daqueles que não o praticam, mas olhando para os que praticam.

Em vez de ficarem paralisados em torno daquele que traiu Jesus, concentraram-se nos outros onze. Graças ao trabalho, pregação, milagres e amor por Cristo desses homens, aqui estamos hoje. É graças aos onze – todos os quais, exceto São João, foram martirizados por Cristo e pelo Evangelho, pelo qual estiveram dispostos a dar suas vidas para proclamá-lo – que nós chegamos a escutar a palavra salvífica de Deus e recebemos os sacramentos da vida eterna.

Somos hoje confrontados pela mesma realidade. Podemos concentrarmo-nos naqueles que traíram o Senhor, naqueles que abusaram, em vez de amar a quem estavam chamados a servir. Ou podemos como a Igreja nascente, concentrarmo-nos nos demais, naqueles que permaneceram fiéis, nesses sacerdotes que continuam oferecendo suas vidas para servir a Cristo e para servir a todos por amor. Os meios de comunicação quase nunca prestam atenção aos “onze” bons, aqueles a quem Jesus escolheu e que permaneceram fiéis, que viveram uma vida de santidade silenciosa. Mas nós, a Igreja, devemos ver o terrível escândalo que estamos testemunhando a partir de uma perspectiva autêntica e completa.

O escândalo, infelizmente, não é algo novo para a Igreja. Houve muitas épocas em sua história em que esteve pior do que agora. A história da Igreja é como a definição matemática do cosseno, ou seja, uma curva oscilatória com movimento pendular, com altos e baixos ao longo dos séculos. Em cada uma dessas épocas em que a Igreja chegou ao ponto mais baixo, Deus suscitou grandes santos que levaram a Igreja de volta a sua verdadeira missão. Como se naqueles momentos de escuridão, a Luz de Cristo brilhasse mais intensamente. Eu gostaria de destacar um par de santos que Deus suscitou nesses tempos tão difíceis, porque sua sabedoria pode realmente nos guiar durante este tempo difícil.

São Francisco de Sales foi um santo que Deus fez surgir justamente depois da reforma protestante. A reforma protestante não brotou fundamentalmente por aspectos teológicos ou por problemas de fé – ainda que as diferenças teológicas apareceram depois – mas, por questões morais.

Houve um sacerdote agostiniano, Martinho Lutero, que foi a Roma durante o papado mais notório da história, o do Papa Alexandre VI. Este Papa jamais ensinou nada que fosse contra a fé – o Espírito Santo não permitiu – mas, foi simplesmente, um homem mau. Teve nove filhos de seis diferentes concubinas. Promoveu ações contra aqueles que considerava seus inimigos. Martinho Lutero visitou Roma durante seu papado e se perguntava como Deus podia permitir que um homem tão mau fosse a cabeça visível da Sua Igreja. Regressou a Alemanha e observou todo tipo de problemas morais. Os padres tinham, publicamente, casos com mulheres. Alguns tratavam de obter dinheiro vendendo bens espirituais. Grassava uma imoralidade terrível entre os leigos. Ele se escandalizou com esses abusos desenfreados, como teria ocorrido com qualquer um que ame a Deus, reagiu precipitadamente e com fúria, e fundou a sua própria igreja. Naqueles mesmos tempos, Deus suscitou muitos santos que combateram essa situação equivocada e trouxeram de volta as pessoas para a Igreja fundada por Cristo. São Francisco de Sales foi um deles. Colocando em risco a própria vida, entrou na Suíça, onde os calvinistas dominavam e eram muito populares, pregando o Evangelho com verdade e amor. Foi espancado várias vezes nas estradas e abandonado como morto. Um dia perguntaram-lhe qual era a sua posição em relação ao escândalo que causavam tantos dos seus irmãos sacerdotes. O que disse é tão importante para nós como o foi para os que o escutaram. Ele não ficou enrolando. “Aqueles que cometem esse tipo de escândalos são culpáveis do equivalente espiritual a um assassinato, destruindo com seu mau exemplo a fé das outras pessoas em Deus”. Mas, ao mesmo tempo advertiu aos seus ouvintes: “Mas eu estou aqui hoje entre vocês para evitar-lhes um mal ainda pior. Enquanto que aqueles que causam o escândalo são culpados de assassinato espiritual, os que acolhem o escândalo – aqueles que permitem que os escândalos destruam sua fé – são culpados de suicídio espiritual. São culpáveis de cortar pela raiz sua vida com Cristo, abandonando a fonte da vida nos Sacramentos, especialmente a Eucaristia.” São Francisco de Sales andou entre os suíços e os habitantes da Savóia tratando de prevenir que cometessem um suicídio espiritual por causa dos escândalos. E eu estou aqui hoje para pregar o mesmo para vocês.

Qual deve ser a nossa reação? Outro grande santo que viveu antes, em tempos particularmente difíceis, também pode nos ajudar. O grande São Francisco de Assis viveu ao redor do ano 1200, que foi uma época de imoralidade terrível na Itália central. Os padres davam exemplos espantosos. A imoralidade dos leigos era ainda pior. O próprio São Francisco, sendo jovem, tinha escandalizado outras pessoas com sua maneira despreocupada de viver. Converteu-se, fundou a ordem franciscana e ajudou a Deus a reconstruir a Sua Igreja e chegou a ser um dos maiores santos de todos os tempos.

Certa vez, um dos irmãos franciscanos lhe fez uma pergunta. Esse frei era muito suscetível aos escândalos. “Irmão Francisco, que farias se soubesses que o sacerdote que está celebrando a Missa tem três concubinas ao seu lado?” Francisco, sem duvidar um instante, respondeu bem devagar: “Quando chegar a hora da Santa Comunhão irei receber o Sagrado Corpo do meu Senhor das mãos ungidas do sacerdote.”

Onde queria chegar Francisco? Queria deixar clara uma verdade formidável da fé e um dom extraordinário do Senhor. Não importa quão pecador seja um padre, sempre e quando tem a intenção de fazer o que faz a Igreja – na Missa, por exemplo, converter o pão e vinho na carne e sangue de Cristo, ou na confissão, não importa quão pecador seja, perdoar os pecados do penitente – o próprio Cristo atua nos sacramentos através desse ministro.

Seja o Papa João Paulo II que celebre a Missa, ou um sacerdote condenado a morte por um crime, em ambos os casos é o próprio Cristo quem atua e nos dá Seu Corpo e Seu Sangue. Dessa forma, o que Francisco estava dizendo, ao responder a pergunta do seu irmão religioso, que receberia o Sagrado Corpo do Seu Senhor das mãos ungidas do sacerdote, é que não ia permitir que a maldade ou imoralidade do padre o levasse a cometer suicídio espiritual.

Cristo pode continuar atuando, e de fato atua, inclusive através do mais pecador dos sacerdotes. E graças a Deus que assim o faz! Se sempre tivéssemos que depender da santidade pessoal do sacerdote, teríamos um grave problema. Os sacerdotes são escolhidos por Deus entre os homens e são tentados como qualquer ser humano e caem em pecado como qualquer ser humano. Mas Deus já sabia disso desde o princípio. Onze dos primeiros doze apóstolos se dispersaram quando Cristo foi preso, mas regressaram; um dos doze traiu o Senhor e infelizmente nunca regressou. Deus fez os sacramentos “à prova de sacerdote”, ou seja, independente da sua santidade pessoal. Não importa quão santos ou maus sejam, sempre que tenham a intenção de fazer o que a Igreja faz, o próprio Cristo atua, tal como atuou através de Judas quando Judas expulsou os demônios e curou os doentes.

Por isso, pergunto-vos novamente: Qual deve ser a resposta da Igreja a esses atos? Falaram muito a respeito na mídia. A Igreja precisa trabalhar melhor, assegurando que ninguém com inclinação para a pedofilia seja ordenado? Com certeza. Mas isto não seria suficiente. A Igreja deve atuar melhor ao tratar desses casos quando sejam notificados? A Igreja mudou a sua maneira de abordar esses casos e hoje a situação é muito melhor do que era nos anos oitenta, mas sempre pode ser aperfeiçoada. Mas ainda isso não seria suficiente. Temos que fazer mais para apoiar as vítimas desses abusos? Sim, temos que fazê-lo, por justiça e por amor! Mas tampouco isso é o adequado… A única resposta adequada a este terrível escândalo, a única resposta autenticamente católica a este escândalo – como São Francisco de Assis reconheceu em 1200, como São Francisco de Sales reconheceu em 1600 e incontáveis outros santos reconheceram em cada século – é a SANTIDADE! Toda crise que enfrenta a Igreja, toda crise que o mundo enfrenta, é uma crise de santidade. A santidade é crucial, porque é o rosto autêntico da Igreja.

Sempre há pessoas – um sacerdote encontra-se com elas regularmente e vocês devem conhecer várias delas também – que usam desculpas para justificar porque não praticam sua fé, porque lentamente estão cometendo suicídio espiritual. Pode ser porque uma freira se portou mal com eles quando tinham 9 anos. Porque não entendem os ensinamentos da Igreja sobre algum tema particular. Indubitavelmente haverá muitas pessoas atualmente – e vocês se encontram com elas – que dirão: “Para que praticar a fé, para que ir a Igreja, se a Igreja não pode ser verdadeira, quando os assim chamados escolhidos, são capazes de fazer esse tipo de coisa que estamos lendo?” Este escândalo é como um cabide enorme onde alguns procuram pendurar sua justificativa para não praticar a fé. Por isso é que a santidade é tão importante.

Essas pessoas necessitam encontrar em todos nós uma razão para ter fé, uma razão para ter esperança, uma razão para responder com amor ao amor do Senhor. As bem-aventuranças que lemos no Evangelho são uma receita para a santidade. Todos precisamos vivê-las melhor. Os padres precisam ser mais santos? Certamente. Precisam os frades e freiras serem mais santos e darem um melhor testemunho de Deus e do Céu? Sem a menor dúvida. Mas todas as pessoas na Igreja precisam fazer o mesmo, inclusive os leigos! Todos temos vocação para ser santos e esta crise é um chamado para que despertemos.

Estes são tempos duros para o sacerdote. São tempos duros para o católico. Mas também são tempos magníficos para ser um sacerdote e para ser um católico. Jesus disse nas bem-aventuranças: “Bem-aventurados serão quando os injuriarem, vos perseguirem e disserem falsamente todo tipo de maldades contra vocês por minha causa. Alegrem-se e regozijem-se porque será grande a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram aos profetas antes de vocês.” Eu experimentei essa bem-aventurança, da mesma forma que outros sacerdotes que conheço. No começo desta semana, quando terminei de fazer ginástica numa academia local, eu saía do vestiário com meu clergyman e uma mãe, mal me viu, afastou rapidamente seus filhos do caminho e os protegeu enquanto eu passava. Ficou me olhando quando passei e, quando já havia me afastado o suficiente, respirou aliviada e soltou os seus filhos. Como se eu fosse atacá-los no meio da tarde em plena academia! Mas enquanto todos nós talvez tenhamos que padecer tais insultos e falsidades por causa de Cristo, de fato, devemos regozijar-nos. É um tempo fantástico para ser cristão atualmente, porque é um tempo em que Deus realmente necessita de nós para mostrar Seu verdadeiro rosto. Em tempos passados nos EUA, a Igreja era respeitada. Os sacerdotes eram respeitados. A Igreja tinha reputação de santidade e bondade. Mas hoje já não é assim.

Um dos mais pregadores na história norte-americana, o bispo Fulton J. Sheen costumava dizer que preferia viver nos tempos em que a Igreja sofre em vez de florescer tranquilamente, nos tempos em que a Igreja tem que lutar, quando a Igreja tem que ir contra a cultura. São épocas para que os verdadeiros homens e mulheres dêem um passo à frente. “Até os cadáveres podem ir a favor da corrente”, costumava dizer o bispo, indicando que muitas pessoas dão testemunho quando a Igreja é respeitada, “mas são necessários verdadeiros homens e mulheres para nadar contra a corrente.”

Como isso é verdadeiro! É preciso ser um verdadeiro homem e uma verdadeira mulher para manter-se flutuando e nadar contra a corrente que se move em oposição à Igreja. É preciso ser um verdadeiro homem e uma verdadeira mulher para reconhecer que quando se nada contra a corrente das críticas, estamos mais seguros que quando apenas permanecemos grudados por inércia na rocha sobre a qual Cristo fundou sua Igreja. Estamos num desses tempos difíceis. É um dos grandes momentos para ser cristão.

Algumas pessoas prevêem que nesta região a Igreja passará por tempos difíceis e talvez seja assim, o mais a Igreja sobreviverá, por que o Senhor assegurou a sua sobrevivência. Uma das maiores réplicas na história aconteceu há justamente 200 anos. O imperador Napoleão engolia os países da Europa com seus exércitos, com a intenção final de dominar totalmente o mundo. Naquela ocasião disse uma vez ao cardeal Consalvi: “Vou destruir sua Igreja”. O cardeal respondeu: “Não, não poderá”. Napoleão, com seus 1,50 m de altura, disse outra vez: “Eu destruirei vossa Igreja.” O cardeal disse confiante: “Não, não poderá. Nem nós fomos capazes de fazê-lo!”.

Se os papas ruins, os sacerdotes infiéis e os milhares de pecadores na Igreja não tiveram êxito em destruí-la a partir de dentro – como dizia implicitamente ao general – como crê que poderá fazê-lo? O cardeal referia-se a uma verdade cruel. Mas Cristo nunca permitirá que sua Igreja fracasse. Ele prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam sobre a sua Igreja, que a barca de Pedro, a Igreja que navega no tempo rumo ao seu porto eterno no céu, nunca naufragará, não porque aqueles que vão nela não cometam todos os pecados possíveis para afundá-la, mas porque Cristo, que também está na barca, nunca permitirá que isso aconteça. Cristo continua na barca e ele nunca a abandonará.

A magnitude deste escândalo poderia ser tal que de agora em diante vocês tenham dificuldade em confiar nos sacerdotes tanto como o faziam no passado. Isto pode acontecer e talvez não seja tão ruim. Mas nunca percam a confiança no Senhor! É a sua Igreja! Mesmo quando alguns dos seus eleitos O tenham traído, ele chamará outros que serão fiéis, que servirão vocês com o amor com que vocês merecem ser servidos, tal como ocorreu depois da morte de Judas, quando os onze apóstolos ficaram de acordo e permitiram que o Senhor escolhesse alguém para tomar o lugar de Judas, e escolheram o homem que terminou sendo São Matias, que proclamou fielmente o Evangelho até ser martirizado.

Este é um tempo em que todos nós precisamos esforçarnos ainda mais em ser santos! Estamos chamados a ser santos, e como necessitamos ver esse rosto bonito e radiante da Igreja! Vocês são parte da solução, uma parte crucial da solução. Quando caminharem para receberem o Sagrado Corpo do Senhor das mãos ungidas deste sacerdote, peçam a Ele que os encha de um real desejo de santidade, um real desejo de mostrar Seu autêntico rosto.

Uma das razões pelas quais estou aqui como sacerdote é porque sendo jovem, impressionaram-me negativamente alguns sacerdotes que conheci. Via-os celebrar a Missa e quase sem reverência deixavam cair o Corpo do Senhor na patena, como se tivessem nas mãos algo de pouco valor em vez do Criador e Salvador de todos, em vez do meu Criador e Salvador. Lembro ter dito ao Senhor, reiterando meu desejo de ser sacerdote: “Senhor, deixa-me ser sacerdote para que possa tratar-Te como Tu o mereces!”. Isso me deu um desejo ardente de servir o Senhor. Talvez este escândalo permita que vocês façam o mesmo. Este escândalo pode ser algo que os conduza pelo caminho do suicídio espiritual ou algo que os inspire a dizer, finalmente, “Quero ser santo, para que eu e a Igreja possamos glorificar Teu nome como Tu o mereces, para que outros possam encontrar-Te no amor e na salvação que eu Te encontrei”. Jesus está conosco, como prometeu, até o final dos tempos. Ele continua na barca.

Tal como a partir da traição de Judas, Ele alcançou a maior vitória na história do mundo, a nossa salvação por meio da sua Paixão, morte e Ressurreição, também através deste episódio Ele pode trazer, e quer trazer, um novo renascimento da santidade, para lançar uns novos Atos dos Apóstolos do século XXI, com cada um de nós – e isso inclui você – assumindo um papel de protagonista. Agora é o tempo para que os verdadeiros homens e mulheres da Igreja se ponham em pé. Agora é o tempo dos santos. Como você irá responder?

O Pe. Roger J. Landry foi ordenado sacerdote em 1999 na diocese de Fall River pelo bispo Sean O’Malley, OFM Cap. Depois de obter a licenciatura de biologia pela Universidade de Harvard, o Pe. Landry fez seus estudos para o sacerdócio em Maryland, Toronto e, durante vários anos em Roma. Depois de sua ordenação sacerdotal, o Bispo O’Malley o enviou de regresso para Roma para concluir seus estudos de graduação em teologia moral e bioética. Atualmente é vigário paroquial na Paróquia do Espírito Santo em Fall River e capelão na escola secundária Bishop Connoly.