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4. Da fé nasce a solidariedade, o serviço, a defesa da vida

Dizem os bispos no documento de Aparecida: "De nossa fé em Cristo nasce também a solidariedade como atitude permanente de encontro, irmandade e serviço. Ela há de se manifestar em opções e gestos visíveis, principalmente na defesa da vida e dos direitos dos mais vulneráveis e excluídos, e no permanente acompanhamento em seus esforços por serem sujeitos de mudança e de transformação de sua situação. O serviço de caridade da Igreja entre os pobres “é um campo de atividade que caracteriza de maneira decisiva a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral”( Novo millenio ineunte,49)” (DA 394).

O que o texto me diz? Diz que uma verdadeira fé se manifesta pela solidariedade, serviço, fraternidade, opções e gestos visíveis defesa da vida.
Como vivo a minha fé?
Olho demoradamente para minhas atitudes e gestos. São atitudes e gestos de serviço e fraternidade para defender e promover a vida?  E na minha comunidade, vive-se também esta fé?
O bispos, em Aparecida, disseram ainda:
"Bento XVI nos recorda que: "o discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como os dois lados de uma mesma moeda: quando o discípulo está enamorado de Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só Ele salva (cf. At 4,12). Na realidade, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro". Esta é a tarefa essencial da evangelização, que inclui a opção preferencial pelos pobres, a promoção humana integral e a autêntica libertação cristã." (DAp146).

O que o texto me leva a dizer a Deus?
Oração do Brasil na missão continental
Senhor, Deus da vida e do amor,
enviastes o vosso Filho para nos libertar das forças da morte
e conduzir-nos no caminho da esperança.
Movei-nos pelo dom do vosso Espírito!
Fazei-nos discípulos, comprometidos
com o anúncio do Evangelho em
nossa Pátria,
em comunhão com a Missão Continental.
Fazei-nos missionários,
caminhando ao encontro de nossos irmãos e irmãs,
acolhendo a todos,
sobretudo os jovens, os afastados, os pobres, os excluídos.
Virgem Mãe Aparecida,
Intercedei junto ao vosso Filho,
para que sejamos fiéis ao nosso compromisso
de discípulos missionários. Amém!

3. Igreja,"Comunidade de amor"

Os bispos, na Conferência de Aparecida, disseram:
"A Igreja, como "comunidade de amor" é chamada a refletir a glória do amor de Deus que, é comunhão, e assim atrair as pessoas e os povos para Cristo. No exercício da unidade desejada por Jesus, os homens e mulheres de nosso tempo se sentem convocados e recorrem à formosa aventura da fé. "Que também eles vivam unidos a nós para que o mundo creia" (Jo 17,21). A Igreja cresce, não por proselitismo mas "por 'atração': como Cristo 'atrai tudo a si' com a força de seu amor" (Bento VXI, em Aparecida). A Igreja "atrai" quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus serão reconhecidos se amarem uns aos outros como Ele nos amou (cf. Rm 12,4-13; Jo 13,34). (DAp 159).

O que o texto me diz? Sinto-me também convocado a esta "comunidade de amor"? Como? Com que pessoas? Recordo muitas outras pessoas que repetiram este gesto, recomendado por Jesus: madre Teresa de Calcutá, Dom Luciano Mendes de Almeida, Irmã Dorothy, Francisco de Assis, ...
O bispos em Aparecida, disseram ainda:

"Bento XVI nos recorda que: "o discípulo, fundamentado assim na rocha da Palavra de Deus, sente-se motivado a levar a Boa Nova da salvação a seus irmãos. Discipulado e missão são como os dois lados de uma mesma moeda: quando o discípulo está enamorado de Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só Ele salva (cf. At 4,12). Na realidade, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro". Esta é a tarefa essencial da evangelização, que inclui a opção preferencial pelos pobres, a promoção humana integral e a autêntica libertação cristã." (DAp146).

O que o texto me leva a dizer a Deus?
Oração do Brasil na missão continental
Senhor, Deus da vida e do amor,
enviastes o vosso Filho para nos libertar das forças da morte
e conduzir-nos no caminho da esperança.
Movei-nos pelo dom do vosso Espírito!
Fazei-nos discípulos, comprometidos
com o anúncio do Evangelho em
nossa Pátria,
em comunhão com a Missão Continental.
Fazei-nos missionários,
caminhando ao encontro de nossos irmãos e irmãs,
acolhendo a todos,
sobretudo os jovens, os afastados, os pobres, os excluídos.
Virgem Mãe Aparecida,
Intercedei junto ao vosso Filho,
para que sejamos fiéis ao nosso compromisso
de discípulos missionários. Amém!

2. Quem chama para a missão? Qual é a identidade cristã?

O que diz o texto?
Leio atentamente o Documento de Aparecida, no parágrafo 144 e sublinho as expressões que são mais fortes.

"Ao chamar os seus para que o sigam, Jesus lhes dá uma missão muito precisa: anunciar o evangelho do Reino a todas as nações (cf. Mt 28,19; Lc 24,46-48). Por isto, todo discípulo é missionário, pois Jesus o faz partícipe de sua missão ao mesmo tempo que o vincula a Ele como amigo e irmão. Desta maneira, como Ele é testemunha do mistério do Pai, assim os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor até que Ele retorne. Cumprir esta missão não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã, porque é a difusão testemunhal da própria vocação." (DAp 144).
E eu, sou apenas alguém que reflete ou abro também meu coração às verdades da fé, à minha identidade cristã, com disposição a anunciar?

O que o texto diz para mim, para nós?
Por que sublinhei determinadas expressões?
1o. Quem chama:  Jesus Cristo.
2o. Para quê? Ele dá uma missão muito precisa: anunciar o evangelho do Reino a todas as nações.
3o. Consequência: todo discípulo é missionário.
4o. Cria-se um vínculo com Jesus Cristo: amigo e irmão.
5o. Define-se a missão: os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor até que Ele retorne.
6o. Define-se a identidade cristã:  esta missão não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã
Assumo este compromisso: sou testemunha de Jesus Cristo.

O que o texto me leva a dizer a Deus?
Guiados por Maria, fixamos os olhos em Jesus Cristo, autor e consumador da fé e dizemos a Ele:
Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já se declina” (Lc 24,29).
Fica conosco, Senhor, acompanha-nos ainda que nem sempre tenhamos sabido reconhecer-te.
Fica conosco, porque ao redor de nós as mais densas sombras vão se fazendo, e Tu és a Luz; em nossos corações se insinua a falta de esperança, e tu os faz arder com a certeza da Páscoa. Estamos cansados do caminho, mas tu nos confortas na fração do pão para anunciar a nossos irmãos que na verdade tu tens ressuscitado e que nos tem dado a missão de ser testemunhas de tua ressurreição.
Fica conosco, Senhor, quando ao redor de nossa fé católica surgem as névoas da dúvida, do cansaço ou da dificuldade: tu, que és a própria Verdade como revelador do Pai, ilumina nossas mentes com tua Palavra; ajuda-nos a sentir a beleza de crer em ti.
Fica em nossas famílias, ilumina-as em suas dúvidas, sustenta-as em suas dificuldades, consola-as em seus sofrimentos e no cansaço de cada dia, quando ao redor delas se acumulam sombras que ameaçam sua unidade e sua natureza. Tu que és a Vida, fica em nossos lares, para que continuem sendo ninhos onde nasça a vida humana abundante e generosamente, onde se acolha, se ame, se respeite a vida desde a sua concepção até seu término natural.
Fica, Senhor, com aqueles que em nossas sociedade são os mais vulneráveis; fica com os pobres e humildes, com os indígenas e afro-americanos, que nem sempre encontram espaços e apoio para expressar a riqueza de sua cultura e a sabedoria de sua identidade. Fica, Senhor, com nossas crianças e com nossos jovens, que são a esperança e a riqueza de nosso Continente, protege-os de tantas armadilhas que atentam contra sua inocência e contra suas legítimas esperanças. Ó bom Pastor, fica com nossos anciãos e com nossos enfermos! Fortalece a todos em sua fé para que sejam teus discípulos e missionários! (DAp 554).

01. Jesus é o rosto humano de Deus (DAp 392)


A partir de julho de 2010, propomos, neste espaço, a reflexão sobre o Documento de Aparecida. Usaremos o método Verdade, Caminho e Vida, a partir da definição do próprio Jesus Cristo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6).


Verdade
O que diz o texto?
Leio atentamente e sublinho as expressões que acho mais fortes.


"Nossa fé proclama que “Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem”(Exortação Apostólica Ecclesia in América, 67). Por isso, “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”(Bento XVI na Abertura da Conferência de Aparecida, 3). Esta opção nasce de nossa fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem, que se fez nosso irmão (cf. Hb 2,11-12). Opção, no entanto, não é exclusiva, nem excludente." (DAp 392).

Caminho
O que o texto diz para mim, para nós?
Por que sublinhei determinadas expressões?
1o A minha fé me leva a uma opção pelos pobres? Ou seja, um cuidado maior pelos que sofrem? O que tenho feito pelos que passam por maiores necessidades?
2o. Esta opção nasce da fé em Jesus Cristo, Deus feito homem, que se fez nosso irmão.
3o. Não é uma opção exclusiva, nem excludente.
4o. Assumo um compromisso: ......................................

Vida
O que o texto me leva a dizer a Deus?
Guiados por Maria, fixamos os olhos em Jesus Cristo, autor e consumador da fé e dizemos a Ele:
“Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já se declina” (Lc 24,29).
Fica conosco, Senhor, acompanha-nos ainda que nem sempre tenhamos sabido reconhecer-te.
Fica conosco, porque ao redor de nós as mais densas sombras vão se fazendo, e Tu és a Luz; em nossos corações se insinua a falta de esperança, e tu os faz arder com a certeza da Páscoa. Estamos cansados do caminho, mas tu nos confortas na fração do pão para anunciar a nossos irmãos que na verdade tu tens ressuscitado e que nos tem dado a missão de ser testemunhas de tua ressurreição.
Fica conosco, Senhor, quando ao redor de nossa fé católica surgem as névoas da dúvida, do cansaço ou da dificuldade: tu, que és a própria Verdade como revelador do Pai, ilumina nossas mentes com tua Palavra; ajuda-nos a sentir a beleza de crer em ti.
Fica em nossas famílias, ilumina-as em suas dúvidas, sustenta-as em suas dificuldades, consola-as em seus sofrimentos e no cansaço de cada dia, quando ao redor delas se acumulam sombras que ameaçam sua unidade e sua natureza. Tu que és a Vida, fica em nossos lares, para que continuem sendo ninhos onde nasça a vida humana abundante e generosamente, onde se acolha, se ame, se respeite a vida desde a sua concepção até seu término natural.
Fica, Senhor, com aqueles que em nossas sociedade são os mais vulneráveis; fica com os pobres e humildes, com os indígenas e afro-americanos, que nem sempre encontram espaços e apoio para expressar a riqueza de sua cultura e a sabedoria de sua identidade. Fica, Senhor, com nossas crianças e com nossos jovens, que são a esperança e a riqueza de nosso Continente, protege-os de tantas armadilhas que atentam contra sua inocência e contra suas legítimas esperanças. Oh bom Pastor, fica com nossos anciãos e com nossos enfermos! Fortalece a todos em sua fé para que sejam teus discípulos e missionários! (DAp 554).

O que significa ser testemunha?

Dar testemunho ou ser testemunha, para os bispos da América Latina, tem um significado especial. Veja no Documento de Aparecida:
uma verdadeira ALEGRIA!


"Desejamos que a alegria que recebemos no encontro com Jesus Cristo, a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e redentor, chegue a todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades;
desejamos que a alegria da boa nova do Reino de Deus, de Jesus Cristo vencedor do pecado e da morte, chegue a todos quantos jazem à beira do caminho, pedindo esmola e compaixão (cf. Lc 10,29-37; 18,25-43).
A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e agoniado pela violência e pelo ódio.
A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus.
Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber;
tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas,
e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria." (DAp 32).

ATENÇÃO

A partir do dia 20 este blog terá novo endereço: http://testemunhasdoreino.blogspot.com

Artigo: Espiritualidade de Prosperidade - J. B. Libanio *

Os sistemas políticos e econômicos não vivem só de ideologia e dinheiro. Política e economia satisfazem as necessidades básicas do ser humano. Mas deixam em descoberto seu lado espiritual, religioso. Por isso, todo sistema econômico cria sua espiritualidade ou encampa algo já existente, imprimindo-lhe sua marca.

Os ideais socialistas casavam muito bem com a teologia da libertação, assim como com a luta das comunidades eclesiais de base nas suas reivindicações fundamentais. Sem transformar-se em ideologia socialista, a espiritualidade da libertação alimentava e alimenta até hoje as pessoas que se envolvem com as práticas transformadoras da realidade na linha da emancipação e promoção dos pobres.

E agora, que espiritualidade está a responder ao triunfo do neoliberalismo? Onde ele busca apoio espiritual para preencher o vazio que o puro consumismo e o materialismo deixam atrás de si?

Muitas igrejas pentecostais e neopentecostais têm elaborado a espiritualidade da prosperidade e com isso mantido as pessoas nas redes do neoliberalismo, respaldadas por uma visão religiosa da realidade. Em que consiste tal espiritualidade?

Na base está o individualismo neoliberal com sua concepção de concorrência e competição de modo que vencem os mais fortes, os mais sabidos, os mais "vivos". Daí resulta o progresso. Pior para quem fica fora dele. Dito desta maneira rude poderia doer aos ouvidos cristãos. Aí entra uma pitada de espiritualidade que tudo tempera.

Deus quer a felicidade, a riqueza, os bens materiais, a felicidade, a saúde, aqui e agora, para seus filhos. Quem são eles se não os cristãos? Pensar de maneira diferente é cair na alienação tradicional. Esta prometia os bens somente para a vida eterna que se obtinha com os sofrimentos aqui na terra.

Cristo já sofreu no nosso lugar. Agora vem-nos a bênção de Deus. Somos "filhos do Rei". Se vamos para o céu, por que não antecipar um pouco dele nesta vida?

E os pobres? Sempre os haverá entre nós, como diz o Senhor. Eles são os perdidos. São preguiçosos, viciados, idólatras. Se vão mesmo para o inferno, por que não ensaiar um pouco aqui na terra? "O Terceiro Mundo é pobre porque idólatra", pregava Luiz Palau, evangelista argentino, americano naturalizado. Dois irmãos nordestinos sentenciavam, em São Paulo, que a culpa da pobreza do Nordeste é a devoção idólatra ao Padre Cícero.

Se os cristãos não ficarem ricos, isto é falta de fé. Vem de algum pecado oculto. Confessando-os, conhecerão a prosperidade. Mas se mesmo assim, não ficarem ricos, então a culpa é de algum antepassado.

Nessa espiritualidade, não há lugar para a solidariedade nem para a opção pelos pobres. É estritamente individualista. É uma espiritualidade dos resultados. Os ricos já estão abençoados. Encontram nela paz interior, uma vez que já possuem os bens materiais. Os pobres devem buscá-la para si e seus familiares, recorrendo a ritos religiosos, como o de abençoar ou ungir de óleo santo as carteiras profissionais.

Para a Igreja Universal do Reino de Deus a vida espiritual é uma transação financeira com o céu. Quanto maior a oferta, tanto maior a bênção. A espiritualidade da prosperidade é o coração dessa Igreja. Ela incentiva mais que ter carteira assinada é a criação de microempresas. Um bispo seu, trafegando em luxuoso carro do ano, dizia: "Eu ensino a prosperidade e vivo a prosperidade".

Apela-se então para um "poder" nas palavras o qual libera "energias positivas" e combate o baixo astral com efeito sobre as coisas, doenças. A realização dessa espiritualidade é "vida longa e próspera".

Outra expressão é a idéia de que Deus não fez seu povo para ser "cauda" do mundo, mas sua "cabeça". Incentivam-se os cristãos a ambicionar postos de mando na Terra. Aos "perdidos" cabe impor obediência e evitar que façam males maiores.

A participação na política não visa a uma transformação social, mas a travar a luta do bem contra o mal, sem lugar para o pluralismo. O bem se identifica com os ideais e interesses da própria igreja e de seus dirigentes. Volta-se à velha idéia da batalha espiritual que transforma em inimigo tudo com o que essa espiritualidade não concorda. Divide o mundo em dois campos: o lado de Deus (o lado da igreja) e o lado do mal, do demônio: todas as forças que divergem de sua maneira de ver a realidade.

A espiritualidade da prosperidade é uma resposta ao momento atual. Corresponde muito bem ao clima dominante da cultura pós-moderna a serviço do neoliberalismo. Daí sua sedução. Oferece o caminho rápido do sucesso sem passar pelo trabalho, pela renúncia, pelo esforço. O êxito econômico se faz até mesmo por vias suspeitas. Ele é sinal da bênção de Deus. A riqueza é vista no seu valor em si mesmo, sem nenhuma responsabilidade social. Muito distante da doutrina social da Igreja que defende a hipoteca social sobre toda posse. Os bens materiais são vistos como privilégio e bênção para alguns escolhidos de Deus e não destinados a todos. Produz-se uma identificação rápida entre a bênção de Deus e os bens materiais dos ricos.

Atém-se a uma interpretação literal e unilateral do Antigo Testamento. Esquece-se de que Jesus veio dar-lhe o verdadeiro sentido. Não se tem a mínima sensibilidade pela dimensão social nem pelo amor predileto de Deus pelo pobre. Os verdadeiros bens para o cristão encontram-se retratados por Jesus no sermão da montanha e na sua vida.

Jesus proclama bem-aventurados os pobres e não aqueles que nadam em riqueza e a ambicionam para si. Jesus invectiva aquele rico que só pensava em armazenar ainda mais seus bens. "Insensato! Esta noite mesmo a tua vida ser-te-á reclamada e o que tu preparaste, quem é o que o terá?" E conclui com um dito lapidar: "Eis o que acontece a quem reúne um tesouro para si mesmo, em vez de enriquecer junto a Deus" (Lc 12, 16-21)

Como se vê, é exatamente o oposto da espiritualidade da prosperidade que só pensa em entesourar para si e quanto mais, melhor. Esquece da condição mortal.

Mais ainda. Jesus refere-se diretamente à fragilidade dos bens terrestres que as traças e os vermes corroem; que os ladrões roubam. Conclui: "acumulai para vós tesouros no céu, onde nem as traças nem os vermes causam estragos, onde os ladrões não arrombam nem roubam". E termina com um dito de sabedoria: "onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração" (Mt 6, 19-21).

O ensinamento de Jesus sobre o seguimento situa-se em posição diametralmente oposta à espiritualidade da prosperidade. Na base está o desprendimento e não a acumulação. "Qualquer um de nós que não renuncia a tudo o que lhe pertence não pode ser meu discípulo" (Lc 14, 33).

Precisa ser de uma absoluta cegueira a respeito do evangelho de Jesus para propor uma espiritualidade da prosperidade como expressão do projeto de Deus. Este se manifestou em sua plenitude na pregação e pessoa de Jesus. As passagens do Antigo Testamento, que parecem identificar a bênção de Deus com a abundância dos bens, revelam um aspecto de seu projeto criador. Os bens criados estão destinados a todos os seres humanos e não a serem privilégio de alguns que se engolfam neles enquanto outros carecem de tudo. O Novo Testamento avança. Relativiza os bens materiais na perspectiva do irmão, do serviço aos outros, da própria missão.

A espiritualidade da prosperidade inverte o sentido cristão. É materialista, pagã. Nada cristã. Não se opondo ao canto de sereia do neoliberalismo, capitula. É a espiritualidade que justifica a injustiça social, tranqüilizando a consciência com tintura religiosa. Camufla a verdade da injustiça social, transferindo para Deus - bênção e maldição - a diferença social entre os humanos, fruto do sistema econômico, ao menos, na forma atual.

[www.jblibanio.com.br (site organizado pelo grupo de amigos e admiradores de JB Libanio. Confira desse autor o livro: Qual o futuro do Cristianismo? São Paulo, Paulus, 2006; 2ª. Ed. 2008)].
* Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano