DOCUMENTO: Proposições do Sínodo da África


Na manhã do dia 20 de outubro foi apresentado, no Sínodo, o Documento provisório da 2a. Assembleia especial para o Sínodo dos Bispos para a África. O texto, divulgado pela Santa Sé, tem 57 proposições. O documento aguarda parecer de Bento XVI. Veja no link:
http://www.cnbb.org.br/ns/modules/mastop_publish/files/files_4ae9b249e67b9.pdf

ARTIGO: Catequese, caminho para o discipulado (Ano Catequético)



Catequese, educação permanente da fé

Conforme o evangelista São Marcos, após a prisão de João Batista, Jesus foi para a Galiléia, onde começou a anunciar o Evangelho dizendo: “completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: fazei penitência e crede no Evangelho” (Mc 1,14-15).

Daí em diante, anunciava a todos a palavra da salvação. Chamou diversas pessoas a segui-lo mais de perto. A estas instruía a sós. A todos ensinava com parábolas, sinais e prodígios.

Após sua morte e ressurreição, confiou aos apóstolos a missão que recebera do Pai, enviando-os a todos os povos para ensinar a todos o que Ele mesmo havia dito e batizando em nome da Trindade a quem cresse (Mc 1,14-18; Mt 28,16-20).

Com a força do Espírito Santo, em Pentecostes, Pedro, em nome dos outros Apóstolos, sem o medo e a covardia manifestados durante a paixão e morte de Jesus de Nazaré, proclamou que o mesmo era o Messias prometido. Fora crucificado e morto, mas Deus o ressuscitara, constituindo-o Senhor e Cristo. A este anúncio vibrante, os ouvintes perguntavam o que fazer. A resposta era: arrependimento e batismo em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados (At 2,14-41).

Depois, os Apóstolos partiram em missão. Exortavam a todos a seguir Cristo, caminho de salvação. Aos que acolhiam o primeiro anúncio, proporcionavam o conhecimento e a experiência de Cristo para serem batizados em seu nome. Em grupo, por um longo tempo, em geral de três anos, eram iniciados na vida em Cristo. Este processo lhes garantia um encontro pessoal progressivo com Cristo. Chamava-se catecumenato. Era uma verdadeira iniciação à fé e vida da comunidade dos discípulos do Ressuscitado, através de uma catequese vivencial. “A catequese introduzia progressivamente na participação da vida cristã dentro da comunidade. Animada pela fé, sustentada pela esperança, exercida através da caridade fraterna, a própria vida da comunidade fazia parte do conteúdo da catequese. Esta, por sua vez, era o instrumento a serviço da uma entrada consciente na comunidade de fé e da perseverança nela. Catequese e comunidade caminhavam juntas” (CNBB, Catequese renovada, coleção Documentos, n° 26, n° 7).

A catequese teve esta característica de iniciação da vida em Cristo na comunidade até pelo final dos anos 300. O Império romano, que perseguira os cristãos, adotou o cristianismo como religião oficial. Em breve, praticamente todos foram batizados, não passando mais por aquele tempo maior de catequese como experiência de vida em Cristo. A catequese passou a ser mais um processo de integração, de mergulho no ambiente cristão que marcava a sociedade. Assim foi entendida e realizada até o ano 1500. Como os adultos eram considerados todos cristãos, as crianças eram batizadas logo que nasciam e tinham uma catequese posterior em vista da eucaristia.

A partir de 1500, por causa de confusões doutrinárias e enfraquecimento da vida cristã, a catequese passou ser um processo de aprendizagem individual, sem muita insistência na vida comunitária. Ela se tornou mais instrução, quase exclusivamente em vista da primeira comunhão.

Com os diversos movimentos de renovação eclesial a partir do ano 1900 e especialmente com o Concílio Vaticano II de 1962 a 1965, a catequese passou a ser entendida como educação permanente para a comunhão e a participação na comunidade de fé. Fala-se então de catequese de iniciação e de catequese permanente. A de iniciação prepara – antes ou após o batismo, para o decisivo compromisso da fé. A permanente ajuda a amadurecer continuamente a profissão de fé, a proclamá-la na Eucaristia e a renovar os compromissos que ela implica (Congregação para o Clero, Diretório Geral para a Catequese, n° 82).

Segundo o Diretório Nacional de Catequese (CNBB, coleção Documentos, n° 84, de 2006, n° 36 ss), o batismo de crianças, que as introduz na vida da graça, exige uma continuação, uma iniciação vivencial nos mistérios da fé (a pessoa de Jesus, a Igreja, a liturgia, os sacramentos) através da catequese. Esse processo catequético possibilita também aos já batizados (adultos, jovens, crianças) assumir conscientemente a própria vida cristã. Para os não batizados, a catequese se apresenta como processo catecumenal para a vida cristã. Ela tem como finalidade levar o catequizando a conhecer, acolher, celebrar e vivenciar o mistério de Deus, manifestado em Jesus Cristo, que nos revela o Pai e nos envia o Espírito Santo. Ela deve proporcionar o conhecimento da fé, a iniciação litúrgica, a formação moral, a vida de oração, a vida comunitária, o testemunho e a missão. Pelo Documento de Aparecida (n° 298 e 299), a catequese não deve ser só ocasional, reduzida a momentos prévios aos sacramentos ou à iniciação cristã, mas sim “itinerário catequético permanente”. Não pode se limitar a uma formação meramente doutrinal, mas precisa ser verdadeira escola de formação integral, levando a cultivar a amizade com Cristo na oração, o apreço pela celebração litúrgica, a experiência comunitária, o compromisso apostólico mediante um permanente serviço aos demais.

Ano Catequético, novo impulso à catequese

A catequese faz parte da natureza da Igreja. Não há Igreja sem catequese. “Ela está na base de todo o trabalho da Igreja particular. O próprio modo de ser Igreja, com as relações humanas que se estabelecem, a qualidade do testemunho, as prioridades estabelecidas, determina o estilo da catequese, que reflete o rosto da Igreja particular de onde brota” (Diretório Nacional de Catequese, n° 231)

Por esta importância da catequese, a Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 2006, por unanimidade, aprovou a realização de um Ano Catequético em 2009.

Este Ano Catequético será realizado no cinquentenário do primeiro Ano Catequético no Brasil (1959) e terá sua abertura no segundo domingo de páscoa, 19 de abril, e seu encerramento na festa de Cristo Rei, 22 de novembro, Dia Nacional do Leigo e da Leiga.

Cada diocese, paróquia e comunidade, em sua criatividade, desenvolverá atividades próprias para a abertura, desenvolvimento e encerramento do Ano Catequético.

A Diocese de Erexim fará a abertura, dia 19 de abril, em momento de oração, motivação e pronunciamento do Bispo, na Catedral, antes da missa das 09:00, com transmissão por rádios da região, em cadeia com a Difusão, que normalmente transmite a missa daquele horário.

Algumas atividades já definidas são: Encontro Diocesano de Catequistas, dia 13 de setembro em Barão de Cotegipe; Jornada Estadual de Catequistas, dia 24 de maio, em Santa Cruz do Sul; Terceira Semana Brasileira de Catequese, de 06 a 11 de outubro, em Itaici, Indaiatuba, SP. Durante a Assembléia dos Bispos, de 22 a 30 de abril, haverá também uma celebração especial do Ano Catequético. O Dia do Catequista, 30 de agosto, ganhará conotação especial neste ano.

O Ano Catequético não é evento isolado. Está inserido no contexto de recepção do Documento de Aparecida, com o projeto nacional de evangelização O Brasil na Missão Continental: a alegria de ser discípulo missionário, de implementação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010, do Sínodo sobre a Palavra, realizado em outubro passado, do 12° Encontro Intereclesial nacional de CEBs (21 a 25 de julho, Porto Velho, RO) e da Campanha da Fraternidade. O Ano Catequético se realiza também nos 30 anos da Exortação Apostólica sobre a Catequese, de João Paulo II, e da 3ª Conferência Geral dos Bispos da América Latina e Caribe, realizada em Puebla, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. Em parte, ele se desenvolverá dentro do Ano Paulino, a ser encerrado dia 29 de junho.

O tema deste Ano Catequético é: Catequese, caminho para o discipulado, e o lema: Nosso coração arde quando ele fala, explica as escrituras e parte pão (Cf Lc 24,13-35).

O objetivo geral é: Dar um impulso à catequese como serviço eclesial e como caminho para o discipulado. Os objetivos específicos são diversos: 1°) intensificar a formação catequética dos catequistas, dos agentes de pastoral, dos religiosos/as e dos ministros ordenados; 2°) incentivar a instituição do Ministério de Catequistas; 3°) impulsionar o estudo das Sagradas Escrituras; 4°) aprofundar o Primado da Palavra de Deus na vida da Igreja; 5°) cultivar a dimensão litúrgica da catequese; 6°) estimular a dimensão catequética nas comunidades na perspectiva da pastoral de conjunto; 7°) dar a devida ênfase à catequese com adultos, com jovens e junto à pessoa com deficiência; 8°) incentivar na catequese a inspiração catecumenal; 9°) estimular a implementação da disciplina catequética nos cursos de teologia; 10°) intensificar a dimensão missionária da catequese por meio da espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo; 11°) educar para a vivência de uma fé comprometida com as urgentes mudanças da nossa sociedade, tendo presente o princípio da interação vida-fé; 12°) favorecer na catequese a abertura ao outro, à realidade, ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

Subsídio precioso para o aprofundamento do tema e do lema do Ano Catequético é seu texto base. Ele tem três partes, seguindo o método ver-julgar-agir, confirmado pelo Documento de Aparecida, desenvolvidas à luz da conhecida passagem dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Assim, ele nos convida a aprender: caminhando com o Mestre (Jesus se aproxima e escuta); ouvindo o Mestre (Ele nos revela as Escrituras); agindo com o Mestre (ao partir o pão, eles o reconheceram e retornaram ao caminho de Jerusalém).

Que o Ano Catequético nos faça viver mais intensamente a catequese como processo a nos transformar em discípulos conscientes, ativos e apaixonados pela missão de Cristo.

Pe. Antonio Valentini Neto – Pároco da Catedral São José (Erexim).

INFORMAÇÃO: Campanha da Fraternidade 2011

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) já definiu  o tema da Campanha da Fraternidade 2011.
O tema será “Fraternidade e a vida no planeta” .
O lema:A criação geme em dores de parto”.

O objetivo geral é  contribuir para o aprofundamento do debate e busca de caminhos de superação dos problemas ambientais provocados pelo aquecimento global e seus impactos sobre as condições da vida no planeta.
Hino da CF 2011

A CNBB solicita a colaboração de todos os poetas para a criação de um texto belo e profundo que possa servir de hino para a Campanha da Fraternidade de 2011.
Instruções no site da CNBB

CF 2010
No próximo ano, 2010, a Campanha será ecumênica e terá como tema “Economia e vida” e lema, “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”.
Cartazes da CF
Veja todos os cartazes da CF com temas e lemas. Clique em: cartazes .


Cardeal africano é o novo Presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz

O Papa Bento XVI aceitou a renúncia do Cardeal Renato Martino, por limite de idade, ao cargo de presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz. O cardeal completa 77 anos, daqui a poucos dias. Para sucedê-lo, Bento XVI nomeou ontem, 24, o Cardeal Peter Appiah Turkson, de 61 anos, até agora arcebispo de Cape Coast, no Ghana (continente africano).
O cardeal africano foi o relator principal do Sínodo para a África, que terminou hoje, 25, e apresentou o relatório de abertura do sínodo ("Ante disceptationem") e o que resumia as intervenções ("Post disceptationem").

O anúncio da nomeação foi feito pelo próprio Papa, ao final do almoço com os padres sinodais.


Fonte: Rádio Vaticano

2o. SINODO DA ÁFRICA encerrou, hoje

"A Igreja na África
a serviço da reconciliação,
da justiça e da paz"

O Papa Bento XVI presidiu na manhã deste Domingo, 25, na Basílica de São Pedro a Missa de encerramento da II assembleia especial do sínodo dos bispos para a África que de 4 a 25 de Outubro debateu no Vaticano o tema a igreja ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz, vos sois o sal da terra vos sois a luz do mundo.Fiel ao projecto de Deus, a Igreja conjuga sempre evangelização e promoção humana, adoptando assim aquela “forma sacerdotal” que é a de Cristo, no caminho do amor. É partilhando até ao fim a condição dos homens e mulheres do seu tempo que a Igreja testemunha a todos o amor de Deus, semeando a esperança. – Palavras de Bento XVI, na homilia da Missa, partindo dos textos deste domingo, a começar pela primeira Leitura, do Profeta Jeremias.

“O projeto de Deus não muda. Através dos séculos e das convulsões da história, Ele visa sempre a mesma meta: o Reino da liberdade e da paz para todos. E isso implica a sua predilecção pelos que se encontram privados de liberdade e de paz, por aqueles que foram violados na sua dignidade de pessoas humanas. Pensamos especialmente nos irmãos e irmãs que na África sofrem pobreza, doenças, injustiças, guerras e violências, migrações forçadas”.

Recordando depois a cura do cego Bartimeu, Bento XVI fez notar que o episódio evangélica se situa no caminho que conduz Jesus a Jerusalém, onde se consumará a Páscoa, a sua Páscoa sacrificial, que o Messias vive, a nosso favor.“Caros Irmãos, demos graças porque o misterioso encontro entre a nossa pobreza e a grandeza de Deus se realizou também na Assembleia para a África, que hoje se conclui. Deus renovou a sua chamada: Coragem, levanta-te… E também a Igreja que está em África, através dos seus Pastores, vindos de todos os países do Continente, de Madagáscar e das outras ilhas, acolheu a mensagem de esperança e a luz para caminhar pela estrada que conduz ao Reino de Deus. Vai, a tua fé te salvou”.Sim, insistiu o Papa, é a fé em Jesus Cristo – bem entendida e praticada – que guia os homens e os povos à liberdade na verdade – à reconciliação, à justiça e à paz.“Assim é a Igreja no mundo: comunidade de pessoas reconciliadas, promotoras de justiça e de paz; sal e luz no meio da sociedade dos homens e das nações. Foi por isso que o Sínodo reafirmou com vigor – e manifestou – que a Igreja é Família de Deus, na qual não podem subsistir divisões com base étnica, linguística ou cultural”.

Referindo-se ainda à segunda Leitura da Missa, da Carta aos Hebreus, o Papa fez notar “uma outra perspectiva” que esta oferece. Isto é, que “a Igreja, comunidade que segue Cristo no caminho do amor, tem uma forma sacerdotal”.“O sacerdócio de Jesus Cristo não é primariamente ritual, mas sim existencial” – reflectiu Bento XVI. Embora não seja abolida a dimensão do rito, este – como se vê claramente na instituição da Eucaristia – assume significado a partir do Mistério pascal. Este supera, cumprindo-os, os antigos sacrifícios. Nascem assim um novo sacrifício, um novo sacerdócio e também um novo templo, todos eles coincidindo com o mistério de Jesus Cristo.“Também a Comunidade eclesial, na esteira do seu Mestre e Senhor, está chamada a percorrer decididamente a sua estrada de serviço, a partilhar profundamente a condição dos homens e mulheres do seu tempo, para testemunhar a todos o amor de Deus, semeando assim a esperança”.

É “conjugando sempre a evangelização e a promoção humana” que a Igreja transmite a mensagem de salvação – sublinhou o Papa, evocando a Encíclica “Populorum progressio” de Paulo VI: é isso o que os missionários têm feito e continuam a fazer no campo, “promovendo um desenvolvimento respeitoso das culturas locais e do ambiente segundo uma lógica que, passados mais de 40 anos, aparece como a única capaz de fazer sair os povos africanos da escravidão da fome e das doenças”.“Isto quer dizer transmitir o anúncio da esperança seguindo uma forma sacerdotal, ou seja, vivendo em primeira pessoa o Evangelho, procurando traduzi-lo em projectos e realizações coerentes com o princípio dinâmico fundamental – o amor”.

Nestas três semanas – observou o Papa – a II Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a África confirmou o que já João Paulo II fizera notar e foi recentemente recordado na Encíclica “Caritas in veritate”, isto é, que – em tempos de “globalização” - “se impõe renovar o modelo de desenvolvimento global”, para que nenhum povo dele fique excluído. “A globalização (advertiu Bento XVI) é uma realidade humana e como tal modificável segundo um ou outro posicionamento cultural.

A Igreja atua com a sua concepção personalista e comunitária para orientar o processo em termos de relacionalidade, fraternidade e partilha”. “A urgente acção evangelizadora, de que muito se falou nestes dias, comporta também um premente apelo à reconciliação, condição indispensável para instaurar na África relações de justiça entre os homens e para construir uma paz equitativa e duradoura, no respeito de cada indivíduo e povo; uma paz que tem necessidade e se abre ao contributo de todas as pessoas de boa vontade, para lá das respectivas pertenças religiosas, étnicas, linguísticas, culturais e sociais”. “Coragem, levanta-te, Continente africano!” – encorajou Bento XVI, a concluir.

“Acolhe com renovado entusiasmo o anúncio do Evangelho para que o rosto de Cristo possa iluminar com o seu esplendor a multiplicidade das culturas e linguagens das tuas populações.Ao mesmo tempo que oferece o pão da Palavra e da Eucaristia, a Igreja empenha-se também a agir, com todos os meios disponíveis, para que a nenhum africano falte o pão de cada dia. Para tal, juntamente com a obra de primária urgência que é a evangelização, os cristãos são activos nas intervenções de promoção humana”.

ARTIGO: ZÉ MARTINS MORREU

A quem não ficou sabendo, comunico a triste notícia:
Zé Martins nos deixou sem ter tempo de se despedir.
Quem o conheceu com sua proverbial calma e gentileza sabe que ele o faria. Mas uma febre crescente o levou em dois dias.
Desde o dia 16 de outubro estamos sem a sua canção libertadora e sem a sua voz que ecoava nas CEBs e nas casas dos mais pobres e de quem os ama. Foi isso que ele escolheu cantar.
Músico, compositor, cantor de bela voz, formado em escola dos cultos e competentes jesuítas, catequista, coração missionário, desprendido, bom pai, bom marido, bom amigo, bom de todo jeito, Zé Martins era marcante.
Seu bom humor, suas tiradas, seu jeito quase silencioso de ser, seu quê de filósofo e de matuto, tudo nele revelava o gosto pela terra, pela natureza, pelas coisas simples e seu amor pelos que Jesus chamava de "pequeninos".
Era bom conviver com o Zé. Desapegado e despretensioso, ele viveu a vida que lhe veio e a transformou numa obra de arte. Era mármore da melhor qualidade: suficientemente duro para agüentar os golpes do formão e macio o suficiente para os detalhes do cinzel.
Tinha as exigências do profeta e missionário e a leveza do amigo perdoador. Vai fazer falta para a forte e suave Ângela e filhas, para os amigos de todos os dias e para quem bebeu das suas canções que, se não estouraram na mídia, deixaram marcas lá onde eram conhecidas.
Ir lá e sujeitar-se aos esquemas do marketing não fazia o seu gênero. Ele era de ir chegando e semeando. Alma de semeador incansável, mesmo enfermo, jamais parou de trabalhar. Sua ultima presença forte foi no Encontro Intereclesial de Porto Velho.
Vi-o na casa do Gilson há menos de dois meses. Respirava serenidade. Meu tributo a um evangelizador de grande envergadura. Na construção do reino ele foi uma das vigas de sustentação. Não apareceu muito, mas segurou muitos que nele confiavam.
Oremos pelo Zé. Ele agora sabe mais do que já sabia.
E sabia mais do que muitos de nós.
Nem pediremos a Deus que o tenha. Sua vida foi uma certeza! Deus o tem!
Católico acredita em céu agora já.
Dormir e esperar não era coisa do Zé.
Pe Zezinho, scj
Obras de Zé Martins em CD, Paulinas COMEP:

TESTEMUNHO E MENSAGEM de um Profeta: Dom Helder Câmara

Dom Hélder Pessoa Câmara
(Fortaleza, 7 de fevereiro de 1909 — Recife, 27 de agosto de 1999)


Bispo da Igreja Católica, arcebispo emérito de Olinda e Recife.
Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. Pregava uma igreja simples voltada para os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz.

Um pouco de sua história
Décimo-primeiro filho de João Eduardo Torres Câmara Filho jornalista, crítico teatral e funcionário de uma firma comercial e da professora primária Adelaide Pessoa Câmara, desde cedo manifestou sua vocação para o sacerdócio.

Ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza em 1923, o Seminário da Prainha, então sob direção dos padres lazaristas. Nesta instituição cursou o ginásio e concluiu os estudos de filosofia e teologia. Foi ordenado padre no dia 15 de agosto de 1931, em Fortaleza, aos 22 anos de idade, com autorização especial da Santa Sé, por não possuir a idade mínima exigida. No mesmo ano, fundou a Legião Cearense do Trabalho e em 1933, a Sindicalização Operária Feminina Católica, que congregava as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas. Atuou na área da educação, participando de políticas governamentais do estado do Ceará na área da educação pública. Foi nomeado diretor do Departamento de Educação do Ceará. Para aprofundar seus estudos nesta área, foi transferido em 1936 para a cidade do Rio de Janeiro, então capital da república. Aí dedicou-se a atividades apostólicas. Foi Diretor Técnico do Ensino da Religião.

Neste período, sente-se atraído pela Ação Integralista Brasileira, que propunha o resgate dos valores de "Deus, Pátria e Família". Entretanto, afastou-se de qualquer compromisso político-partidário ao perceber as implicações ideológicas desta opção.

No Rio de Janeiro, teve como diretor espiritual o Pe. Leonel Franca, criador da primeira universidade católica do Brasil - a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No período pós-guerra, fundou a Comissão Católica Nacional de Imigração, para apoio à imigração de refugiados.

Foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro no dia 3 de março de 1952. Foi ordenado bispo, aos 43 anos de idade, no dia 20 de abril de 1952, pelas mãos de Dom Jaime Cardeal de Barros Câmara, Dom Rosalvo Costa Rego, Dom Jorge Marcos de Oliveira.

Foi um grande promotor do colegiado dos bispos e da renovação da Igreja Católica, fortalecendo a dimensão do compromisso social. Em 1950, D. Hélder entrou em contato com o Monsenhor Giovanni Batista Montini, então subsecretário de estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI, que o apoiou e conseguiu a aprovação, em 1952, para a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com sede no palácio arquiepiscopal do Rio de Janeiro. Nesta instituição, exerceu a função de secretário geral até 1964. O mesmo Mons. Montini apoiou a criação do Conselho Episcopal Latino-Americano - CELAM, fundada em 1955, com sede em Bogotá. A fundação ocorreu na Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada no Rio de Janeiro, tendo D. Hélder como articulador. Ele viria a participar das conferências gerais do CELAM como delegado do episcopado brasileiro, até 1992: além da conferência do Rio de Janeiro, esteve presente na Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Medellín, 1968), na Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Puebla, 1979) e na Quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Santo Domingo, 1992).

Sua capacidade de articulação torna realidade o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, em 1955, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de cardeais e bispos do mundo inteiro.

Em 1956, fundou a Cruzada São Sebastião, com a finalidade de dar moradia decente aos favelados. Desta primeira iniciativa, outros conjuntos habitacionais surgiram. Em 59, fundou o Banco da Providência, cuja atuação se desenvolve no atendimento a pessoas que vivem em condições miseráveis.

Teve participação ativa no Concílio Ecumênico Vaticano II: foi eleito padre conciliar nas quatro sessões do concílio. Foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, um documento assinado por cerca de 40 padres conciliares no dia 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio Vaticano II, depois de celebrarem juntos a Eucaristia. Este pacto teve forte influência na Teologia da Libertação.

Diante da conturbada situação sociopolítica nacional, a divergência de posições com Cardeal Dom Jaime Câmara torna difícil sua permanência no Rio de Janeiro. No dia 12 de março de 1964 foi designado para ser arcebispo de Olinda e Recife, Pernambuco, múnus que exerceu até 2 de abril de 1985. Instituiu um governo colegiado nesta diocese, organizada em setores pastorais. Criou o Movimento Encontro de Irmãos, o Banco da Providência e a Comissão de Justiça e Paz daquela diocese. Fortaleceu as comunidades eclesiais de base.

Estabeleceu uma clara resistência ao regime militar. Tornou-se líder contra o autoritarismo e pelos direitos humanos. Não hesitou em utilizar todos os meios de comunicação para denunciar a injustiça. Pregava no Brasil e no exterior uma fé cristã comprometida com os anseios dos empobrecidos. Foi perseguido pelos militares por sua atuação social e política, sendo acusado de comunismo. Foi chamado de "Arcebispo Vermelho". Foi-lhe negado o acesso aos meios de comunicação social após a decretação do AI-5, sendo proibido inclusive qualquer referência a ele. Desconhecido da opinião pública nacional, fez frequentes viagens ao exterior, onde divulgou amplamente suas idéias e denúncias de violações de direitos humanos no Brasil. Foi adepto e promotor do movimento de não-violência ativa.

Em 1984, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia. Em 15 de julho de 1985, passou o comando da Arquidiocese a Dom José Cardoso Sobrinho. Continuou a viver em Recife, nos fundos da Igreja das Fronteiras, onde vivia desde 1968.

Em fevereiro de 2008 foi encaminhado à Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano, o pedido de beatificação de D. Hélder pela Comissão Nacional de Presbíteros (CNP), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).


Mensagens e pensamentos de Dom Helder
"O amor é o perfume das almas."

"Só as grandes humilhações nos levam ao recesso último de nós mesmos, lá onde as fontes interiores nos banham de luz, de alegria e de paz."

"Se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista."

"Basta que um botão erre de casa para que o desencontro seja total."

"Quero dedicar-me até o último suspiro à justiça e a libertação dos oprimidos"

"Um sonho sonhado sozinho é apenas um sonho. Um sonho sonhado juntos é o princípio de uma nova realidade."

"O verdadeiro cristianismo rejeita a idéia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus."

"É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca."

"Se as pessoas são pesadas demais para serem levadas nas costas, levo-as no coração."


Obras sobre Dom Hélder
Livros


Dom Hélder Camara-Coleção Vidas Luminosas, Alex Criado, Editora Salesiana, São Paulo, 2006
Os Caminhos de Dom Hélder - Perseguições e Censura, Marcos Cirano, Editora Guararapes, Recife, 1983.
O Monstro Sagrado e o Amarelinho Comunista, Assis Claudino, Editora Opção, Rio de Janeiro, 1985.
A Imprensa e o Arcebispo Vermelho, Sebastião Antônio Ferrarini, Edições Paulinas, São Paulo, 1992.
Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia, Nelson Pileti e Walter Praxedes, Editora Ática, São Paulo, 1997.
Dom Hélder por Marcos de Castro, Edições Graal, Rio de Janeiro, 1978.
A Igreja e a Política no Brasil, Márcio Moreira Alves, Editora Brasiliense, São Paulo, 1979.
Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro - Pós-1930. Rio de Janeiro: FGV/Finep, 2001. 5 v. (Coordenadores: Alzira Alves de Abreu, Israel Beloch, Fernando Lattman-Weltman, Sérgio Tadeu N. Lamarão. V. 1, p. 958-963.
Dom Hélder Câmara, profeta para o nosso tempo, Marcelo Barros, Editora Rede da Paz, Goiás, 2006.
As noites de um profeta - Dom Hélder Câmara no Vaticano II, José de Broucker, Editora Paulus, São Paulo, 2008, ISBN 978-85-349-2912-7.
Dom Hélder Câmara: o profeta da paz, Walter Praxedes, Nelson Piletti. Editora Contexto, 2009, ISBN 978-85-7244-305-0.

DVD

Palavras de um profeta - Dom Helder Câmara - Paulins Multimidia, 1991, 32 min

Filmes
Dom Hélder Câmara - O Santo Rebelde. Diretora: Erika Bauer. Brasília: Cor Filmes, 2004. Filme documentário, 35mm (74’), cor.
Dom Hélder Câmara - Em Busca da Profecia. Diretora: Erika Bauer. Brasília : Cor Filmes, 2003.

TESTEMUNHO: "sereis perseguidos por causa de meu nome"



Diocese de Roraima repudia violência contra missionário comboniano

O bispo da diocese de Roraima, dom Roque Paloschi, divulgou uma nota, nesta quinta-feira, 15, repudiando o ato de violência de que foi vítima o padre Joaquim Fonseca, 61, missionário comboniano, que trabalha em Roraima. A agressão ocorreu na semana passada, dia 10.
O missionário esperava uma balsa para ir à terra indígena São Marcos, em Boa Vista, quando um fazendeiro o insultou com palavrões e, em seguida, o agrediu fisicamente. O religioso não reagiu.
“A atitude do agressor revela intolerância e desrespeito, inconcebíveis num Estado Democrático de Direito, que devem ser urgentemente extirpados do seio social”, disse dom Roque.
Leia, abaixo, a nota de dom Roque Paloschi.

NOTA DE REPÚDIO
”Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e,
mentido, disserem todo o mal contra vós por causa de mim” (Mt 5,11).


A DIOCESE DE RORAIMA vem a público repudiar a agressão física sofrida por um de seus missionários, o padre comboniano JOAQUIM FONSECA, enquanto aguardava a balsa do “Passarão” para a travessia, na manhã do dia 10 de outubro próximo passado.
O missionário, de 61 anos, foi agredido ao responder afirmativamente à indagação se era padre da Diocese de Roraima. O agressor iniciou sua abominável conduta dirigindo palavrões ao sacerdote e declarando que “a Igreja era a pior desgraça que tinha em Roraima”. Ao perceber que o padre Joaquim anotava a placa de seu carro, o agressor deu-lhe um soco, derrubando-o por terra.
O padre Joaquim, em momento algum, esboçou reação. O caso foi registrado perante a autoridade policial competente para as devidas providências.
A liberdade de expressão é um direito de todo cidadão. A ninguém, porém, é permitido abordar e ofender uma pessoa pelo simples fato desta professar uma fé ou defender ideais religiosos.
A atitude do agressor revela intolerância e desrespeito, inconcebíveis num Estado Democrático de Direito, que devem ser urgentemente extirpados do seio social.
A Diocese de Roraima continuará sua Ação Evangelizadora, na fidelidade à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não se abaterá diante daqueles que se julgam donos desta terra.
Unidos na certeza de que é Cristo que caminha à nossa frente, invocamos a proteção da Virgem Maria, mãe dos perseguidos, para que a Igreja Diocesana de Roraima seja fiel à sua missão.
“Não te perturbes, nada te espante, quem com Deus anda nada lhe falta” (Santa Teresa).

Boa Vista, RR, 15 de outubro de 2009.
Dom Roque Paloschi
Bispo da Diocese de Roraima

TESTEMUNHO de um sacerdote: Damião de Molokai

O Padre Damião de Veuster, SS.CC., mais conhecido como Damião de Molokai, vai ser declarado Santo pelo Papa Bento XVI no dia 11 de Outubro, na praça de São Pedro, no Vaticano.
O Padre Damião, nascido na Bélgica em 1840, foi viver como missionário junto aos leprosos da ilha de Molokai (Hawai) aos 33 anos de idade. Após 16 anos a atender heroicamente os leprosos, morreu também leproso em 1889. Tinha 49 anos. Seguindo o exemplo de Jesus, “amou-os até ao fim”, dando a vida por eles.
Damião nasceu no seio de uma família numerosa da região flamenga, a norte da Bélgica. Eram pequenos proprietários de fazenda agrícola e pecuária, e os pais, de fé católica profunda, pensaram em dedicar o pequeno dos filhos para continuar o trabalho da casa. Contava Damião 18 anos e já duas das irmãs tinham se tornado religiosas e o irmão mais velho, Pânfilo, era para já religioso dos Sagrados Corações, na altura uma pequena Congregação missionária de origem francesa. Damião sentiu a vocação, foi difícil comunicá-la aos pais. Entretanto, professou como irmão dos ss.cc. e, após luta apurada com o latim e o francês, conseguiu dos superiores encetar a Teologia. O seu sonho era ser missionário em terras longínquas, queria ser como São Francisco Xavier: a ocasião pintou quando o seu irmão ficou doente pouco antes do barco partir para o Pacífico Sul. Damião, em arrebatado entusiasmo, pediu para substituí-lo.
Não dá para narrar a viagem dos missionários por aqueles oceanos, do Atlântico Norte ao Sul, a passagem pelo Cabo de Hornos, a entrada no Pacífico… Cinco meses de navegação!
Damião formava parte da equipa missionária de padres e irmãs dos SS.CC. que tinham recebido da Congregação para Propagação da Fé a missão das Ilhas Sandwich, assim chamado então o arquipélago hawaiano. Aprender a língua kanaka, adaptar-se ao clima, aos costumes… Damião encarou isso tudo com a proverbial fogosidade do seu temperamento.
Estala uma epidemia de lepra no arquipélago: o governo das Ilhas, naquela altura uma monarquia autóctone, resolve internar os leprosos num cárcere natural, a cara norte da ilha de Molokai, entre o mar e a montanha.
A lepra, uma doença da pele, incurável na altura, provocava então muito mais terror do que hoje. Alguns suspeitavam ela ser própria de povos subdesenvolvidos, ligada com costumes licenciosos, relacionada com a sífilis e outras doenças venéreas. O estigma do leproso era total: para além da desintegração física, a exclusão social, a maldição divina.
É neste contexto que se compreende a angústia do padre provincial ao pedir voluntários para atender os leprosos. “Sem tocá-los, sem conviver com eles…”, disse. Mas, “alguém poderia ir à Molokai durante um tempo?” Levantam-se alguns sacerdotes, entre eles Damião. É ele o escolhido para lá ir.
Consta que Damião, aos 33 anos, nunca imaginara o que ia acontecer com ele: simplesmente tomou uma decisão coerente com a sua profissão perpétua embaixo do manto mortuário. Ele era assim: entusiasta, lançado, convencido de que o Senhor precisava dele para ir à Molokai naquele momento.
O que aconteceu depois ultrapassou as expectativas: Damião chegou à ilha e encontrou uma espécie de semi-caos. Kalawao era uma aldeia mais para depósito de doentes não atendidos, destinados a morrer, sem família, nem hospital nem cuidados, do que um assentamento humano digno desse nome. Prostituição, droga, assassínios.., normal entre pessoas abandonadas a si próprias. Foi precisa muita paciência, muita dedicação, muita oração.., para conseguir formar um povo daquela massa de moribundos.
Sempre é citada a frase de Mahatma Ghandi “é preciso saber de onde tirou este homem a força para tal heroísmo”, e todos nos perguntamos onde esteve o segredo de Damião para levar a cabo uma tal empresa. A resposta está no sacrário, certamente, na presença constante do Jesus Eucarístico , nas adorações e celebrações… Jesus foi o Amigo que Damião teve nas idas a cavalo a visitar as aldeias, nas curas dos leprosos, na forma de encarar aos inimigos – que não foram poucos, dentro e fora da ilha - , na presença de ânimo para não se deprimir nos momentos piores de solidão. Quando contraiu a doença – nunca obedeceu a quem lhe dissera que “não tocara os leprosos” – houve médicos a suspeitar dele ter tido relações com leprosas. Logo se demonstrou o contrário…
Damião amou em excesso. Entrou naquilo que Paulo disse na 1Cor: a loucura da Cruz. Li há pouco: “O Reino faz-se presente não pelas instituições de direito, mas pela acção dos homens justos. O Reino advém lá onde o poder do bem faz que recue o mal, sempre fascinante. Por isso, a metáfora da ‘clareira na floresta’ parece-me razoável. Assim percebido, o Reino é uma clareira no coração da história perversa ou ambígua..”p.270. E mais adiante (p.272) “Os justos não se contentam com seguir uma conduta razoável; excedem-se no desempenho, porque o mal que o mundo gera é também excessivo, daí a reclamar um excesso de bem”. (Christian Duquoc, “Creo en la Iglesia”, Precariedad institucional y Reino de Dios, Sal Terrae, Santander, 2001).
Damião é uma “clareira no coração da história”, uma testemunha de que o Reino está aí a fazer o seu trabalho. As sementes de misericórdia, compaixão e solidariedade que se manifestam na sua vida têm dado fruto no Senhor. Ele morreu, segundo consta, feliz. Caindo aos pedaços, com seus membros desfigurados, porém feliz. Disse: “Como é doce morrer filho dos Sagrados Corações”.
São Damião, rogai por nós.

Luís Manuel Alvarez Garcia, ss.cc

SÍNODO PARA A ÁFRICA

Sínodo para a África abre-se a grandes esperanças. Também para o catolicismo global
No domingo (4) de manhã, o Papa Bento XVI celebrou a missa de abertura do Sínodo para a África, que se reúne no Vaticano entre os dias 04 a 25 de outubro. É um daqueles eventos na vida da Igreja que deveria ser enormemente importante, mesmo que não se saiba se ele realmente vai dar vida ao seu potencial.
Este é o segundo Sínodo para a África. O primeiro se reuniu em 1994, no auge do genocídio em Ruanda.
Como eu comumente digo quando um Sínodo está por vir, há duas visões acerca do seu valor, que poderíamos chamar de perspectivas "copo metade cheio" e "copo metade vazio".
A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 02-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Este último é muito mais fácil de expor: um Sínodo é uma reunião de negócios cara que tipicamente obtém muito pouco. De fato, eles são quase sistematicamente projetados para assegurar que muitas das ideias novas ou interessantes sejam descartadas até o final ou mencionadas meramente como coisas a serem ponderadas, em vez de serem itens de ação. Dada a expectativa de que qualquer proposta real deva gozar de um amplo consenso, os Sínodos tipicamente encerram afirmando as práticas existentes e convidando então para um estudo posterior sobre quase todo o resto.
Por outro lado, a visão "copo metade cheio" sustenta que um Sínodo é de grande valor pelas ideias e pela energia que desencadeiam, apesar de suas conclusões formais em muitos casos. (De fato, essas ideias surgem ao redor da sala de reuniões do Sínodo, em vez de surgirem diretamente dentro dela). É uma chance para iniciar conversações e para pôr as ideias na mesa, não apenas em um marco local, mas também para uma amostra representativa da Igreja universal. É também um seminário de um mês de duração sobre a diversidade do catolicismo global, já que participantes de várias partes do mundo têm a chance de compartilhar experiências, se conhecer e aprender uns dos outros. Mesmo aqueles que prestam atenção ao evento de longe podem se beneficiar.
Nesse sentido, aguardar as declarações finais e as proposições de um Sínodo é quase exatamente a forma errada de acompanhá-lo. Pelo contrário, é importante ver as conversas em suas fases iniciais, antes do período de polimento e refino e antes que as partes mais provocativas e originais sejam cortadas.
Faça isso e, em muitos casos, você irá encontrar muitas coisas para ficar pensando a respeito.
* * *
O espetacular crescimento do catolicismo na África junto com o sentimento juvenil e dinâmico da fé lá geraram muitos comentários de que "a África é o futuro". As grandes esperanças pelo Sínodo deste mês, assim como o realismo acerca dos desafios que ele irá enfrentar, podem ser vislumbrados a partir das reflexões pré-Sínodo que circulam na África e entre os africanos.
Na quinta-feira, 1º, eu participei de uma oficina sobre o Sínodo, patrocinado pelo Pax Romana, um movimento católico internacional para questões intelectuais e culturais, realizado na Casa Ravasco, perto do Vaticano, de forma a fazer recomendações aos bispos. A oficina estudou assuntos como os modelos alternativos de desenvolvimento econômico (tentando encorajar os africanos a aproveitar as vantagens competitivas locais para incrementar a produtividade e o valor de mercado de seus produtos), assim como as possibilidades para resolução de conflitos e construção da paz.
O padre dominicano Emmanuel Ntakarutimana, do Burundi, fez a seguinte séria observação: em termos de porcentagem de população, as quatro nações mais cristãs da África são o Burundi, a Ruanda, a República Democrática do Congo e o Congo [ou Congo-Brazaville]. Elas também são, claro, as quatro nações que viram as mais atrozes carnificinas na última década e meia, incluindo o genocídio de Ruanda e a grande guerra na região dos Grandes Lagos, centrada no Congo – cada uma das quais deixou milhões de mortos e gerou dezenas de milhões de refugiados.
De fato, Ntakarutimana disse que poderia testemunhar a partir de sua experiência pessoal no Burundi que, quando a violência estourou por lá, as vítimas foram de menor número nas áreas dominadas por muçulmanos. Dizendo-o de forma mais chocante, aqui segue a sua conclusão: quanto mais cristã é uma nação, mais alta é a possibilidade de você ser massacrado lá.
Obviamente, disse Ntakarutimana, isso levanta a problemática questão sobre que tipo de evangelização ocorreu entre os cristãos nessas nações e o que precisa mudar para assegurar que esses conflitos não se repitam. Dentre outras coisas, Ntakarutimana recomendou um sério investimento em institutos de construção da paz que poderiam analisar os conflitos e treinar especialistas, tanto padres quanto leigos, para resolvê-los. (Ntakarutimana acrescentou que existem modelos para esses institutos nos Estados Unidos e na Europa, mas, muito frequentemente, esses institutos querem que os africanos estudem em seus campi em vez de investir na construção de instalações na própria África, mais perto de suas realidades locais).
Em geral, Ntakarutimana recomendou que a Igreja católica enfoque no que ele chamou de "terapia social e na cura da memória", repensando a natureza da identidade cristã para enfatizar o fato de ser "uma família centrada na Eucaristia".
O evento do Pax Romana não é o único fórum em que estão sendo feitas reflexões sobre o Sínodo.
O padre Patrick Devine, da Sociedade das Missões Africanas e presidente da Conferência de Superiores Religiosos do Quênia, recentemente publicou uma declaração sobre o Sínodo, destacando seu tema sobre reconciliação. Mesmo não diminuindo a importância das guerras regionais de grande escala, Devine também acentuou os pequenos conflitos interétnicos, alimentados por questões como "escassez de recursos ambientais, variação cultural, negligência do Estado, uso contestado do território e a proliferação de pequenas armas".
Esses conflitos, defendeu Devine, geralmente fazem com que os programas catequéticos da Igreja, suas escolas, hospitais e outros ministérios fiquem "inoperantes". Uma abordagem da evangelização na África que não inclua um treinamento sério de construção da paz, escreveu, representaria "um defeito fundamental na atitude e na visão da missão da Igreja".
A Irmã do Santo Menino Jesus Teresa Okure, uma nigeriana que atua como coordenadora acadêmica do Instituto Católico da África Ocidental, manifestou esperança de que o Sínodo aborde o papel da mulher – tanto nas sociedades africanas como na própria Igreja.
"A marginalização das religiosas e das mulheres em geral, ou dando-lhes apenas conhecimento aqui a ali, é simplesmente um pecado, uma prática que é contrária ao desígnio de Deus, se a nossa igualdade e unicidade em Cristo, através do Batismo, é alguma coisa a se ter em conta", escreveu Okure. "A prática distorce a imagem de Deus na mulher, afasta a mulher do seu direito batismal e do novo estado em Cristo e empobrece grandemente não só a mulher, mas toda a comunidade eclesial e humana, depreciando, matando e suprimindo os talentos da mulher dados por Deus".
Okure, uma das especialistas do Sínodo indicadas pelo Papa, aconselha que os líderes da Igreja "ensinem pelo exemplo em vez de pelo preceito". Dentre outras coisas, ela recomenda que se retome uma sugestão do primeiro Sínodo para a África de 1994 de formar uma comissão de mulheres "para, criticamente, estudar a forma de integrar as mulheres na missão da igreja".
Okure também convidou os religiosos africanos a refletir sobre como podem fomentar a reconciliação dentro de suas próprias comunidades.
"Em alguns casos, os superiores têm um estilo de vida diferente; têm um cardápio diferente dos outros membros da comunidade", escreveu. "A iniciativa das irmãs jovens é muitas vezes esmagada sob a capa de estarem forçando o voto de obediência [...] Por vezes, pessoas com poder nas congregações subornam os membros com toda a espécie de promessas, incluindo a possibilidade de avançar nos estudos se forem eleitas".
Com efeito, sugeriu Okure, o Sínodo deve ser uma ocasião para frear esses abusos.
A Associação das Conferências Episcopais da África Oriental (AMECEA) publicou uma declaração, assinalando alguns desafios para que o Sínodo resolva, incluindo:
· A recessão econômica global;
· Os problemas políticos da África, incluindo "liderança pobre, políticas eleitorais caóticas e fracos acordos de partilha do poder", assim como "corrupção em todos os níveis";
· Desastres ecológicos;
· Conflitos armadas;
· O poder crescente do Islã mundial, rumo a pressões pelo reconhecimento da Sharia, ou Lei Islâmica, em áreas com populações significativamente muçulmanas (as reivindicações por "Cortes Kadhi" no Quênia e na Tanzânia são um exemplo);
· HIV/Aids;
· Uma "espiritualidade aprofundada" e uma " sólida inculturação";
· Pobreza geral, incluindo "sérios problemas econômicos em muitas áreas da vida da Igreja" (os bispos acrescentam que a sustentabilidade na Igreja africana deve demonstrar "uma maior responsabilidade e abertura na nossa divulgação das finanças da Igreja", assim como um "manuseio duramente honesto de toda a nossa renda");
· O crescimento de "novas seitas internas" dentro da Igreja, como os movimentos fundados por padres casados e uma "crescente insatisfação de mulheres e jovens".
Os bispos da África Oriental apresentam, então, quatro expectativas para o Sínodo:
· Que seja "muito prático, muito concreto e muito realizável";
· Que tenha um "plano claro de seguimento estratégico ";
· Que respeite "as particularidades e diversidades da Igreja" no continente africano;
· Que seja visto "como um processo, e não como um evento".
* * *
Claro, é quase certo que o Sínodo não irá, na verdade, responder a todas essas expectativas. Pode ser isso o que o arcebispo aposentado Peter Sarpong, de Gana, tinha em mente quanto disse: "O risco é que o segundo Sínodo para a África seja exatamente como os anteriores: uma ocasião para repetir grandes verdades sobre a Igreja, mas sem sugerir aplicações práticas".
A revista católica Leadership, da Uganda, ofereceu uma visão similarmente cética do que o Sínodo pode obter, afirmando que "o nosso problema não é a falta de soluções, mas sim a vontade de efetivamente disseminar e implementar as descobertas". A Revista Teológica Africana afirmou que um segundo Sínodo para a África pode ser prematuro, já que os resultados do primeiro ainda não são amplamente conhecidos ou efetivamente implementados.
Apesar de tudo isso, alguns observadores, no entanto, permanecem esperançosos de que a assembleia possa gerar alguma nova energia útil. O padre jesuíta Peter Henriot, que dirige o Centro Jesuíta de Reflexão Teológica, no Zâmbia, disse recentemente que o tema do Sínodo sobre reconciliação é "muito relevante" não apenas para o Zâmbia, mas para "todos os países africanos".
Na verdade, a mesa parece posta, pelo menos, para três semanas de conversas fascinantes. Assim como fez no passado, espera-se que o Papa Bento XVI participe de muitas das sessões diárias do Sínodo e faça algumas considerações pessoais mais ou menos na metade do encontro.
* * *
Uma nota de rodapé: no dia 08 de outubro, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, junto com a embaixada da Alemanha na Santa Sé, irão promover um concerto que marca o 70º aniversário da Segunda Guerra Mundial, intitulado "Youth against War" [Juventude contra a guerra]. O Papa Bento XVI irá participar do concerto, que apresentará peças de Mendelssohn e Mahler.
Alguns grupos judeus, muitos com sede nos Estados Unidos, também concordaram em copromover o concerto, e espera-se que enviem representantes.
O cardeal Walter Kasper apresentou o evento em uma coletiva de imprensa do Vaticano, na quinta-feira, 1º, e eu lhe perguntei se ele achava que o concerto teria alguma relevância para o Sínodo para a África.
"Quisemos inserir esse evento no contexto do Sínodo", disse Kasper, acrescentando que o Papa pensou que seria "muito importante". A experiência da Europa em superar sua própria história, disse Kasper, poderia oferecer "um sinal, um exemplo" para a África hoje.
Com sua forma própria, indicou Kasper, a Segunda Guerra Mundial foi um conflito étnico e tribal, não inteiramente dessemelhante de muitas guerras africanas. Indicando que nascera em 1933, Kasper disse que cresceu em escolas alemãs. "Fomos ensinados de que os franceses eram nossos eternos inimigos". Agora, afirmou, qualquer afirmação desse tipo só "nos faz rir".
"A Europa hoje é uma esfera de paz, e isso pode ser um sinal para a África de que os conflitos podem ser superados", disse Kasper. Ele também acrescentou que os participantes do Sínodo foram convidados para participar do concerto e que eles aceitaram com entuasiasmo.
"Será algo divertido, já que o Sínodo tende a ser terrivelmente pesado", disse.
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Papa alerta para neocolonialismo cultural na África
Na cerimônia de abertura de um sínodo de bispos africanos que reúne mais de 300 clérigos durante três semanas no Vaticano, o Papa Bento XVI alertou o continente para os “perigos do materialismo”, que ele classificou de “lixo espiritual tóxico” exportado pelos países desenvolvidos.
A notícia é do jornal O Globo, 05-10-2009.
O Pontífice ressaltou a rica herança cultural e espiritual da África, mas lamentou que o continente esteja sendo vítima do materialismo e de grupos que espalham o fundamentalismo religioso, num pano de fundo ligado a interesses políticos e econômicos.
— Eles estão fazendo isso em nome de Deus, mas com uma lógica que que é oposta à lógica divina: ensinar e trabalhar não com amor e respeito pela liberdade, mas com intolerância e violência.
A Igreja Católica vem crescendo com vigor na África, onde passou de 55 milhões de fiéis para 146 milhões, entre 1978 e 2007, segundo cálculos do Vaticano que afirmam serem católicos atualmente 17% da população do continente. Ao mesmo tempo, a região enfrenta sérios problemas de pobreza, conflitos e Aids que têm sido desafios para a atuação da Igreja Católica.
Entre os temas espinhosos que serão debatidos no sínodo está o uso de camisinhas, defendido por muitos como forma de prevenção da Aids, mas condenado pela Igreja.
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Arcebispo de Aparecida (SP) e presidente do Conselho Episcopal Latino Americano (Celam), Dom Raymundo Damasceno Assis, foi nomeado pelo Papa Bento XVI para participar da 2ª Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, de 04 a 25 de outubro, em Roma.

O Sínodo dos bispos é uma reunião de bispos, de uma determinada região ou continente, convocada pelo Pontífice. O continente escolhido, pela segunda vez, foi o africano. A primeira foi em 1994, convocada pelo então Papa João Paulo.